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De Volta ao Zero

01

Laura tinha trinta e cinco anos e era mãe de gêmeos de dez. Naquela manhã, estava ocupada prendendo uma fita no cabelo da filha, Isabela.

Isabela e Lucas eram os nomes dos gêmeos. Os dois estudavam em um dos colégios particulares mais renomados da capital.

—Mãe, o Lucas já tá pronto! —anunciou o menino, surgindo na porta do quarto da irmã com o uniforme impecável.

—Que orgulho, meu filho! Já se arruma sozinho! —Laura elogiou, sorrindo para ele.

—É né, mãe. Diferente da Bela, que é toda manhosa e precisa que a senhora arrume ela todo dia! —Lucas bateu no peito com ar convencido.

—Eu também me arrumo sozinha, tá? A mamãe não me ajuda em nada. Só que eu não consigo prender a fita no cabelo! —Isabela fez bico, irritada com o irmão.

—Chega, chega, vocês dois. Os filhos da mamãe são espertos, os dois. Vamos tomar café? O papai já deve estar esperando na mesa!

Laura pegou cada um pela mão e desceu com eles para a sala de jantar. Era assim todos os dias naquela casa — os gêmeos viviam implicando um com o outro, mas em poucos minutos já estavam de bem de novo.

—Bom dia, pai! —gritaram os dois ao mesmo tempo.

—Bom dia, meus amores! —Bruno, marido de Laura e pai dos gêmeos, respondeu à saudação com um sorriso aberto.

Laura serviu os filhos e o marido com desenvoltura. Aquele calor familiar era a marca registrada de todas as manhãs naquela casa.

—Pai, hoje o senhor leva a gente pro colégio, vai? —Isabela pediu, os olhos brilhando de expectativa.

—Não dá, princesa. O papai tem uma reunião importante cedinho. Vocês vão com a mamãe, tá?

—Ah, pai... Mas no colégio tem o projeto "Pai na Escola"! Eu queria ir igual às minhas amigas, que chegam com o pai delas... —Isabela cruzou os braços, emburrada.

—Não fica assim, filha. Vai com a mamãe, que o papai precisa trabalhar —Laura interveio, acariciando o cabelo da menina.

—É, Bela. Da próxima vez a gente pede pro pai levar —Lucas completou, tentando consolar a irmã.

—Vou indo, tá? Tenho reunião cedo. Tchau, amores! —Bruno terminou o café depressa, pegou a pasta de trabalho e acenou para os filhos, que ainda mastigavam torradas.

Laura acompanhou o marido até a porta. Pegou a mão dele e a beijou com carinho respeitoso.

—Desculpa não poder atender o pedido das crianças, Lau. Essa reunião é urgente mesmo.

—Sem problema, amor. Eles entendem —Laura sorriu para o marido.

—Então tá, vou nessa!

Bruno entrou no carro e saiu pela garagem. Laura voltou para a mesa de jantar e encontrou os gêmeos já de pé, prontos.

—Aqui, meus amores. A lancheira de vocês!

Entregou duas lancheiras — a da Isabela com estampa da Elsa, do Frozen, e a do Lucas com o Superman.

—Vamos, que já está na hora!

Os três saíram de mãos dadas, rindo pelo corredor. Laura dirigiu em velocidade tranquila até o colégio. Os gêmeos iam felizes no banco de trás, e Isabela já parecia ter esquecido da frustração com o pai.

—Chegamos! —Laura parou o carro diante do portão.

Abriu a porta e os dois desceram correndo. Laura beijou a testa de cada um, e eles beijaram a mão da mãe antes de entrar pelo portão aberto. Despediu-se com um aceno e ficou observando até que desaparecessem lá dentro.

Ao sair da escola, Laura passou por uma padaria e lembrou da sogra. Dona Tânia adorava pão de queijo e bolo de fubá no café da manhã. Fazia tempo que Laura não a visitava — resolveu dar uma passada.

Já faz um tempão que não vou lá. Vou aproveitar e levar café da manhã pra ela e pra Raíssa.

Parou o carro e entrou na padaria.

—Moço, me vê dois sacos de pão de queijo e duas fatias de bolo de fubá, por favor.

—Pode deixar, senhora. Um minutinho! —o atendente sorriu.

Enquanto esperava, Laura escolheu também algumas caixinhas de doces caseiros na vitrine ao lado.

—Aqui está, senhora.

—Obrigada. Pode ficar com o troco —disse Laura, entregando uma nota de cem reais com um sorriso.

—Muito obrigado, dona! Que Deus abençoe a senhora! —o rapaz agradeceu de coração.

Laura retomou a direção rumo à casa da sogra. Poucos minutos depois, estacionou em frente. E então percebeu algo estranho: havia uma tenda armada na frente da casa. Uma tenda como as de casamento.

Que evento é esse na casa da dona Tânia? Por que ninguém me avisou?

Laura franziu a testa. Estacionou num terreno vazio ao lado e foi a pé até a casa da sogra.

Um arco de flores enfeitava a entrada — a decoração inconfundível de uma cerimônia de casamento. Mas de quem?

Será que é o casamento da Raíssa? Mas a dona Tânia não me contou nada...

Ao entrar no pátio, algumas pessoas a receberam sem reconhecê-la como nora da dona da casa.

—Com licença, senhor, o que está acontecendo aqui? —Laura perguntou a um homem de meia-idade que parecia recepcionar os convidados.

—É o casamento do filho da dona Tânia, senhora.

—Da Raíssa, o senhor quer dizer?

—Não, senhora. Quem está casando é o filho dela. O Bruno.

Laura sentiu o chão sumir debaixo dos pés. Bruno já era casado. Tinha dois filhos. Como podia estar se casando de novo? Não conseguia acreditar no que acabara de ouvir.

02

Laura não acreditava no que aquele homem acabara de dizer. Avançou com passos rápidos até a porta da casa de dona Tânia, que estava escancarada.

Lá dentro havia muita gente, reunida ao redor do que parecia ser uma cerimônia de casamento. Quando Laura chegou à soleira, ninguém percebeu sua presença — todos os olhos estavam voltados para o altar improvisado na sala.

A voz de Bruno ecoou, alta e firme, pronunciando os votos com o nome de outra mulher. Laura sentiu o corpo inteiro tremer. Era verdade o que o homem lá fora dissera. Quem estava se casando ali era Bruno. Seu marido.

Os convidados aplaudiram.

—Aceito!

—Aceito!

—Aceito!

As vozes dos padrinhos confirmando a união foram como trovões em pleno dia para Laura. Diante dos próprios olhos, viu o marido casar com outra mulher. Seu coração se despedaçou.

Laura permaneceu paralisada na porta. Dona Tânia irradiava felicidade. Nem ela nem Bruno notaram a presença de Laura ali. O mundo de Laura desmoronou num instante — o homem que havia pronunciado seus votos com ela onze anos atrás agora repetia as mesmas palavras para outra mulher.

De repente, alguém a puxou dali. Laura, ainda em choque, não conseguiu reagir — deixou-se levar para fora do pátio sem resistir.

—Me desculpe pela ousadia, dona Laura. —O homem que a puxara soltou sua mão assim que se afastaram o bastante da cerimônia.

—Quem é você?

—Me chamo Tadeu, senhora. Trabalho pro seu Bruno. Eu sei que ele anda mentindo pra todo mundo na empresa, mas nunca tive a chance de falar com a senhora antes. Não imaginei que fosse encontrá-la aqui.

—Como assim, mentindo pra todo mundo?

—O Bruno contou no escritório que a senhora estava muito doente e que a senhora mesma pediu pra ele se casar com a Amanda, a secretária dele.

—Meu Deus do céu... Como ele pôde fazer isso comigo? —Laura pressionou a mão contra o peito, que ardia de dor.

—Dona Laura, a senhora precisa voltar pra empresa. A Amanda maltrata todos nós, os funcionários mais simples. Até desconta do nosso salário quando bem entende, desde que começou a trabalhar lá.

—Está bem, Tadeu. Muito obrigada. Pode ir. Eu vou resolver isso o mais rápido possível. —Laura enxugou as lágrimas que escorriam pelo rosto.

Depois que Tadeu se foi, Laura voltou para o carro. Pegou os sacos da padaria e os doces que havia comprado. Pensou em jogá-los fora.

Mas mudou de ideia. Seria melhor dar para alguém que precisasse. Colocou tudo de volta e arrancou com o carro, deixando a casa da sogra para trás.

No caminho, avistou um catador de recicláveis empurrando seu carrinho pela calçada. Parou o carro e desceu com as sacolas.

—Senhor, aceita? É um agrado.

—Deus abençoe a senhora! Minha mulher e meu filho ainda não comeram hoje! —O homem recebeu tudo com os olhos marejados.

Laura voltou para casa, se jogou na cama e chorou como não chorava há anos. Deixou toda a dor transbordar.

—Por que você fez isso comigo, Bruno? O que foi que eu fiz de errado?

Aos poucos, porém, as palavras de Tadeu voltaram à sua mente. Então era por isso que Bruno vivia chegando tarde, inventando hora extra.

Laura se sentou na cama. Enxugou o rosto.

—Bruno, eu não vou aceitar isso calada. Aquela empresa é dos meus pais, e você teve a cara de pau de enfiar sua amante lá dentro. Vocês não vão ter paz.

Trocou de roupa e vestiu um tailleur. Havia mais de dez anos que não pisava no escritório — largara a carreira para preservar o orgulho do marido, para que ele pudesse se sentir o provedor. E agora ele a traía.

O Grupo Próspera era da família de Laura. Ela era a filha caçula; o irmão mais velho morava no exterior. A administração da empresa ficara nas mãos dela — e ela a confiara a Bruno.

Pode se divertir com sua amante enquanto pode, Bruno. A partir de agora, eu vou te devolver ao que você era antes de me conhecer.

Retocou a maquiagem com traços leves e foi direto ao escritório. Queria tomar de volta o que era seu. Não estava disposta a ver o patrimônio de sua família nas mãos de Bruno e daquela mulher.

—Desculpe, dona Laura, o Bruno não está. Ele saiu pra uma reunião externa —informou a recepcionista.

—Não vim atrás dele. Pode deixar que ele fique onde está.

—Sim, senhora. Fique à vontade.

Laura subiu até a sala que Bruno ocupava havia anos. Ao abrir a porta, sentiu uma pontada no estômago. Sobre a mesa, uma foto de Bruno abraçado com a secretária, em pose íntima. Nos gavetas, pertences pessoais daquela mulher.

—Então vocês já estavam juntos há tempos... Não vou deixar vocês tomarem o que não é de vocês. Vou fazer vocês pagarem por tudo isso.

Chamou a equipe de limpeza e mandou esvaziar a sala por completo — jogou fora todos os objetos pessoais de Amanda, incluindo a mesa que Bruno havia colocado ali para ela.

A vingança começa agora, Bruno. Aproveitem os últimos dias de felicidade de vocês.

Laura fez uma promessa a si mesma: não deixaria aquilo barato. Bruno e Amanda iam pagar — e em breve.

03

Depois de reorganizar a sala, Laura chamou o diretor financeiro. Seu Silvério era um homem que trabalhava na empresa havia décadas. Apareceu visivelmente nervoso diante dela.

—Senhor Silvério, quero o relatório financeiro completo da empresa referente ao último ano! —Laura disse com firmeza.

—Mas, dona Laura... —Seu Silvério hesitou, sem completar a frase.

—Mas o quê, senhor Silvério? O senhor também está envolvido nos desvios de dinheiro que o Bruno fez? Eu não vou hesitar em levar isso para a Justiça se o senhor não for honesto comigo! —Laura o encarou sem pestanejar. Ele tinha a idade de seu pai e estava ali, diante dela, de cabeça baixa.

—Me perdoe, dona Laura. Eu fui obrigado pelo Bruno. Se eu não obedecesse, ele me ameaçava de demissão! —Seu Silvério abaixou a cabeça, sem coragem de encará-la.

—Agora me entregue o relatório financeiro do último ano! —Laura repetiu, sem deixar espaço para desculpas.

Seu Silvério, com as mãos trêmulas, entregou uma pasta a Laura. Ela a abriu de imediato e percorreu cada linha, cada número, com olhos atentos.

—Desde quando essa tal de Amanda trabalha aqui? —perguntou Laura, sem desviar os olhos dos documentos.

—Há dez meses, senhora! —respondeu Seu Silvério, de cabeça baixa.

Laura identificou no relatório diversas transferências de valores altos para a conta pessoal de Bruno, além de depósitos na conta de Amanda. Havia até o registro do pagamento de uma entrada para a compra de um imóvel num bairro nobre, no mês anterior.

Além disso, encontrou passagens aéreas para Florianópolis em nome de Bruno e Amanda, com reserva de hotel por uma semana inteira. Bruno era muito mais esperto do que ela imaginava — usava o dinheiro da empresa para se divertir com a amante.

Então você quer brincar comigo, Bruno? Espere só para ver o que eu vou fazer com você e com aquela mulher.

—Vou cancelar as passagens e a reserva do hotel do Bruno e da Amanda! —disse Seu Silvério.

—Por enquanto, deixe como está. Eles viajam amanhã cedo, não é? Deixe que os dois vão para Florianópolis. Mas cancele tudo assim que eles chegarem lá! —Laura ordenou, com um sorriso de satisfação nos lábios.

Vou fazer vocês dois passarem vergonha na praia, Bruno. Não vou deixar vocês curtirem a lua de mel com o dinheiro da minha família.

—Senhor Silvério, siga todas as minhas ordens à risca. Se o senhor se atrever a ficar do lado do Bruno, eu garanto que vai sair daqui sem receber um centavo de rescisão! —avisou Laura, sem rodeios.

—Sim, dona Laura! —Seu Silvério não tinha escolha. Sabia muito bem quem era a verdadeira dona daquela empresa.

Seu Silvério trabalhava ali desde antes do casamento de Bruno e Laura. Mas durante todos esses anos, fora coagido por Bruno e Amanda a encobrir todas as irregularidades. Agora, finalmente, podia respirar aliviado — a empresa estava de volta às mãos da sua legítima dona.

—Reúna toda a diretoria. Agora. Vamos ter uma reunião! —Laura ordenou.

—Sim, senhora. Vou providenciar imediatamente! —Seu Silvério se retirou.

Cinco minutos depois, Laura entrou na sala de reuniões. Todos os diretores já estavam lá. Laura caminhou direto para a cadeira que Bruno ocupava havia anos à cabeceira da mesa.

—Boa tarde a todos! —Sem rodeios, Laura abriu a reunião.

—Boa tarde, senhora! —responderam em uníssono.

—Reuni vocês aqui porque tenho um comunicado importante. A partir de hoje, quem comanda esta empresa sou eu, e não o Bruno. Se alguém tiver alguma objeção, a porta está aberta. Pode sair agora mesmo! —Laura disse com a voz firme.

O silêncio tomou conta da sala. Ninguém ousou encará-la — nem mesmo aqueles que, nos bastidores, sempre apoiaram o caso de Bruno com Amanda.

—Qualquer decisão relacionada à empresa precisa passar por mim. Repito: se alguém discordar, entregue sua carta de demissão ao departamento de RH! —reforçou Laura.

A sala permaneceu em silêncio absoluto. Ninguém se atreveu a contestar. Todos ali sabiam que Laura era a verdadeira dona do Grupo Próspera, não Bruno.

—Seu Adílson, depois da reunião, traga a ficha da funcionária Amanda até a minha sala! —Laura ordenou ao chefe do RH, que também estava presente.

—Sim, senhora! —respondeu Seu Adílson.

—Se não houver mais perguntas, a reunião está encerrada. Podem voltar ao trabalho! —Laura dispensou a todos com autoridade.

Laura saiu da sala de reuniões com postura impecável. Embora tivesse se afastado do escritório havia onze anos, não era nenhuma ingênua — durante todo esse tempo, continuara acompanhando a gestão da empresa nos bastidores, ajudando o marido em silêncio.

—Com licença, dona Laura. Aqui está o que a senhora pediu! —Seu Adílson entregou uma pasta.

—Obrigada, seu Adílson. —Laura pegou a pasta e começou a folheá-la. Constava ali que Amanda tinha formação técnica em administração.

Então a moça é mesmo da área administrativa. Só que escolheu o caminho errado quando resolveu se meter no meu casamento.

—Quem indicou a Amanda como secretária do Bruno? —perguntou Laura.

—Foi o próprio Bruno, dona Laura. Ele trouxe a ficha dela quando a secretária anterior saiu de licença-maternidade e não voltou —explicou Seu Adílson.

—Certo. Obrigada, seu Adílson. Pode ir.

—Com licença, senhora. —Seu Adílson se retirou.

Sentindo que já fizera o que precisava naquele dia, Laura saiu do escritório para tratar de outro assunto. Algo igualmente importante — e que seria uma bela surpresa para Bruno e Amanda.

Laura foi direto à imobiliária onde Bruno comprara o imóvel para Amanda. Quitou o saldo devedor e transferiu a escritura para o nome de sua mãe, dona Helena. Assim, Bruno jamais conseguiria recuperar aquele imóvel.

Pode continuar com seu joguinho, Bruno. Eu também vou te dar um presente de casamento — você e sua amante. Acham que podem se esbaldar com o que é meu? Nem nos seus sonhos.

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