O prédio era antigo no centro de São Paulo, na Santa Cecília. 7 andares, sem elevador, com cheiro de mofo doce que todo prédio antigo tem.
O apartamento 71 era o único vazio. O zelador, seu Milton, me entregou a chave com uma condição estranha:
- Não atende o interfone depois das 23h. Não importa quem chamar. Mesmo que fale seu nome.
Eu ri. Aluguei mesmo assim. Era barato demais pra região.
Primeira semana, normal. Segunda semana, o interfone tocou 23h07.
_TRIM._
Eu tava na cozinha, de meia, com macarrão na panela. Olhei pro relógio. 23h07. Lembrei do seu Milton, mas pensei: deve ser entrega atrasada.
Atendi.
- Alô?
Do outro lado, silêncio. Depois respiração curta. Depois voz de criança.
- Tia, você pode abrir? Esqueci a chave.
Era voz de menina, uns 6 anos. Doce.
- Qual apartamento você é? - perguntei.
- 71. Eu moro no 71 também.
Meu sangue gelou. Eu moro no 71. Não tem outra criança no 71.
Desliguei.
Corri até a porta. Olhei pelo olho mágico. Corredor vazio, lâmpada amarela piscando. Ninguém.
Na manhã seguinte, desci pra falar com seu Milton.
- Seu Milton, ontem tocou interfone 23h07 com voz de criança dizendo que mora no 71.
Ele não levantou a cabeça da mesa.
- Eu avisei pra não atender. Agora ela sabe sua voz.
- Quem é ela?
- A menina que morava aí antes. Morreu em 1998. Caiu da janela do 71. Ficou presa no vão do interfone. Toda noite 23h07 ela tenta voltar pra casa. Se você atende, ela sobe.
Eu mudei o interfone de lugar. Coloquei fita preta em cima pra não ouvir.
Noite seguinte, 23h07. _TRIM._
Mais alto. Eu não atendi.
_TRIM. TRIM. TRIM._ Três vezes seguidas. Depois voz, não mais no interfone. Na porta. Batendo.
_TOC TOC TOC._
- Tia, você trancou minha casa. Abre.
Voz de criança agora chorando, bem na minha porta de madeira. Eu tava descalça no meio da sala, com celular na mão, sem coragem de olhar no olho mágico.
Fiquei até 23h20 sem respirar. Parou.
Terceira noite, 23h07. Interfone. Porta. E agora janela.
Eu moro no sétimo andar. Não tem sacada. Só janela da cozinha que dá pra um vão escuro de 50 centímetros entre prédios, onde nunca bate sol.
_TOC TOC TOC_ na janela da cozinha. 7 andares de altura.
- Tia, tô aqui fora. Tá frio.
Olhei. Não tinha nada no vão. Só escuridão. Mas tinha marquinha de mão pequena no vidro por dentro. De dentro da cozinha. Como se ela já tivesse entrado e tivesse saído pra bater de fora.
Quarta noite, não dormi. Fiquei com luz acesa até 6h da manhã.
Às 6h03, seu Milton bateu na porta com polícia.
- A vizinha do 61 reclamou de choro de criança a noite toda no seu apartamento. Disse que ouviu menina gritando "abre, tia".
Eu não ouvi choro. Eu ouvi bater.
O policial entrou, olhou tudo. Não achou nada. Na hora de ir embora, ele apontou pro espelho do banheiro.
No espelho, com vapor mesmo sem banho quente, tava escrito com dedo de criança por dentro do espelho:
*EU MORO NO 71 TAMBÉM*
Naquela noite, eu não esperei 23h07. Saí 22h30 com mala. Deixei chave embaixo da porta do zelador e fui pra casa da minha mãe.
Seu Milton me ligou 23h15.
- Moça, ela entrou. Tô ouvindo passinho aí dentro agora. E interfone parou de tocar. Acho que ela conseguiu casa de novo.
O apartamento 71 no centro de São Paulo, Santa Cecília, 7º andar sem elevador, tá vazio de novo. Tá barato. Seu Milton ainda fala pra não atender interfone depois das 23h.
Se tocar 23h07 com voz de menina dizendo que esqueceu a chave do 71, não atende.
Porque se você atender com sua voz, ela decora.
E na noite seguinte, ela bate na sua porta com sua voz de criança.