Capítulo único
Londres estava coberta por uma fina camada de neblina naquela noite. As luzes dos postes brilhavam como pequenas estrelas douradas enquanto carruagens e automóveis cruzavam as ruas molhadas pela chuva recente.
Entre os adultos apressados caminhava um garotinho de aparência comum.
Seu nome era Lucien.
Tinha cabelos negros desalinhados, olhos escuros e roupas simples. Aos olhos de qualquer pessoa, parecia apenas uma criança perdida vagando sozinha pelas ruas da cidade.
Mas aquilo era apenas uma ilusão.
Na verdade, Lucien era o Rei do Submundo.
Séculos atrás, ele havia conquistado reinos ocultos, derrotado monstros ancestrais e governado criaturas que faziam os homens tremerem de medo. Entretanto, o poder que possuía era tão vasto que seu corpo verdadeiro permanecia adormecido em um palácio escondido nas profundezas do mundo. O pequeno garoto que caminhava por Londres era apenas uma manifestação reduzida de si mesmo.
Lucien gostava de visitar a superfície de tempos em tempos.
Não porque precisasse.
Mas porque queria descobrir o que seus servos realmente faziam quando acreditavam que seu rei não estava observando.
— Interessante... — murmurou ele ao ouvir dois demônios disfarçados de comerciantes discutindo sobre quem havia roubado vinho da adega real.
Os dois jamais perceberam que a criança parada na esquina era o próprio soberano.
Lucien continuou andando.
Passou por becos escuros.
Praças silenciosas.
Pontes cobertas pela névoa.
Até que algo chamou sua atenção.
Um brilho.
Não era mágico.
Nem sobrenatural.
Era apenas... belo.
Pela primeira vez em muitos anos, Lucien parou de caminhar.
Do outro lado da rua estava um homem jovem.
Alto.
Elegante.
Vestindo um sobretudo escuro.
Seus cabelos dourados refletiam a luz dos postes e seus olhos azuis pareciam conter o próprio céu.
O nome dele era Adrian Whitmore.
E, sem perceber, Adrian observava uma vitrine enquanto segurava um livro antigo debaixo do braço.
Lucien ficou imóvel.
Não porque estivesse assustado.
O Rei do Submundo não temia ninguém.
Mas porque jamais havia visto alguém tão bonito.
— Estranho... — sussurrou.
Adrian virou a cabeça.
Os olhos azuis encontraram os do pequeno garoto.
Por um momento, o tempo pareceu desacelerar.
Então Adrian sorriu.
Um sorriso simples.
Gentil.
Humano.
Lucien sentiu algo que não experimentava havia séculos.
Surpresa.
Adrian atravessou a rua e se ajoelhou diante dele.
— Você está sozinho, pequeno?
Lucien quase riu.
Sozinho?
Atrás dele existiam legiões de demônios, espíritos e criaturas antigas capazes de destruir impérios.
Mesmo assim respondeu:
— Talvez.
— Talvez? — Adrian sorriu.
— É uma resposta válida.
Adrian observou a roupa simples do garoto.
— Onde estão seus pais?
Lucien pensou por alguns segundos.
— Mortos há muito tempo.
O homem pareceu entristecido.
— Sinto muito.
Lucien não sentia.
Seus pais haviam morrido antes mesmo da fundação de muitos países modernos.
Mas apreciou a preocupação.
Era sincera.
Algo raro.
— E você? — perguntou Lucien.
— Está sozinho?
Adrian olhou para o céu.
— Acho que sim.
Havia algo de melancólico em sua voz.
Algo que até mesmo o rei conseguiu perceber.
Por alguns instantes, os dois permaneceram em silêncio.
Um homem comum.
E o governante mais poderoso do mundo oculto.
Nenhum dos dois parecia se importar com essa diferença.
Então Adrian abriu o livro que carregava.
— Gosta de histórias?
— Sim.
— Eu também.
Adrian retirou uma pequena flor seca que estava guardada entre as páginas.
Era uma flor azul.
Delicada.
Ele a colocou nas mãos de Lucien.
— Fique com ela.
O rei observou a flor.
Durante séculos, havia recebido montanhas de ouro.
Joias.
Tesouros.
Relíquias mágicas.
Mas ninguém jamais lhe dera uma simples flor.
— Obrigado — disse ele.
E aquelas palavras surpreenderam até a si mesmo.
Adrian levantou-se.
— Preciso ir agora.
Mas espero que encontre o que estiver procurando.
Lucien inclinou a cabeça.
— E o que acha que estou procurando?
O homem sorriu.
— Algo que faça você sorrir desse jeito.
Então ele foi embora.
Sem saber quem era a criança que deixava para trás.
Lucien permaneceu parado observando sua figura desaparecer na neblina.
Quando Adrian sumiu completamente de vista, sombras começaram a surgir ao redor do pequeno rei.
Dezenas de servos ocultos ajoelharam-se imediatamente.
— Majestade! — disseram em uníssono.
— Deseja que sigamos aquele humano?
— Quer que descubramos tudo sobre ele?
— Basta uma ordem.
Lucien olhou para a flor azul em suas mãos.
Depois sorriu.
Um sorriso raro.
Talvez o primeiro em muitos séculos.
— Não.
As sombras se calaram.
— Deixem-no em paz.
— Mas, Majestade...
— Isso é uma ordem.
Os servos abaixaram a cabeça.
— Como desejar.
Lucien observou a névoa dançar pelas ruas de Londres.
Pela primeira vez em muito tempo, não estava pensando em guerras, poder ou reinos.
Estava pensando em um homem de olhos azuis brilhantes que lhe dera uma flor sem pedir nada em troca.
E, naquela noite, o Rei do Submundo voltou para seu palácio carregando o presente mais simples e precioso que já havia recebido.
Uma pequena flor azul.
E a lembrança de um sorriso humano.
:::writing
Se quiser, também posso criar outras histórias curtas no mesmo estilo de fantasia, romance ou mistério.