Capítulo único
A chuva caía lá fora, cobrindo as calçadas com poças de água. Algumas pessoas passavam com guarda-chuvas, enquanto outras corriam para se abrigar.
Kai entrou na pequena cafeteria rosa ao lado de sua escola. Assim que passou pela porta, sentiu o cheiro de café que preenchia o ambiente, misturando-se ao aroma dos doces, salgados e pães expostos no balcão.
O loiro caminhou até a mesa de sempre e se sentou, deixando a mochila ao seu lado.
Lucas, que estava atrás da máquina de café, limpando um copo, ergueu os olhos e avistou Kai. Era o mesmo cliente de sempre, que se sentava na mesma mesa e aparecia usando o uniforme da escola quase todas as tardes.
Com um pequeno sorriso, o rapaz deixou o copo sobre o balcão e caminhou até a mesa.
— Boa tarde, o que vai querer. Pergunto Lucas.
— Boa tarde. Quero o de sempre.
Lucas soltou uma risadinha.
— Você sabe que eu já decorei seu pedido, né?
Kai ergueu os olhos para ele, com um sorriso discreto nos lábios.
— Então por que ainda pergunta?
— Porque gosto de ouvir você pedir.
Assim que percebeu o que havia dito, Lucas ficou em silêncio por um instante. Kai também não respondeu imediatamente. Apenas o encarou, sentindo as bochechas esquentarem um pouquinho.
Lá fora, a chuva continuava caindo.
— Tá bom — Lucas murmurou, tentando disfarçar o próprio sorriso. - Vou preparar seu pedido.
— Obrigado. Lucas.
O barista parou por um segundo ao ouvir o próprio nome na voz do loiro. Depois, voltou para trás do balcão, tentando ignorar o sorriso bobo que insistia em aparecer em seu rosto.
Lucas preparou o café de Kai, concentrado em cada detalhe do pedido.
Sentado à mesa, o loiro acompanhava com os olhos cada movimento do moreno. Seus olhos verdes claros pareciam ainda mais bonitos sob a iluminação quente da cafeteria.
Kai tinha uma quedinha por Lucas desde que tinham dezesseis anos. Já fazia um tempo, mas ele nunca havia encontrado coragem suficiente para confessar seus sentimentos.
E como poderia.
Bastava Lucas sorrir para ele que todas as palavras desapareciam de sua cabeça.
— Aqui está seu pedido — disse o moreno, colocando a xícara sobre a mesa.
Lucas ergueu os olhos e encontrou os castanhos de Kai, que o observavam atentamente.
Por alguns segundos, os dois ficaram se olhando.
— Obrigado — respondeu Kai, desviando o olhar rapidamente.
Lucas inclinou a cabeça, divertido.
— Você tá bem?
— Tô! Por quê?
— Porque você tá olhando pra mim como se quisesse me dizer alguma coisa.
Kai quase se engasgou com a própria saliva.
— Eu? Não tô olhando para você não.
O moreno soltou uma risada baixa.
— Tudo bem, loirinho. Vou fingir que acredito.
Loirinho.
Kai sentiu o rosto esquentar. Lucas já o havia chamado assim outras vezes, mas aquilo não tornava o apelido menos perigoso para seu pobre coração.
— Qualquer coisa, é só me chamar — disse Lucas antes de voltar para o balcão.
Kai acompanhou o moreno se afastar e soltou um suspiro baixinho.
Ele só precisava tomar seu café em paz.
O problema era que estava começando a desconfiar de que seu coração nunca permitiria isso enquanto Lucas continuasse sorrindo daquele jeito.