A tarde caía lá fora, pintando o céu com tons de violeta e laranja, enquanto o som suave da chuva no vidro da janela ditava o ritmo dentro do apartamento. Brenda e Vitória dividiam o sofá pequeno, com as pernas entrelaçadas sob uma manta de tricô. Na mesa de centro, duas canecas de café já frias dividiam espaço com pilhas de livros e fones de ouvido embolados. Aquele silêncio não era desconfortável; era o tipo de calmaria que só existe quando há muita intimidade.O início da história delas não tinha sido um clichê de cinema, mas guardava uma poesia própria. Conheceram-se um ano antes, na seção de literatura clássica de uma livraria no centro da cidade. Brenda procurava por um livro de crônicas esgotado, e Vitória, que trabalhava lá aos sábados, passou quase meia hora revirando o estoque até encontrar o último exemplar. O agradecimento de Brenda virou uma conversa no balcão, que virou um café na esquina, que logo se transformou em mensagens diárias que se estendiam até a madrugada.O que tornou a conexão entre as duas tão profunda desde o começo foi a honestidade. Ambas eram mulheres bissexuais e compartilhavam bagagens parecidas, mas também as mesmas cicatrizes invisíveis que vinham com essa identidade.