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Exigida

Capítulo 1- Prólogo

Moscou- 6 anos Nikolai Ivanov

Estou na minha cama, quentinho, quando ouço barulhos. Minha mamãe grita.

Desço da cama correndo, meus passos abafados pelas meias. Papai está batendo nela de novo.

Mamãe acusa papai de estar com outra mulher. Eles brigam sempre por isso.

Me escondo atrás de um móvel, tremendo. Mamãe tenta segurá-lo, mas ele ordena que ela solte. Ela não solta. Então, papai dá um tapa no rosto da minha mãe e ela cai chorando no chão.

Espero meu pai sair. Corro até minha mamãe ela está deitada, os olhos inchados e vermelhos. Me deito ao lado dela. Ela me olha com lágrimas nos olhos, e eu a abraço, tentando proteger minha mãe. Ficamos assim por um tempo, em silêncio, entre soluços e abraços apertados.

Mamãe me afasta suavemente, segura meu rosto com as mãos e olha profundamente nos meus olhos.

— Prometa que nunca vai amar ninguém — diz, a voz trêmula. — O amor… é a maior fraqueza que existe.

Mamãe me aperta ainda mais forte, como se quisesse me fundir ao próprio coração dela.

— Você precisa me prometer! — sua voz treme, mas é firme, quase um grito. — Promete, Nikolai!

Sinto o peso das palavras, o medo, a dor no olhar dela, e algo se quebra dentro de mim. Engulo em seco, o coração batendo rápido.

— Eu prometo… — digo, a voz baixa, mas carregada de verdade.

Ela me segura firme, me olha com lágrimas escorrendo, e por um instante o mundo lá fora desaparece. Entre dor, medo e amor, aquela promessa se grava na minha alma uma promessa que moldaria cada escolha minha, cada relação, cada passo que eu daria na vida.

Mamãe se levanta, ainda chorando, mas com uma determinação silenciosa que me faz sentir seguro. Ela me pega nos braços e me leva de volta para a cama. Com cuidado, me cobre, ajeita as cobertas sobre mim e deposita um beijo suave na minha testa.

— Durma, meu amor — sussurra, a voz trêmula, mas cheia de carinho.

Ela se afasta, vai até a porta e a fecha atrás de si, deixando-me sozinho no quarto. O silêncio volta, pesado, mas agora misturado com a sensação do abraço dela ainda presente em mim.

Deitado, com o coração ainda acelerado, sinto o peso da promessa que fiz. O amor… uma fraqueza, disse ela. E, de alguma forma, sei que aquelas palavras me acompanharão para sempre.

Acordo de manhã com o barulho e a movimentação na casa. O corredor está cheio de soldados, correndo de um lado para o outro, passos pesados ecoando pelo chão. O coração dispara.

A porta do quarto da minha mãe está aberta. Quando olho, vejo algo que congela o sangue nas minhas veias: ela está caída no chão, em meio a uma poça de sangue escura, os olhos arregalados, imóveis.

Tento entrar, mas um dos homens me segura com força. Eu me debato, grito, tento me soltar, mas nada funciona… até que, desesperado, mordo a mão dele. Ele grita, e consigo finalmente escapar.

Corro para minha mãe, o corpo pequeno se jogando sobre o dela. Ela está fria, rígida, e eu abraço o corpo gelado como se pudesse trazê-la de volta.

Choro até que o ar me falte, até que minhas lágrimas e soluços pareçam não ter fim. Cada batida do meu coração é dor, cada suspiro é medo, e uma parte de mim se quebra ali, para sempre.

Capítulo 2- Despedida de solteiro

Nikolai Ivanov 38 anos.

Dias Atuais

Estou saindo da empresa quando meu celular toca pela terceira vez. É Tatiana.

— Já estamos te esperando há séculos! — ela resmunga do outro lado da linha, impaciente.

— Já vou — digo, mantendo a calma, fingindo surpresa. No fundo, sei exatamente o que ela preparou: minha despedida de solteiro.

Tatiana é minha brigadier, meu braço direito mesmo sendo mulher, é melhor que muitos homens em tudo. A mais confiável que tenho. Se tem alguém que consegue organizar a bravta, é ela, na minha ausência.

Entro no carro e sigo direto para a boate. Subo as escadas para o meu setor secreto, fingindo surpresa. O lugar está lotado, cheio de mulheres e homens, alguns já claramente fora de si.

Tatiana caminha na minha direção, sorrindo maliciosamente.

— Surpresa! — diz, com aquele brilho de travessura nos olhos. — Essa é a sua última noite de solteiro. Aproveite! Fizemos até um ranking de quantas mulheres você consegue transar hoje… porque, a partir de amanhã, você é um homem casado.

Sinto o ar carregar de adrenalina e diversão. É o começo de uma noite que ninguém vai esquecer — e, mesmo fingindo indiferença, não posso negar que estou curioso para ver o que Tatiana preparou.

Desfaço o nó da gravata e começo a me soltar. Se me propõem um desafio, eu nunca corro. É o meu território, minha regra. A noite passa entre risos, taças erguidas e olhares desafiadores.

Acordo de manhã com um tapa na bunda.

— Tatiana! — xingo, ainda com o corpo meio pesado do sono. — Sai daqui!

— Já está atrasado! — ela responde, rindo.

Abro um olho, tento me levantar, mas percebo que há corpos demais em cima de mim. Lentamente, me desvencilho, tentando não acordar ninguém. Quando olho para a cama, vejo quatro mulheres completamente apagadas, espalhadas de forma caótica.

Tatiana ri alto, a voz cheia de malícia:

— Vai se arrumar, Nikolai. Coloca uma roupa antes que os italianos desistam da aliança.

Sinto a adrenalina da noite passada ainda pulsando, misturada ao cansaço e a uma estranha sensação de conquista. Apesar do caos, consigo perceber a precisão de Tatiana: tudo planejado, tudo sob controle… como sempre.

Tomo um banho demorado, deixando a água levar o cansaço da noite anterior. Me arrumo com cuidado, escolhendo cada peça como se fosse parte do meu território. Desço para o carro e já vejo Tatiana encostada no capô, sorriso malicioso nos lábios. Dmitry está ao lado dela, cruzando os braços e observando como se tudo fosse um espetáculo.

Jogo as chaves para Tatiana sem nem olhar. Ela pega no ar com destreza, como se estivesse acostumada a me obedecer. Sento no banco do carona, fecho os olhos e respiro fundo, tentando esquecer o que restou da noite anterior até chegarmos à pista de pouso.

— Você tá acabado, hein? — Dmitry quebra o silêncio, rindo, enquanto olha para mim.

Abro um olho, franzindo a testa:

— Cala a boca — digo, mas consigo segurar um sorriso. — Isso é só aquecimento.

Tatiana ri por baixo, balançando a cabeça. Sei que ela adorou ver meu lado humano por algumas horas, mesmo que eu tente negar. A viagem promete ser longa, mas com eles ao lado, o caminho já começa com risos, provocações e aquela sensação de que nada vai me derrubar hoje.

No jatinho, me deixo levar pelo cansaço da noite anterior. Fecho os olhos e, antes que perceba, estou dormindo profundamente, embalado pelo ronco constante dos motores.

Quando acordo, já estamos pousando na Itália. O sol da manhã entra pelas pequenas janelas do jatinho, iluminando o interior e despertando a sensação de que uma nova fase está começando.

Sem perder tempo, seguimos direto da pista de pouso para o hotel. O carro se move rápido pelas ruas, enquanto observo a paisagem italiana passando pelas janelas. O cheiro do ar, a luz dourada e a expectativa do que nos espera criam uma tensão silenciosa e eu sei que cada momento a partir daqui será decisivo.

Tatiana e Dmitry conversam animadamente na frente, mas eu me mantenho em silêncio, absorvendo cada detalhe, sentindo o peso e o prazer de estar de volta a esse território que, de certa forma, também me pertence em partes.

Capítulo 3- Último dia em casa

Helena Lombardi 18 anos

Eu ainda não consigo acreditar que amanhã será o dia do meu casamento. Três anos esperando, sonhando acordada com Nikolai, com o nosso futuro, com os filhos que imaginei tantas vezes antes de dormir. Sempre achei que, quando esse dia chegasse, eu estaria completa, leve, feliz sem ressalvas.

Mas hoje… hoje algo aperta no meu peito.

A ficha cai de um jeito diferente. Vou ficar longe dos meus pais, do meu irmão, do meu mascotinho Salvatore. Só de pensar, o ar parece faltar. É como se o coração estivesse sendo puxado em direções opostas: uma para o homem que vou construir uma família, outra para tudo o que sempre foi meu lar.

Sinto saudade antes mesmo de partir.

Saudade do cheiro da casa, das risadas no jantar, das brigas bobas, do colo da minha mãe.

Saudade do meu pai.

Saudade de tudo.

Respiro fundo, tentando me acalmar. Digo a mim mesma que amar também é coragem. Que crescer dói um pouco. Ainda assim, deixo uma lágrima escapar, silenciosa, enquanto abraço esse medo que insiste em caminhar ao meu lado na véspera do “para sempre”.

A noite inteira eu me revirei na cama, o sono indo e vindo, inquieto como o meu coração. Quando finalmente desisto de dormir, vejo o sol nascer pela janela. A luz da manhã invade o quarto e eu olho em volta com um aperto doce no peito, como quem tenta guardar cada detalhe para não esquecer nunca.

Entro no banho e deixo a água cair sobre mim enquanto choro tudo o que guardei. Choro o medo, a saudade antecipada, a mudança. Quando saio, me sinto mais leve, como se tivesse lavado a alma junto com o corpo.

Visto uma roupa clara, leve, e desço para o café da manhã. Todos já estão à mesa. O barulho das conversas, o cheiro de café fresco… tudo parece mais intenso hoje.

Chego sorrindo, abrindo os braços: — Estão preparados para ficar sem a pessoa mais amada dessa casa?

Minha mãe me olha… e começa a chorar na mesma hora. A reação dela arranca uma risada minha, mesmo com os olhos marejados. Vou até ela, me inclino e a abraço forte.

— Ei… — digo baixinho — eu sempre vou voltar. Vou passar as férias com você, prometo.

Ela me aperta como se quisesse me guardar ali para sempre, e eu fecho os olhos por um instante, tentando gravar aquele abraço no coração. Porque, a partir de hoje, tudo muda

Tomamos o café fingindo normalidade. Rimos, conversamos sobre coisas pequenas, como se aquele não fosse um dia definitivo. Cada olhar carrega um pouco de saudade disfarçada, mas ninguém diz nada. É o nosso pacto silencioso.

Salvatore puxa minha mão e pede, com aquele sorriso que sempre me desmonta:

— Toca um pouco pra mim?

Vou com o meu mascotinho até o piano. Ele se senta ao meu lado, balançando as pernas enquanto meus dedos encontram as teclas. A música sai suave, quase tímida, mas cheia de sentimento. É a minha forma de dizer adeus sem usar palavras. Quando termino, ele me abraça apertado, como se sentisse que algo grande está prestes a mudar.

Algumas horas depois, a equipe chega para me arrumar. A casa se enche de vozes, risadas, perfumes e passos apressados. Decidimos transformar o dia em algo leve, quase mágico.

Montamos um verdadeiro dia de SPA ali mesmo, só para nós três: Natália, mamãe e eu. Entre máscaras faciais, massagens e taças de espumante, rimos de histórias antigas, relembramos momentos bobos, choramos um pouquinho e logo depois rimos de novo.

Por algumas horas, o tempo parece parar. Não sou a noiva de um acordo, nem a filha que está partindo. Sou apenas uma mulher cercada de amor, sendo cuidada por quem sempre esteve comigo. E guardo esse momento como um tesouro, sabendo que ele vai comigo para onde quer que a vida me levar

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