Derek Marville
Acordo com o gosto metálico de quem já perdeu antes mesmo de abrir os olhos.
Quarenta e oito anos hoje.
O relógio de cabeceira marca 5h47. A cama king size está fria do lado esquerdo há exatamente nove anos, quatro meses e doze dias. Laura nunca mais voltou para aquecer aquele espaço.
Levanto, o corpo pesado como se carregasse as garrafas inteiras do estoque da Marville nas costas. O espelho do banheiro devolve um homem que o mundo teme… alto, ombros largos, cabelo grisalho nas têmporas, olhos verdes que parecem sempre prontos para matar. Mas eu sei a verdade, por dentro sou só caco.
A memória vem sem pedir licença. Cemitério debaixo de chuva fina. Eu de joelhos na lama, terno caro arruinado, segurando a mão gelada dela dentro do caixão.
— Nunca mais, Laura. Prometo. Nunca mais vou tocar em outra mulher. Nunca mais vou amar.
Palavras de um viúvo de trinta e nove anos que achava que o coração tinha morrido junto. Dou um soco no azulejo. O nó nos dedos dói menos que a lembrança.
Às nove em ponto entro na sala de reuniões do último andar. Advogados de terno cinza, caras de quem já enterrou mais segredos do que gente. O chefe do jurídico empurra o documento centenário na minha direção.
— A cláusula é clara, senhor Marville. O Ceo em exercício precisa gerar um herdeiro legítimo antes de completar cinquenta anos. Caso contrário, a liderança passa automaticamente para os próximos na linha sucessória.
Próximos na linha sucessória: Anthon e Alanis. Meus irmãos, os gêmeos. Dois alcoólatras que gastariam o império de cem anos em champanhe barato e cocaína antes do fim do mês.
Como se invocados pelo demônio, as portas se abrem com estrondo.
— Olha o rei sem coroa! — Anthon entra cambaleando, garrafa de vodka barata na mão. — Parabéns pelos quarenta e oito, maninho. Tá na hora de arrumar uma vadia pra abrir as pernas, né? Senão a gente toma esse brinquedo todo pra gente.
Ele abre os braços apontando para todos os lados. Alanis solta uma gargalhada molhada, irritante, alta e completa:
— Eu até arranjo umas amiguinhas pra você. Baratinho. Elas engolem tudo, até o orgulho.
Sinto o sangue latejar nas têmporas. A mesa de mogno treme quando aperto os punhos. Um estalo alto ecoa, a madeira racha sob meus dedos. Quero quebrar o pescoço deles. Quero acabar com essa palhaçada agora. Mas não posso. Ainda não.
— Fora. — minha voz sai tão baixa que os advogados recuam nas cadeiras — Fora da minha sala antes que eu esqueça que somos do mesmo sangue.
Eles riem, mas saem tropeçando. O cheiro de álcool fica no ar como insulto. Eu odeio o que o dinheiro fez com esses dois.
Volto para o meu escritório. Passo pela ante sala e vejo Clarissa, a secretária que está aqui há seis anos, batom vermelho demais, saias curtas demais, olhares longos demais. Ela sorri aquele sorriso que já me deu nojo centenas de vezes.
— Parabéns, senhor Marville… se precisar de algo pra relaxar depois dessa reunião… estou aqui só para servi-lo.
— Você está demitida. O segurança vai acompanhar você até a saída.
O sorriso dela morre. Não me importo. Nunca mais quero uma mulher me olhando como se eu fosse solução.
Mason entra logo depois, barriga de oito meses, pasta na mão, cara de quem já resolveu minha vida.
— Senhor, semana que vem entro de licença maternidade. Mas já achei a substituta perfeita. Experiência impecável, discreta, extremamente competente. Começa segunda-feira. O senhor vai aprovar.
Agradeço com um aceno. Não pergunto nome. Não me importo.
A noite cai. O prédio esvazia. Fico sozinho no escritório à meia-luz, só o abajur dourado e a garrafa de conhaque envelhecido trinta anos, o carro-chefe da família, o mesmo que meu avô engarrafou.
Sirvo um dedo. Dois. Três.
Pego a foto dela na gaveta. Laura sorrindo em Paris, vinte e nove anos, cabelo ao vento, olhos que faziam o mundo valer a pena.
— Eu não vou perder isso tudo. — falo para o nada, para ela, para o copo na minha mão — Nem que eu tenha que comprar, roubar ou engravidar a primeira mulher que cruzar aquela porta.
O conhaque queima a garganta. O relógio marca 23h58. Em dois anos faço cinquenta. O império Marville não vai cair nas mãos de dois bêbados. Eu jurei nunca mais amar. Não jurei nunca mais føder.
Bebo o resto de uma vez. A decisão está tomada. Que venha a próxima mulher que entrar por aquela porta. Ela ainda não sabe, mas já é minha para ter meu herdeiro.
O celular vibra na mesa de mogno. Nome na tela: Victor Lang. Eu sorrio de canto. O rato finalmente saiu da toca. Aceito a chamada e coloco no viva-voz só para ouvir melhor o desespero dele.
— “Marville, seu filho da puta!” — a voz de Lang treme de raiva e uísque barato — “Você acabou de comprar a última rede de distribuição que me restava no Nordeste. Como diabos você fez isso em quarenta e oito horas?”
Eu giro o copo de conhaque, observando o líquido dourado girar como o mercado que acabei de engolir.
— Olá, Victor. Ou melhor, bom fim de império. — Eu me recosto na cadeira, pés na mesa centenária — Você queria brincar de guerra de preços, lembra? Baixou o Lang’s Gold em vinte e cinco por cento só pra tentar roubar meus clientes de conhaque premium. Acha mesmo que eu deixaria um escocês de segunda categoria morder o calcanhar do Marville 30 anos?
Silêncio do outro lado. Consigo ouvir o ego dele rachando.
— “Eu tinha um acordo verbal com o Freitas!” — ele grita — “Ele jurou que não venderia!”
Eu rio baixo, aquele riso que faz o conselho inteiro calar a boca.
— Acordo verbal não vale o papel que não foi assinado, Victor. Ontem à noite ofereci ao Freitas o dobro do que você pagava e mais dez por cento das ações preferenciais da nova linha sem álcool que lanço no ano que vem. Ele aceitou antes de eu terminar a frase. Inteligente, o homem. Sobrevive.
Ouço algo se quebrar do outro lado da linha. Provavelmente uma garrafa. Que ironia.
— “Você acha que acabou?” — ele rosna — “Ainda tenho as destilarias no interior!”
— Tinha. — corrijo, abrindo a gaveta e pegando o contrato que assinei há exatos dezenove minutos — Acabei de fechar com o banco que financia suas destilarias. Eles preferiram meus juros menores e minha garantia pessoal. Amanhã seus alambiques viram sucata ou passam a produzir o novo Marville Reserve 18 anos. Escolha sua dor.
Silêncio mortal. Depois um som engasgado, quase um soluço.
— “Eu te destruo, Marville. Eu juro por Deus que te destruo.”
Eu me inclino para o telefone, voz baixa, quase carinhosa.
— Victor, eu já destruí você. Você só ainda não recebeu a fatura. E quando receber, vai ser em forma de nota fiscal com meu nome estampado em cada garrafa que um dia foi sua.
Desligo antes que ele consiga gritar mais. Olho para a foto da Laura na mesa.
— Desculpa o linguajar, amor. Negócios são negócios.
Sirvo mais um dedo de conhaque, brindo com o reflexo dela no cristal. No mundo das bebidas, ou você é o predador, ou vira rótulo de promoção. Victor Lang acabou de descobrir que eu nunca fiz promoções.
Eu preciso arrumar uma mulher disposta a ter um filho meu. Porque agora não é só sobre o império. É sobre legado. E legado exige sangue. Meu sangue. Correndo nas veias de um filho que ainda nem existe.
Derek Marville
Damares Reese
Acordo com o estrondo da porta do quarto sendo esmurrada. Eu nunca posso realmente dormir até depois das oito, sempre sou despertada assim entre seis e sete da manhã.
— Damares! Levanta dessa cama, sua preguiçosa! Parece uma bola de tão gorda! — a voz da minha mãe atravessa a madeira como faca no meu peito — Homem nenhum quer uma depressiva que não cabe nem na própria roupa!
Abro os olhos para o teto manchado do quartinho de 3x3 onde ainda moro aos vinte e seis anos feitos. O relógio marca 7h12. O estômago já se contrai antes mesmo de eu levantar.
— Deixa a menina, Márcia — a voz do meu pai vem do corredor, falsa piedade — Deixa ela dormir. Dormindo pelo menos não come.
Risos. Os dois rindo de mim. Como sempre.
Fico deitada mais um minuto, respirando fundo, tentando lembrar quando foi a última vez que alguém nessa casa me chamou pelo nome sem cuspir veneno junto. Não lembro.
Levanto. O chão frio queima os pés. Passo pelo corredor e ouço a continuação:
— Olha o estado dessa menina, Márcia. Vinte e seis anos e parece quarenta. Se continuar assim vai morrer solteira e gorda.
— Ela vai morrer é de diabetes. — minha mãe retruca — Ou de vergonha. Olha só para ela, nem o cabelo a deixa bonita com esse rosto de lua cheia.
Chego na cozinha tentando ignorar. Pego uma caneca para o café. Minha mãe me mede de cima a baixo.
— Vai mesmo tomar café? Não tem medo de explodir essa calça, não? Se for tomar pelo menos não coloque açúcar.
Engulo seco. Coloco a caneca de volta. Saio sem dizer nada. Eu queria ter o mesmo corpo de antes de me casar com o meu ex-marido. Parece que me casar com ele me levou a uma espiral sem volta.
— “Pode comer a vontade, amor.” — ele dizia — “Amo você pelo que é e não pelo seu corpo.”
Grande iludida eu fui.
No banheiro, tranco a porta e encaro o espelho. Um metro e sessenta, noventa e dois quilos. Seios grandes demais para qualquer sutiã de loja de departamento, quadril largo, coxas que se tocam até o joelho, cintura que ainda existe, mas que ninguém nunca vê porque fica escondida debaixo de blusas largas.
Eu sou bonita. Eu sei que sou. Mas aprendi a odiar cada centímetro meu porque todo mundo odiou primeiro. A memória vem sem aviso, como sempre vem.
Dois anos atrás. Eu chegando em casa mais cedo do trabalho. A porta do quarto entreaberta. Gemidos muito alto.
Entro e vejo, meu marido, ex-marido, de costas, transando com uma menina que mal devia ter vinte e um. Magrela, pele bronzeada de academia, cintura de vespa, silicone nos seios, bunda empinada de agachamento. Ela de quatro na nossa cama, gemendo alto, enquanto ele segurava o celular filmando.
— Isso, sua pütinha, mostra pra câmera como você é apertadinha…
Eu paralisei na porta. Ele virou, me viu, nem se assustou. Só sorriu com desprezo.
— Chegou cedo hoje, gorda. Quer assistir? Olha como uma mulher de verdade geme.
A mulher, que depois descobri que era uma influencer do Instagram com cento e cinquenta mil seguidores, virou o rosto, riu e disse:
— Meu Deus, amor, é essa a baleia que você aguentava? Como você conseguia transar com isso sem nojo?
Ele riu junto. Continuou metendo nela enquanto me olhava nos olhos. Eu estava em completo choque.
— Eu fingia que ela era uma gostosa mais magra. Mas nem assim dava tesão. Ela é flácida, mole, fedida. Já você é firme, cheirosa, gostosa. Olha a diferença.
Eu chorei. Claro que chorei. Corri para o banheiro e vomitei. Quando voltei, eles já estavam vestidos, tirando selfie na cama onde eu dormia há cinco anos.
— Assina logo o divórcio. — ele jogou os papéis na minha cara — E emagrece, vai. Quem sabe alguém pega você de penhora.
Saí de casa com uma mala e o coração em pedaços. Voltei para a casa dos meus pais porque não tinha para onde ir. E aqui estou, dois anos depois, mais gorda, mais triste, mais quebrada.
O celular vibra no bolso do pijama. Nome na tela, Mason. Atendo já sorrindo. Ela é a única pessoa que ainda me chama de bonita sem parecer mentira.
— “Damares, pelo amor de Deus, me salva!” — a voz dela está desesperada e feliz ao mesmo tempo — “Meu chefe precisa de alguém de confiança pra cobrir minha licença maternidade. Três meses, talvez quatro. Salário três vezes o que você ganha hoje. Três vezes. E é na Marville Distilleries, aquela do conhaque caro. Eu já falei de você, ele topou. Você topa? Por favor, amiga, eu não confio em mais ninguém pra assumir meu lugar!”
Três vezes o salário. Três vezes a chance de sair dessa casa-prisão.
— Eu topo. — respondo sem nem pensar.
— “Graças a Deus!” — ela grita. — “Segunda, nove em ponto. Use aquele vestido preto justo que você tem, aquele que te faz parecer uma deusa grega plus size. E batom vermelho. Você vai arrasar.”
Desligo o telefone com o coração batendo forte pela primeira vez em anos.
Vou até o armário, pego o vestido preto que não uso desde o casamento de uma prima. Tamanho 46, justo, decote discreto na frente, mas que abraça cada curva como se tivesse sido feito sob medida. Coloco na frente do corpo e olho no espelho.
Eu sou bonita.
Eu sou inteligente.
Eu sou forte pra caralhø.
No domingo, passo o dia lavando o cabelo, fazendo hidratação, depilando cada pedacinho, pintando as unhas de vermelho escarlate. Quando minha mãe entra no quarto à noite e vê o vestido estendido na cama, ela solta o clássico:
— Vai usar isso? Vai parecer um botijão de saia.
Eu sorrio. Pela primeira vez em anos, sorrio de verdade.
— Vou sim, mãe. E amanhã eu saio dessa casa pra nunca mais precisar ouvir vocês me chamarem de gorda.
Ela abre a boca pra retrucar. Eu bato a porta na cara dela.
Deito na cama com o coração acelerado. Amanhã começa uma nova vida. Amanhã eu entro na sede da Marville Distilleries como substituta temporária da minha melhor amiga. Amanhã ninguém mais vai me humilhar.
Eu não vou deixar que os outros me digam o que fazer. Vou provar meu valor.
Damares Reese
Damares Reese
Chego à sede da Marville Distilleries treze minutos antes do horário marcado. O prédio de vidro fumê reflete o céu cinzento da manhã como se fosse um monstro de luxo.
O porteiro de luvas brancas abre a porta com um “bom dia, senhorita” que soa mais caro que o aluguel inteiro do apartamento dos meus pais.
O hall parece um palácio, chão de mármore italiano, lustre de cristal que deve custar um carro, e o cheiro sutil de carvalho envelhecido que vem dos elevadores privativos.
Subo até o último andar com o coração na boca. A recepcionista, uma loira de vestimenta impecável, me mede de cima a baixo, mas sorri com educação medida.
— Srta. Reese? O senhor Marville já a espera.
Ela me conduz por um corredor onde cada quadro nas paredes vale mais do que eu jamais terei na vida. A porta do escritório é de madeira maciça, sem placa. Ela bate duas vezes e abre.
— Pode entrar. Boa sorte.
Entro e a porta se fecha atrás de mim com um clique suave que soa como sinal de algo que está por vir. Eu ignoro, preciso desse emprego.
A sala é enorme, toda em tons de cinza-escuro e dourado envelhecido. Uma mesa de mogno que parece ter séculos ocupa o centro. Atrás dela, uma parede inteira de vidro dá para a cidade inteira lá embaixo, como se o dono dali olhasse o mundo de cima e decidisse quem vive ou morre.
Sento-me na cadeira de couro à frente da mesa. O vestido preto sobe um pouco nas coxas quando cruzo as pernas. Ajeito como posso. O silêncio é tão denso que consigo ouvir meu próprio sangue correndo.
A porta se abre de novo, dessa vez sem bater. Ele entra. Derek Marville em carne, osso e perigo puro.
Um metro e noventa e dois de puro poder. Terno azul-marinho cortado sob medida, camisa branca aberta no primeiro botão, revelando o início de um peito que não tem nada de executivo comum, ele tem tatuagem.
Cabelo escuro com fios grisalhos nas têmporas que só o deixam mais perigoso. Olhos verdes, tão claros que parecem feitos de gelo. Ele fecha a porta com um movimento lento, como quem prende uma presa.
Não fala nada. Só me encara. Dos pés à cabeça. Lentamente. Como se estivesse tirando cada peça de roupa com os olhos.
Sinto o ar sumir dos pulmões. O vestido de repente parece pequeno demais. Os seios pesam contra o tecido. As coxas se apertam sem eu mandar.
Ele dá a volta na mesa, passos decididos no tapete persa. Para atrás da cadeira dele. Apoia as mãos no encosto, inclinando o corpo para frente. O cheiro dele chega antes da voz, madeira, conhaque caro e algo mais escuro, mais masculino. Então a voz sai, rouca, baixa, quase um rosnado:
— Você tem namorado, Srta. Reese?
Engulo em seco. A pergunta me pega tão desprevenida que quase gaguejo. Mas levanto o queixo.
— Não. E nem pretendo ter tão cedo.
Ele sorri. Um sorriso de canto de boca que não chega aos olhos, mas que faz meu ventre dar um salto.
— Ótimo.
Ele pega um contrato grosso, encadernado em couro preto, e empurra na minha direção. São mais de cinquenta páginas. Eu nem consigo ver o título direito.
— Assine aqui. — ele aponta a última página, já com uma caneta Montblanc ao lado.
— Mas… eu nem li…
— O RH fecha em oito minutos porque a equipe tem treinamento de incêndio hoje. — ele corta, voz firme, mas ainda baixa — Se quiser o emprego, assina agora. Depois você lê com calma em casa.
O coração dispara. Três vezes o salário. Sair daquela casa. Provar que eu valho alguma coisa. A caneta pesa na minha mão como se fosse feita de chumbo.
Assino. Damares Reese. Letra firme, mesmo com a mão tremendo por dentro.
Ele pega o contrato de volta, olha com calma, guarda dentro de uma pasta preta e tranca na gaveta. O clique da gaveta soa definitivo. Ele se levanta. Dá a volta na mesa de novo. Para atrás de mim. Eu não ouso me mexer um centímetro.
Derek se inclina. O calor do corpo dele queima minha nuca. Sinto o nariz dele roçar, quase imperceptível, a curva do meu pescoço. Inspira fundo. Como se estivesse me cheirando.
Um arrepio violento desce pela minha coluna. Os mamilos endurecem contra o sutiã. As coxas se apertam mais ainda.
— Bem-vinda à Marville, Damares. — a voz dele é um sussurro quente contra minha orelha — A partir de amanhã… você é toda minha.
Fico paralisada. O corpo inteiro arrepia como se tivesse levado um choque. Ele se afasta devagar, volta para trás da mesa, senta-se como se nada tivesse acontecido. Eu me levanto, as pernas bambas. A porta parece a quilômetros de distância.
— Até amanhã, Srta. Reese. — ele diz, sem tirar os olhos de mim.
— A-até amanhã… senhor Marville.
Saio cambaleando. O corredor parece girar. Só quando entro no elevador é que consigo respirar de novo.
— O que acabou de acontecer? — pergunto para mim mesma — E por que, mesmo com medo, meu corpo inteiro ainda está pegando fogo?
Saio do elevador e atravesso o hall de mármore com as pernas ainda tremendo. O ar condicionado gelado bate no meu rosto quente e mesmo assim sinto um calor insistente entre as coxas, uma pulsação que não consigo ignorar.
Aquele homem me olhou como se já tivesse me fodidø em cima daquela mesa. E o pior, parte de mim quis que ele fizesse. No meio da calçada, o celular vibra.
— “E aí, amiga?! Como foi?” — a voz alegre de Mason explode no meu ouvido.
— Foi… estranho pra caralhø. — respondo, a voz saindo rouca — Mas consegui o emprego.
— “Eu sabia! Ele é intenso, né? Não liga, é o jeito dele. Você começa amanhã?”
— Começo. Mason… eu não posso passar mais uma noite na casa dos meus pais. Não aguento mais. Hoje eu explodo.
Ela fica calada por dois segundos do outro lado.
— “Meu apê antigo ainda tá vazio, Dama. Eu ia alugar mês que vem, mas é teu. Mobiliado, limpinho, chave com o Seu Ewan, o porteiro. Paga o primeiro aluguel quando receber o salário, sem pressa. É pequeno… quarto com banheiro, cozinha americana com sala e uma varandinha que cabe uma mesinha e duas cadeiras. Perfeito pra começar de novo.”
Lágrimas sobem quentes nos olhos.
— Você está me salvando, amiga. De verdade.
— “Te vejo amanhã na empresa, ainda tenho que te passar algumas coisas. Vai lá pegar a chave que vou deixar com o seu Ewan e já dorme lá hoje. Nova vida, nova Damares.”
Desligo e corro pro metrô. O caminho até o antigo prédio de Mason parece voar. Ela deixou mesmo a chave com o porteiro.
Em casa, abro a porta com a chave reserva e já dou de cara com a dupla de sempre.
— Olha, a prima da Ellie da Era do Gelo, voltando do “trabalho”. — meu pai zomba do sofá, cerveja na mão — Achou que ia arrumar emprego de verdade vestida como um botijão de saia preta?
Minha mãe me segue até o quarto e quando me vê puxando as malas pergunta venenosa:
— Vai embora mesmo? Sozinha você passa fome, minha filha. Mas pelo menos emagrece, né? Quem sabe vira gente.
Respiro fundo. Pego as malas que já estavam prontas no quarto desde ontem.
— Eu vou embora agora. E nunca mais vou ouvir essa merda de vocês.
— Vai morrer de fome! — gritam juntos enquanto eu bato a porta.
No táxi, o coração bate tão forte que dói. Chego ao prédio antigo de Mason no centro. Seu Ewan, o porteiro, me cumprimenta com um sorriso largo.
— A dona Mason avisou que a senhorita é a nova moradora, passou aqui tão rápido mais cedo que mal pude falar. Bem-vinda!
Subo os quatro lances de escada correndo. Abro a porta do 403.
O apartamento é pequeno, simples, perfeito. Piso de cerâmica fria, sofá cinza de dois lugares, mesa de jantar que vira escritório, cozinha americana com fogão novinho.
Quarto com cama de casal e uma mesinha de cabeceira, banheiro com box de vidro e, na varandinha, duas cadeiras de ferro e uma vista parcial da avenida iluminada. Deixo as malas cairem no chão, abro a janela e grito baixinho pro mundo lá fora:
— Eu consegui! Eu consegui!
Ligo o chuveiro, tiro o vestido preto que ainda carrega o cheiro daquele homem, entro debaixo da água quente e choro de alívio, de raiva, de felicidade.
Nova casa. Novo emprego. Novo salário. Nova vida.
Amanhã eu entro naquela sala de novo. Amanhã eu encaro Derek Marville de cabeça erguida. E que venha o que vier.
Eu não sou mais a Damares que aceita migalhas. A partir de hoje, eu pego o que é meu.
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