As pernas já não aguentavam o peso daquele pobre garoto magro e sofrido.
Com o impacto contra o chão, com marcas do abandono, sujo e degradado pelo tempo a dor é a segunda a vir. Ardente, dolorosa e inevitavélmente sofrida.
Os olhos sofridos, pequenos se enchiam de lágrimas, as roupas desgastadas pela falta de cuidado iam sendo molhadas, agora, pela chuva forte e gelada do céu cinza daquela cidade impiedosa com os mortos de fome.
A dor não doía mais que o desprezo demonstrado pelas pessoas que pensam somente em si, passando pelo garoto miúdo, fraco com a alimentação desregulada a tanto tempo que não sabia o simples aroma de uma refeição, sem aqueles acompanhamentos grosseiros de carne, frango e bebidas de dar água na boca. Apenas o simples.
Deitado desolado no chão vinha as memórias mais sublinhes do passado que passam sem pedir permissão. A mão de sua mãe lhe acariciando com extremo amor, só aquele carinho que mãe nasceu para nos dar, os olhos espertos em cada nova palavra que saía da sua boca, os risos com as suas brincadeiras, e o divino amor que concebia sem pedir nada em troca.
Afinal, mãe é aquela que nos devota, ainda mesmo sem nos conhecer, dentro de suas enormes barrigas, com nós pequenas criaturas ingênuas que não conhecem as perversidades do mundo. Aprendem a nós amar, cuidam de nós.Nós. Somos aquelas pessoas que vão esquecendo disso ao longo do tempo, aprendendo as coisas mundanas do mundo travesso, esquecendo-as aos poucos e revelando extrema falta de afeto por aquelas que nos criaram com o pouco que tinham, talvez até em algumas gestantes que não tinham a saúde consagrada pelo Rei, mas mesmo assim insistiram em continuar a gestação perigosa.
Mas esse sentimento foi apenas um breve período na vida dessa pobre alma, que conhece de perto a dor da fome que corroe a barriga de tal forma, que o deixava desnorteado, sem rumo. A mãe o deixara quando tinha os seus cinco anos, uma criança que carece ainda dos cuidados da mãe, passou pouco tempo em um orfanato, a falta de carinho entre as freiras que ali habitavam fortaleceu a sua vontade de escapar daquele ambiente que só lhe traria dor, angústia e saudade da mãe já morta.
Mas descobrira da pior forma que melhor um lugar sem amor, mas com benefícios mesmo que escassos, do que a liberdade em grande quantidade com o seu jeito maldoso e corrosivo de ser.
Agora, ali, uma criança magra sem a menor maldade, a alma pura que Deus protege tanto dos horrores quando ainda tão novas, sentindo o desprezo, o frio sobre o corpo magrinho e pequenino, os olhos brigando para continuarem abertos, mas o cérebro lhe mandava outras alternativas, que ao lado do nosso todo misericordioso seria melhor do que naquela terra sem compaixão...
-Mamãe, por que não morrera depois de mim? Sou tão pequeno, sofredor desde de já, não mereço passar pelas maldades desse bicho que é chamado ser humano...