O céu estava coberto por nuvens cinzentas, e o vento soprava suavemente pelas árvores do jardim. Dentro de uma casa grande e silenciosa, um garoto de apenas seis anos estava sentado no tapete da sala, brincando sozinho com alguns carrinhos.
Seu nome era Theo.
Theo era um garoto pequeno, de cabelos castanhos e olhos atentos. Ele parecia uma criança como qualquer outra, mas havia algo nele que poucas pessoas percebiam.
Theo conseguia perceber coisas que outras pessoas não percebiam.
Ele percebia quando alguém estava triste mesmo que sorrisse.
Percebia quando seus pais diziam que estava tudo bem, mas suas vozes diziam exatamente o contrário.
E, principalmente, percebia quando algo estava prestes a acontecer.
Naquele dia, seus pais estavam sentados no sofá da sala.
A televisão estava ligada, mas nenhum dos dois realmente prestava atenção no que passava.
— Está tudo bem — sua mãe havia dito alguns minutos antes.
Seu pai apenas concordara com a cabeça.
Mas Theo sabia que não estava.
O silêncio entre os dois era estranho.
Não era um silêncio tranquilo.
Era um silêncio pesado.
Um silêncio cheio de coisas que nenhum dos dois queria dizer.
Theo continuou brincando por alguns segundos, fingindo não perceber.
Ele já estava acostumado a fazer isso.
Seus pais sempre tentavam parecer bem quando ele estava por perto.
Sorriam.
Perguntavam se ele queria alguma coisa.
Diziam que o dia tinha sido bom.
Mas Theo sabia que existiam coisas que os adultos escondiam.
E ele não sabia exatamente como sabia.
Apenas sabia.
Depois de algum tempo, Theo largou os carrinhos no chão e se levantou.
Ele caminhou devagar até a janela.
A janela estava ligeiramente aberta, deixando entrar uma pequena corrente de ar frio.
Theo passou por ela e olhou para o jardim.
As folhas das árvores balançavam.
As flores se moviam com o vento.
E então...
Ploc.
Uma gota de água caiu sobre a janela.
Theo piscou.
Ploc.
Outra gota caiu.
Depois outra.
E outra.
A chuva finalmente começava.
Theo abriu um pouco mais a janela e olhou para fora.
Naquele momento, seus olhos encontraram algo próximo à porta dos fundos.
Um velho guarda-chuva vermelho.
Ele estava encostado em uma pequena cadeira de madeira.
Theo não lembrava de ter visto aquele guarda-chuva ali antes.
Ele olhou para os pais.
Os dois continuavam na sala, presos naquela conversa silenciosa.
Então Theo abriu a porta e saiu.
O ar estava frio.
As primeiras gotas começaram a cair sobre seu cabelo.
Theo caminhou até o guarda-chuva.
Ele era vermelho, mas não parecia um guarda-chuva comum.
O tecido estava um pouco antigo, e havia pequenas marcas douradas no cabo.
Theo segurou o cabo com as duas mãos.
Por algum motivo, sentiu uma sensação estranha.
Como se já conhecesse aquele guarda-chuva.
Como se ele estivesse esperando por ele.
Theo olhou para o céu.
A chuva começou a ficar mais forte.
Uma gota caiu sobre sua mão.
Depois outra.
E então...
O guarda-chuva brilhou.
Theo arregalou os olhos.
Uma luz vermelha e dourada percorreu o tecido do guarda-chuva, formando pequenos desenhos que pareciam estrelas.
— Uau...
Theo apertou o cabo.
Então abriu o guarda-chuva.
FWOOSH!
Uma luz intensa surgiu ao redor dele.
Theo sentiu seus pés deixarem o chão.
— Ah?!
Ele olhou para baixo.
Seus pequenos sapatos estavam alguns centímetros acima da grama.
O guarda-chuva começou a subir.
Devagar no começo.
Depois cada vez mais rápido.
— Espera!
Theo segurou o cabo com força.
Seu corpo inteiro foi levado para cima.
Ele passou por cima das árvores.
Depois do muro.
Depois das casas.
A rua ficou pequena lá embaixo.
Os carros pareciam brinquedos.
As pessoas pareciam pequenas manchas andando pelas calçadas.
Theo olhou para sua casa.
Seus pais provavelmente ainda estavam na sala.
Ele não sabia se deveria estar com medo.
Mas, estranhamente...
Não estava.
O guarda-chuva continuava brilhando.
Ele subiu ainda mais.
Passou pelas nuvens.
A chuva ficou mais forte.
As gotas batiam no guarda-chuva, mas nenhuma delas atingia Theo.
Ele segurava o cabo enquanto observava o mundo lá embaixo desaparecer entre as nuvens.
— Para onde estamos indo?
O guarda-chuva não respondeu.
Apenas continuou voando.
Até que, depois de algum tempo, começou a descer.
Devagar.
Cada vez mais baixo.
As nuvens ficaram para trás.
Theo começou a enxergar árvores.
Muitas árvores.
Depois flores.
Depois um enorme jardim.
O guarda-chuva desceu ainda mais.
Até que finalmente...
Toc.
Os pés de Theo tocaram o chão.
Ele ficou parado por alguns segundos.
A chuva continuava caindo.
Theo olhou para o guarda-chuva.
Ele ainda brilhava.
Pequenas luzes douradas flutuavam ao redor dele como vagalumes.
Theo então olhou ao redor.
Não reconhecia aquele lugar.
Era um jardim enorme.
Havia árvores altas, flores de várias cores e caminhos de pedra que desapareciam entre os arbustos.
Era bonito.
Muito bonito.
Mas havia algo estranho.
Não havia ninguém.
Nenhuma pessoa.
Nenhuma criança.
Nenhum adulto.
Nem sequer um animal.
Apenas o som da chuva caindo sobre as folhas.
Theo começou a caminhar.
Seus pequenos passos faziam barulho sobre o caminho molhado.
Ele olhava para todos os lados.
— Onde eu estou?
O vento soprou entre as árvores.
Theo apertou um pouco mais o guarda-chuva.
Então...
Ele ouviu alguma coisa.
Um som baixo.
Quase escondido pelo barulho da chuva.
Snif...
Theo parou.
Olhou para trás.
Nada.
Então ouviu novamente.
Snif...
E depois um pequeno choro.
Theo seguiu o som.
Caminhou por entre algumas flores até chegar a uma parte mais aberta do jardim.
Ali havia um banco de madeira.
E sentada nele estava uma mulher.
Ela parecia adulta e estava usando uma roupa muito bonita, elegante e aparentemente cara.
Seu vestido estava levemente molhado pelas gotas de chuva que caíam ao redor.
Mas não era a roupa que chamou a atenção de Theo.
Era o rosto dela.
Ela estava chorando.
Sozinha.
Em um jardim tão bonito que parecia ter saído de um conto de fadas.
Theo ficou olhando para ela por alguns segundos.
A mulher não parecia perceber sua presença.
Ela mantinha o rosto abaixado enquanto algumas lágrimas se misturavam com as gotas de chuva.
Theo olhou para o guarda-chuva.
Pequenas luzinhas saíram dele e flutuaram pelo ar, iluminando o caminho à sua frente.
Então o garoto caminhou até a mulher.
Um passo.
Depois outro.
Até parar bem na frente dela.
Theo estendeu o guarda-chuva vermelho.
A mulher levantou lentamente o rosto.
Seus olhos estavam vermelhos de tanto chorar.
Quando viu o garoto ali, segurando um guarda-chuva brilhante sobre ela, ficou completamente surpresa.
Ela abriu a boca, mas não conseguiu dizer nada.
Theo apenas a olhou com seus olhos tranquilos.
Depois inclinou um pouco a cabeça.
— Por que você está tão triste?
A mulher continuou encarando o pequeno garoto.
Ela parecia não saber o que responder.
Afinal...
Quem era aquele menino?
E como uma criança de apenas seis anos havia aparecido naquele jardim?
Theo esperou.
Sem pressa.
Então olhou ao redor e sorriu levemente.
— Este jardim é tão bonito...
Ele voltou a olhar para ela.
— Então por que você está chorando nele?
A mulher ficou em silêncio.
Uma lágrima escorreu novamente pelo seu rosto.
E, naquele instante, algo dentro do guarda-chuva vermelho brilhou ainda mais forte.
Como se...
ele soubesse exatamente por que aquela mulher estava chorando.