Capítulo 2 — As Paredes da Gaiola
Bellavere, Itália — 7h42.
Luca Bellini não havia dormido bem.
Na verdade, dormir talvez fosse uma palavra generosa para descrever as poucas horas que passara deitado naquela cama enorme, encarando o teto e tentando decidir qual das suas preocupações merecia deixá-lo mais desesperado.
Sua irmã não sabia onde ele estava.
A floricultura continuava fechada.
Um homem havia sido assassinado diante de seus olhos.
E, para completar, ele estava hospedado — ou melhor, mantido contra a própria vontade — na mansão de um alfa que parecia acreditar que a palavra não era apenas uma sugestão inconveniente.
Luca virou-se na cama e puxou o travesseiro sobre o rosto.
— Eu devia ter ficado em casa ontem.
Era uma conclusão inútil, mas pelo menos era sua.
O telefone que encontrara na noite anterior estava escondido dentro da gaveta da mesa de cabeceira. Ele o retirou e releu a mensagem.
Você viu o que não deveria. Se quiser continuar vivo, não confie em Moretti.
Não havia número identificável, fotografia ou qualquer informação que permitisse descobrir quem a enviara.
Luca não sabia se deveria agradecer ao desconhecido pelo aviso ou ficar ainda mais assustado por alguém ter conseguido entrar em contato com ele dentro daquela mansão.
Talvez ambas as coisas.
Seja como fosse, precisava falar com Sofia.
Sua irmã provavelmente já havia ligado para a floricultura, enviado mensagens e imaginado uma dúzia de tragédias diferentes. Luca não suportava a ideia de que ela estivesse preocupada sem saber sequer se ele estava vivo.
Ele se levantou, vestiu uma calça confortável e saiu do quarto.
O corredor estava silencioso.
Caminhou até a escadaria e desceu, esperando encontrar alguém que pudesse lhe mostrar onde ficava o telefone da casa.
Encontrou um segurança.
O homem imediatamente endireitou a postura.
— Bom dia, senhor Bellini.
— Bom dia. Onde fica o telefone?
— O senhor Moretti pediu que o acompanhassem até o café da manhã.
Luca fechou os olhos.
— É claro que pediu.
— Senhor?
— Nada. Estou apenas admirando a hospitalidade desta casa.
O segurança não pareceu saber como responder.
Luca seguiu pelo corredor indicado, determinado a tomar café, encontrar Dante e deixar muito claro que não pretendia passar o resto da vida obedecendo a ordens absurdas.
Se o alfa queria uma conversa, teria uma.
E não seria uma conversa agradável.
A sala de jantar era maior do que o apartamento inteiro de Luca.
Havia uma mesa comprida, janelas altas voltadas para os jardins e uma variedade de alimentos que parecia suficiente para alimentar uma família inteira durante uma semana.
Dante estava sentado em uma das extremidades, lendo documentos enquanto tomava café.
Usava uma camisa preta com as mangas dobradas e não demonstrou surpresa quando Luca entrou.
— Bom dia.
Luca puxou uma cadeira do outro lado da mesa.
— Não para mim.
Dante ergueu os olhos.
— Dormiu mal?
— Que pergunta curiosa. Será que tem alguma relação com o fato de eu estar preso na sua casa?
— Você não está preso no seu quarto.
— Ah, perdão. Isso muda tudo. Posso circular livremente pelos meus quinze metros quadrados de liberdade.
O alfa pousou a xícara sobre o pires.
— Seu quarto tem vinte e oito metros quadrados.
Luca ficou olhando para ele.
Dante voltou aos documentos.
— Você é insuportável — murmurou o ômega.
— Já ouvi isso.
— Imagino que de todas as pessoas que você mantém aqui contra a vontade delas.
O alfa ergueu os olhos novamente.
Por um momento, o silêncio entre os dois deixou de ser engraçado.
— Você não é um prisioneiro, Luca.
— Então abra os portões.
— Não posso.
— Não quer.
Dante não respondeu.
E aquela ausência de resposta irritou Luca mais do que qualquer discussão.
Uma funcionária aproximou-se para servir o café. Colocou diante dele uma xícara, pão fresco, frutas e um prato com ovos.
Luca agradeceu baixinho.
Dante observou quando ele começou a comer, mas não fez comentários.
O silêncio durou quase três minutos.
Para Luca, pareceu uma eternidade.
— Preciso falar com minha irmã — anunciou finalmente.
— Isso pode ser providenciado.
— Hoje.
— Sim.
— Agora.
Dante pousou a xícara.
— Você sempre exige as coisas dessa maneira?
— Só quando estou conversando com alguém que acha que pode decidir tudo por mim.
— Não estou tentando impedir você de falar com sua irmã.
— Está impedindo que eu use meu próprio telefone, saia desta casa ou descubra o que realmente aconteceu ontem. Perdoe-me se não consigo perceber a diferença entre proteção e controle.
A expressão de Dante endureceu.
Luca sentiu o cheiro de cedro tornar-se ligeiramente mais intenso no ambiente.
O alfa estava irritado.
Mesmo assim, não elevou a voz.
— Você viu um homem ser assassinado. A pessoa responsável ainda está à solta. Se eu permitir que você saia, não consigo garantir que chegará vivo ao fim da rua.
— Então coloque alguém para me proteger!
— Não é tão simples.
— Para você, nada parece simples quando a solução não envolve me dar ordens.
Dante ficou imóvel.
Luca respirou fundo, tentando controlar a própria raiva.
— Eu não pedi para ver aquele crime. Não conheço seus inimigos, não sei o que está acontecendo na sua organização e não quero ter absolutamente nada a ver com você. Só quero voltar para minha vida.
Por um instante, Dante pareceu prestes a responder de maneira ríspida.
Em vez disso, desviou os olhos.
— Eu sei.
Duas palavras.
Novamente, aquela resposta inesperadamente baixa.
Luca odiava quando Dante fazia aquilo.
Era muito mais fácil enfrentá-lo quando o alfa se comportava como um arrogante sem coração. Aqueles breves momentos de compreensão tornavam tudo mais confuso.
— Então por que não me deixa ir?
Dante demorou a responder.
— Porque não estou disposto a descobrir o que acontece com você se eu estiver errado.
Luca franziu a testa.
— E se eu estiver disposto a correr esse risco?
O alfa voltou a encará-lo.
— Não estou.
A conversa estava encerrada.
Luca percebeu isso pelo modo como Dante pegou novamente os documentos.
A raiva voltou com força.
— Você não pode me proteger de tudo, Dante.
— Não preciso proteger você de tudo.
O alfa fez uma pausa.
— Só preciso impedir que alguém consiga matá-lo enquanto estiver sob minha responsabilidade.
Luca apertou os dedos ao redor da xícara.
— E quando sua responsabilidade terminar?
Dante não respondeu.
Pela primeira vez, Luca teve a impressão de que o alfa não havia pensado no que aconteceria depois.
Ou, pior ainda, de que já havia pensado e não gostara da resposta.
Depois do café, Dante cumpriu parte da promessa.
Um funcionário trouxe um telefone e informou que Luca poderia fazer uma ligação, desde que a conversa fosse realizada na presença de um dos responsáveis pela segurança.
Luca quase recusou.
Não queria que um estranho ouvisse sua conversa com Sofia. Porém, a preocupação com a irmã era maior do que o orgulho.
Pegou o aparelho.
— Preciso de privacidade.
— São ordens do senhor Moretti — explicou o funcionário.
Luca lançou-lhe um olhar cansado.
— Naturalmente.
Pediu que o homem permanecesse do lado de fora da sala, com a porta entreaberta.
Então discou o número de Sofia.
Ela atendeu no segundo toque.
— Luca?
A voz dela saiu tão aflita que ele sentiu o coração apertar.
— Oi, Sofi.
— Onde você está? Meu Deus, estou tentando falar com você desde ontem! Fui até a floricultura e encontrei tudo fechado. Liguei para o seu apartamento, mandei mensagens e...
— Estou bem.
— Não minta para mim.
Luca fechou os olhos.
Era exatamente o que esperaria da irmã.
— Estou seguro. Precisei resolver uma situação complicada.
— Que situação?
Ele olhou para a porta.
Não sabia quanto podia dizer. Não sabia se aquela ligação estava sendo gravada, se os homens de Dante estavam ouvindo ou se mencionar o assassinato colocaria Sofia em perigo.
— Sofi, preciso que me escute. Não vá à floricultura hoje. E, se alguém perguntar por mim, diga que estou fora da cidade.
Houve uma pausa.
— Luca, você está me assustando.
— Eu sei. Desculpa.
— Você está com alguém?
Ele hesitou.
— Estou na casa de um homem.
— Que homem?
Luca passou a mão pelos cabelos.
— Um homem muito complicado.
— Você está namorando alguém e esqueceu de me contar?
Apesar de tudo, ele quase riu.
— Não, Sofia!
— Então por que está na casa dele?
— É uma longa história.
— Tenho tempo.
— Eu não tenho.
A resposta saiu mais ríspida do que pretendia.
Luca se arrependeu imediatamente.
— Desculpa, Sofi. Eu só... preciso que confie em mim por enquanto.
Do outro lado, Sofia ficou em silêncio.
Quando voltou a falar, sua voz estava mais suave.
— Você está com medo?
Luca olhou para a janela.
Lá fora, um homem caminhava pelo jardim, falando ao telefone. Outro permanecia perto do portão.
— Um pouco.
— Quer que eu vá buscar você?
O coração de Luca apertou.
Era exatamente o que queria ouvir.
E exatamente o que não podia permitir que ela fizesse.
— Não. Por favor, não venha.
— Luca...
— Promete que vai ficar em casa e não vai procurar ninguém?
Sofia demorou a responder.
— Prometo que vou esperar você me explicar o que está acontecendo. Mas, se você estiver em perigo, eu vou encontrar uma maneira de ajudar.
Luca sorriu tristemente.
— Eu sei.
Conversaram por mais alguns minutos, até que ele precisou encerrar a ligação.
Quando colocou o telefone sobre a mesa, percebeu que suas mãos estavam tremendo.
Não era apenas medo.
Era saudade da vida que tinha antes de conhecer Dante Moretti.
Uma vida simples, cheia de problemas pequenos e familiares, na qual ninguém decidia se ele podia ou não atravessar a própria porta.
— Sua irmã parece gostar muito de você.
Luca se virou tão depressa que quase derrubou o aparelho.
Dante estava parado à entrada da sala.
— Você estava ouvindo?
— Estava verificando se a ligação ocorreu sem problemas.
— Isso não responde à pergunta.
— Sim, Luca. Ouvi parte da conversa.
O ômega se levantou.
— Você não tem vergonha?
— Tenho.
A resposta inesperada interrompeu a discussão antes mesmo de ela começar.
Dante continuou:
— Mas, neste momento, minha preocupação com sua segurança é maior do que meu interesse em parecer educado.
— É uma desculpa conveniente.
— Talvez.
Luca encarou o alfa, incrédulo.
Dante não tentou justificar-se.
— Você poderá ligar novamente amanhã. E, se a situação permitir, vou providenciar uma conversa particular.
— Se a situação permitir?
— Luca...
— Não. Você prometeu que eu poderia falar com ela, e agora está transformando até isso em uma concessão sua.
A mandíbula de Dante se contraiu.
Por um instante, Luca pensou que ele fosse perder a paciência.
Em vez disso, o alfa respirou fundo e se afastou da porta.
— O jardim está aberto. Você pode caminhar por lá, acompanhado por um segurança.
Luca soltou uma risada sem humor.
— Que generoso.
— E você pode escolher quem o acompanhará.
— Posso escolher a cor das algemas também?
Dante parou.
A expressão em seus olhos mudou.
Não era raiva, exatamente.
Era algo mais difícil de compreender.
— Não haverá algemas, Luca.
— Não preciso delas. Você já tem as chaves de todas as portas.
O alfa permaneceu em silêncio.
E, pela primeira vez desde que Luca chegara à mansão, pareceu não encontrar uma resposta.
O jardim era tão bonito que chegava a ser irritante.
Rosas brancas cercavam os caminhos de pedra. Havia árvores antigas, pequenos bancos de madeira e uma fonte no centro de um pátio coberto por hera.
Luca caminhou lentamente, acompanhado a uma distância discreta por Enzo Ricci, o homem que parecia ser o principal responsável pela segurança de Dante.
Enzo era um beta de expressão séria, cabelos castanhos e postura impecável.
Diferentemente dos outros funcionários, ele não tentava fingir que a situação era normal.
— Posso fazer uma pergunta? — Luca disse.
— Depende da pergunta.
— Você sempre trabalha para homens que sequestram pessoas?
Enzo soltou uma respiração que poderia ter sido uma risada.
— Não. Alguns são piores.
Luca olhou para ele.
Enzo manteve a expressão séria por dois segundos antes de admitir:
— Estou brincando.
— Péssimo momento para descobrir que o braço direito do meu sequestrador tem senso de humor.
— O senhor Moretti não costuma sequestrar pessoas.
— Que alívio. Então sou uma ocasião especial.
Enzo desviou o olhar para o jardim.
— O que aconteceu ontem foi grave. Há pessoas que não hesitariam em machucá-lo para proteger os próprios interesses.
— E Dante é uma delas?
A pergunta fez Enzo ficar quieto.
Luca observou seu rosto.
— Você trabalha com ele há muito tempo, não trabalha?
— Desde que eu tinha vinte e três anos.
— Então deve conhecê-lo bem.
— Conheço algumas partes dele.
— E o que acha de manter alguém preso para protegê-lo?
Enzo soltou um suspiro.
— Acho que o senhor Moretti tem dificuldade em distinguir o que pode controlar daquilo que precisa aprender a aceitar.
Luca parou de caminhar.
— Isso foi quase uma crítica ao seu chefe.
— Não conte a ele. Gosto do meu emprego.
Dessa vez, Luca sorriu de verdade.
Foi pequeno e breve, mas suficiente para aliviar a tensão em seu peito.
Enzo percebeu.
— Ele não costuma receber muitas visitas.
— Imagino que as pessoas prefiram evitar uma conversa com alguém que pode decidir o destino delas durante o café da manhã.
— Não é exatamente isso.
— Então o que é?
Enzo hesitou.
— O senhor Moretti está acostumado a desconfiar de todos. A maior parte das pessoas que se aproximam dele quer alguma coisa.
Luca voltou a caminhar.
— E o que ele acha que eu quero?
— Ainda não sei.
— Eu quero ir embora.
— Sim. Isso ficou bastante claro.
Luca soltou uma risada curta.
Depois, o silêncio se instalou entre os dois.
Quando chegaram a um pequeno canteiro de rosas brancas, Luca parou para observar as flores.
E, pela primeira vez desde que acordara, sentiu alguma coisa semelhante à tranquilidade.
Estendeu a mão e tocou delicadamente uma pétala.
— São lindas.
— Foram plantadas a pedido do senhor Moretti — comentou Enzo.
Luca ergueu os olhos.
— Ele gosta de rosas?
— Não particularmente.
— Então por que as plantou?
Enzo olhou para as flores.
— A mãe dele gostava.
A resposta fez Luca ficar quieto.
Ele não sabia quase nada sobre Dante, mas aquela informação pareceu abrir uma pequena fresta numa porta que o alfa mantinha cuidadosamente fechada.
— Ela ainda mora aqui?
— Não.
Enzo não explicou mais nada.
Luca compreendeu que não deveria insistir.
Voltou a olhar para as rosas, pensando que talvez todos naquela mansão tivessem aprendido a conviver com silêncios que não sabiam preencher.
O pensamento durou pouco.
Um som metálico veio do outro lado do jardim.
Luca virou a cabeça.
Um funcionário carregava uma caixa de ferramentas perto da lateral da casa. Quando percebeu que estava sendo observado, deixou a caixa no chão e se afastou depressa.
Algo naquela atitude o incomodou.
Não sabia explicar por quê.
Talvez estivesse nervoso demais.
Talvez começasse a desconfiar de todas as pessoas que encontrava.
Ou talvez, depois de uma noite como a anterior, seu instinto estivesse tentando lhe dizer que o perigo ainda não havia terminado.
Naquela tarde, Dante recebeu Luca em seu escritório.
O ambiente era amplo, com estantes de livros, uma mesa escura e janelas que davam para os jardins. Havia documentos espalhados sobre a mesa e um copo de água ao lado de uma pasta fechada.
O alfa estava ao telefone quando Luca entrou.
— Não quero saber das suas justificativas. Descubra quem vazou a informação e me ligue quando tiver alguma coisa concreta.
Desligou.
— Sente-se.
Luca permaneceu de pé.
— Prefiro ficar assim.
Dante indicou a cadeira mais uma vez, mas acabou desistindo.
— Como quiser.
A mudança de atitude foi tão pequena que outra pessoa talvez nem a notasse.
Luca notou.
Dante abriu a pasta sobre a mesa.
— O homem que você viu ontem se chama Matteo Rinaldi. Trabalhava para uma organização rival, mas havia negociado informações com alguém dentro da minha família.
— E por que ele foi assassinado?
— Porque sabia demais.
— Sobre o quê?
Dante fechou a pasta.
— Isso ainda está sendo investigado.
Luca cruzou os braços.
— Você está me contando apenas o que considera conveniente.
— Estou contando o que posso confirmar.
— Não é a mesma coisa.
— Não.
A franqueza inesperada fez Luca perder o fio da discussão por um instante.
Dante apoiou as mãos sobre a mesa.
— Há uma pessoa dentro da minha organização que está fornecendo informações aos nossos inimigos. Ontem, alguém descobriu que você estava no local e começou a procurá-lo antes mesmo de eu chegar.
Luca sentiu o estômago se apertar.
— Como sabiam quem eu era?
— Ainda não sabemos.
— E minha irmã? Eles sabem sobre ela?
— Estamos verificando isso.
Luca passou a mão pelo rosto.
Tudo parecia ficar pior a cada minuto.
— Eu não quero participar dessa guerra.
— Nem deveria.
— Então me deixe ir embora.
Dante ficou em silêncio.
Luca deu um passo à frente.
— Você disse que quer me proteger. Muito bem. Ajude-me a prestar depoimento em segurança, encontre uma maneira de garantir que minha irmã não seja ameaçada e me deixe voltar para casa.
— Não posso fazer isso agora.
— Porque não é seguro ou porque você não quer perder o controle da situação?
Dante ergueu os olhos.
A pergunta atingiu o ponto exato que Luca pretendia atingir.
— As duas coisas — respondeu o alfa.
Luca não esperava aquela honestidade.
Dante pareceu perceber que havia revelado mais do que gostaria, mas não voltou atrás.
— Não confio na polícia local, não sei quem está envolvido e não posso garantir que você será protegido depois de sair daqui.
— Então confie em mim para decidir se quero correr esse risco!
— Você não entende o que está enfrentando.
— E você não entende que eu tenho o direito de decidir o que acontece comigo!
A voz de Luca ecoou pelo escritório.
O aroma de jasmim tornou-se mais intenso, carregado de frustração.
Dante permaneceu imóvel, mas seus olhos acompanharam cada movimento do ômega.
— Você acha que não sei disso? — perguntou finalmente.
— Acho que sabe, mas não se importa.
Dante desviou o rosto.
Durante alguns segundos, o único som no escritório foi o tique-taque de um relógio antigo.
Então o alfa se aproximou da janela.
— Meu pai acreditava que qualquer coisa que pudesse ser perdida precisava ser mantida sob controle.
Luca não respondeu.
Não sabia por que Dante estava falando sobre o pai, mas percebeu que aquela conversa havia mudado de direção.
— Ele controlava os negócios, as pessoas ao redor dele e até mesmo aqueles que diziam amá-lo — continuou Dante. — Quando minha mãe decidiu deixá-lo, ele fez tudo o que pôde para impedi-la.
O alfa ficou olhando para o jardim.
— Não funcionou.
Havia alguma coisa naquela última frase que Luca não conseguiu ignorar.
— O que aconteceu com ela?
Dante demorou a responder.
— Ela foi embora quando eu tinha dezesseis anos.
— E você ficou com seu pai?
— Eu era o herdeiro. Não tive muita escolha.
Luca observou o perfil do alfa.
Pela primeira vez, começou a entender que Dante não havia nascido sabendo comandar homens armados, desconfiar de todos e transformar qualquer sentimento em uma ordem.
Alguém lhe ensinara que o mundo funcionava daquela maneira.
Isso não tornava suas escolhas corretas.
Mas tornava sua história mais triste.
— Você não precisa ser igual a ele — Luca disse baixinho.
Dante virou a cabeça.
A expressão que surgiu em seu rosto era tão inesperada que Luca quase desejou ter permanecido calado.
O alfa parecia ter sido atingido por algo que não sabia como responder.
— Você não me conhece — afirmou.
— Não. Mas conheço o suficiente para saber que está fazendo comigo exatamente aquilo que diz ter odiado no seu pai.
O silêncio caiu entre os dois.
Luca percebeu que havia ido longe demais quando viu a expressão de Dante endurecer.
— Saia do meu escritório.
A voz do alfa voltou a ser fria.
Luca sentiu uma pontada de decepção.
Não porque esperasse que Dante aceitasse suas palavras, mas porque, por um breve momento, acreditara que o homem pudesse escutá-las.
— Com prazer.
Ele se virou para a porta.
— Luca.
Parou, mas não olhou para trás.
Dante demorou alguns segundos antes de falar.
— O jantar será servido às oito. Você pode escolher o que deseja comer.
Luca fechou os olhos.
Era impressionante como Dante conseguia transformar até mesmo um gesto de gentileza em uma lembrança daquilo que ele controlava.
— Não estou com fome.
Saiu antes que o alfa pudesse responder.
Às oito da noite, Luca estava sentado no quarto, desenhando num pequeno caderno que Teresa havia encontrado entre seus pertences.
Desenhar era uma das poucas coisas capazes de acalmar seus pensamentos.
Começara esboçando a floricultura, com suas prateleiras de madeira e os vasos coloridos perto da janela. Depois desenhara Sofia, com os cabelos presos de qualquer jeito e a expressão indignada que fazia quando alguém deixava de responder às suas mensagens.
Por fim, sem perceber, começara a desenhar um par de olhos cinzentos.
Luca parou.
Olhou para o papel.
— Não. Absolutamente não.
Fechou o caderno com tanta força que a capa estalou.
Não pretendia passar o tempo pensando em Dante Moretti.
Muito menos desenhá-lo.
A batida na porta o fez erguer a cabeça.
— Entre.
Teresa apareceu carregando uma bandeja.
— O senhor Moretti pediu que trouxesse seu jantar.
Luca olhou para a comida.
Era um prato simples de massa, acompanhado de legumes e um pequeno pedaço de pão.
— Eu disse que não estava com fome.
— Eu sei, querido. Mas também sei que você não almoçou.
Luca abriu a boca para protestar.
Teresa pousou a bandeja sobre a mesa.
— Não precisa comer tudo. Só experimente um pouco.
Havia tanta gentileza em sua voz que Luca não conseguiu responder com a irritação que pretendia.
— Ele pediu para você fazer isso?
— Pediu.
— Por quê?
Teresa sorriu discretamente.
— Talvez porque tenha percebido que você estava triste.
Luca soltou uma risada sem humor.
— O senhor Moretti é responsável por boa parte da minha tristeza.
— Não vou discordar de você.
O ômega olhou para ela, surpreso.
Teresa ajeitou a bandeja.
— Dante não é um homem fácil. Nunca foi. Mas, quando era menino, costumava levar flores para a mãe todas as semanas. Mesmo depois que ela foi embora, continuou comprando rosas brancas para o jardim.
Luca lembrou-se do que Enzo lhe contara.
— Por que está me dizendo isso?
Teresa pensou por um momento.
— Porque às vezes as pessoas passam tanto tempo tentando não sentir dor que acabam causando dor a todos ao redor.
Luca baixou os olhos.
— Isso não dá a ele o direito de me manter aqui.
— Não. Não dá.
A resposta foi imediata.
Teresa se aproximou e tocou delicadamente seu ombro.
— Você não precisa justificar o que ele faz para reconhecer que existe alguma coisa boa nele. E não precisa ignorar essa coisa boa para reconhecer que ele está errado.
Luca ficou em silêncio.
Aquelas palavras eram muito mais sensatas do que qualquer coisa que ouvira de Dante naquele dia.
— Obrigado, Teresa.
Ela sorriu.
— Coma antes que esfrie.
Quando a porta se fechou, Luca voltou a olhar para a bandeja.
Experimentou a massa.
Estava deliciosa.
O que, de alguma forma, tornou tudo ainda mais irritante.
Dante não conseguiu trabalhar naquela noite.
Leu os mesmos relatórios três vezes, respondeu a mensagens sem prestar atenção e dispensou dois funcionários por cometerem erros que normalmente teria ignorado.
Às dez e meia, Enzo entrou no escritório.
— Precisamos conversar.
Dante ergueu os olhos.
— Sobre o quê?
— O homem que você mandou investigar. Encontramos o carro dele abandonado a alguns quilômetros daqui.
— E o motorista?
— Desaparecido.
Dante fechou o documento que estava lendo.
— Quero uma equipe verificando todas as propriedades da família. Ninguém entra ou sai sem minha autorização.
Enzo assentiu.
Mas não foi embora.
Dante percebeu.
— Há mais alguma coisa?
— Sim. O senhor precisa decidir o que pretende fazer com Luca.
O alfa recostou-se na cadeira.
— Estou protegendo-o.
— Eu sei.
— Então qual é o problema?
Enzo respirou fundo.
— O problema é que você está começando a tratá-lo como se fosse parte da sua vida, mas continua agindo como se ele não tivesse direito a uma vida própria.
Dante ficou imóvel.
— Tenha cuidado, Enzo.
— Tenho cuidado há seis anos. É por isso que estou dizendo isso agora.
O silêncio se tornou pesado.
Enzo continuou, apesar da tensão:
— Luca não é um dos nossos homens. Não é um funcionário, um aliado ou alguém que possa simplesmente receber ordens. Ele é uma pessoa que teve o azar de testemunhar um crime.
— Você acha que eu não sei disso?
— Acho que sabe. Mas está com medo.
Os olhos de Dante se estreitaram.
— Medo de quê?
— De que alguma coisa aconteça com ele. E, por causa disso, está tentando controlar cada detalhe da vida dele.
Dante levantou-se lentamente.
— Eu não vou permitir que aquele rapaz seja morto por causa de um erro que não cometeu.
— Então proteja-o. Mas não faça com que ele tenha medo de você também.
Por alguns segundos, Dante não disse nada.
Depois caminhou até a janela.
Lá fora, as luzes do jardim iluminavam as rosas brancas.
— Ele me comparou ao meu pai — murmurou.
Enzo permaneceu em silêncio.
— Disse que estou fazendo com ele a mesma coisa que meu pai fez com minha mãe.
— E o que você respondeu?
Dante apertou a mandíbula.
— Mandei-o sair do escritório.
Enzo suspirou.
— É claro que mandou.
O alfa lançou-lhe um olhar irritado.
— Está se divertindo?
— Nem um pouco.
Enzo aproximou-se da mesa e colocou uma pasta diante dele.
— Há outra coisa. Encontramos uma mensagem enviada para um dos nossos funcionários pouco antes de Luca chegar à mansão.
Dante abriu a pasta.
Leu o conteúdo.
Seu rosto perdeu qualquer vestígio de emoção.
A mensagem era curta.
O ômega está na casa de Moretti. Mantenham-no vivo até descobrirmos o que ele viu.
Dante ergueu os olhos.
— Quem enviou isso?
— Ainda não sabemos. Mas a mensagem veio de dentro da nossa rede.
O alfa fechou a pasta.
A sensação de que alguém estava observando seus movimentos deixou um gosto amargo em sua boca.
Não era apenas Luca quem estava em perigo.
A mansão também podia ter deixado de ser segura.
— Dobre a segurança do segundo andar — ordenou. — E quero uma lista de todos os funcionários que tiveram acesso aos sistemas nas últimas quarenta e oito horas.
Enzo assentiu.
— E Luca?
Dante ficou em silêncio por um instante.
— Ninguém se aproxima dele sem minha autorização.
Enzo sustentou seu olhar.
— Dante...
— Não vou discutir isso.
O beta assentiu lentamente, mas sua expressão deixou claro que a conversa estava longe de terminar.
Quando ficou sozinho, Dante voltou a olhar para a mensagem.
Alguém queria Luca vivo.
Alguém sabia onde ele estava.
E alguém dentro de sua própria organização estava ajudando essa pessoa.
Dante sentiu o instinto alfa se agitar, exigindo que eliminasse todas as ameaças antes que pudesse perder alguma coisa importante.
Mas, pela primeira vez, o pensamento que o assustou não foi a possibilidade de um inimigo invadir sua casa.
Foi imaginar Luca descobrindo que Dante não tinha controle sobre tudo.
Porque o ômega já desconfiava dele.
E Dante começava a perceber que, se continuasse tratando Luca como alguém que precisava ser mantido sob vigilância, jamais conseguiria conquistar sua confiança.
Talvez nem sequer tivesse a chance de descobrir o que aquela confiança poderia significar.
Pouco antes da meia-noite, Luca voltou à janela.
A chuva havia parado.
A cidade brilhava ao longe, e as luzes dos carros pareciam pequenas estrelas atravessando as ruas.
Ele abriu o caderno e observou o desenho que fizera sem querer.
Os olhos cinzentos continuavam ali.
Luca pegou a borracha e começou a apagá-los.
Parou antes de terminar.
Não sabia por que havia desenhado Dante.
Talvez porque estivesse tentando compreender o homem que o mantinha preso.
Talvez porque, por trás da arrogância e das ordens, houvesse alguma coisa que despertara sua curiosidade.
Ou talvez fosse apenas porque Dante tinha olhos impossivelmente expressivos para alguém que se esforçava tanto para não demonstrar sentimentos.
Luca fechou o caderno.
— Não importa — murmurou.
Deixou o telefone sobre a mesa e se deitou.
Estava quase adormecendo quando ouviu passos no corredor.
Não eram apressados.
Eram firmes, ritmados e facilmente reconhecíveis.
Os passos pararam diante de sua porta.
Luca prendeu a respiração.
Uma batida suave ecoou no quarto.
— Luca?
Era Dante.
O ômega sentou-se na cama.
— O que foi?
Houve uma pausa.
— Quero que saiba que sua irmã está segura. Minha equipe confirmou que ninguém a procurou hoje.
Luca sentiu um alívio tão intenso que quase doeu.
— Obrigado — respondeu, depois de um instante.
Do outro lado da porta, Dante permaneceu em silêncio.
— Amanhã vou providenciar outro telefone para você — acrescentou. — Um que possa usar para falar com ela sem que alguém precise ouvir a conversa.
Luca franziu a testa.
Era uma mudança pequena.
Pequena demais para compensar o que estava acontecendo.
Ainda assim, era uma mudança.
— Isso significa que vai me deixar sair?
— Não.
O alívio desapareceu.
Luca soltou uma risada frustrada.
— Claro que não.
Dante não respondeu imediatamente.
Quando voltou a falar, sua voz estava mais baixa.
— Estou tentando encontrar uma maneira de fazer isso funcionar.
— Para quem?
O silêncio se prolongou.
Luca olhou para a porta fechada.
— Porque, até agora, Dante, só está funcionando para você.
Do outro lado, o alfa fechou os olhos.
Ele poderia ter ordenado que Luca dormisse.
Poderia ter lembrado que aquela conversa não mudaria nada.
Poderia ter voltado ao escritório e fingido que as palavras do ômega não o afetavam.
Em vez disso, respondeu:
— Talvez você tenha razão.
Luca ficou imóvel.
Não era um pedido de desculpas.
Não era uma promessa.
Mas era a primeira vez que Dante admitia que poderia estar errado.
— Boa noite, Luca.
Os passos recomeçaram.
Dessa vez, porém, Luca não sentiu apenas raiva ao ouvi-los se afastar.
Sentiu também uma curiosidade incômoda.
Quem era Dante Moretti quando não estava tentando controlar o mundo?
E por que parecia tão assustado com a ideia de perder algo que ainda nem sequer lhe pertencia?
Luca apagou a luz.
Naquela noite, adormeceu com o coração um pouco menos pesado, embora continuasse sem saber se o homem do outro lado da porta seria seu protetor ou sua maior ameaça.
No corredor, Dante parou uma última vez diante do quarto.
Ergueu a mão, como se pretendesse bater novamente.
Não bateu.
Pela primeira vez em muitos anos, o alfa decidiu respeitar um limite que não havia sido imposto por ninguém além dele mesmo.
Afastou-se em silêncio.
E, embora Luca não pudesse vê-lo, Dante carregou consigo uma certeza inquietante:
manter aquele ômega dentro de sua mansão seria fácil. O difícil seria fazê-lo querer permanecer quando finalmente tivesse liberdade para partir.
Continuar.