🌑 A Casa que Respira
O caminho de terra terminava ali, engolido pela névoa espessa que pendia entre as árvores como um pano sujo. Eu apertei o cabo da lanterna, mas a luz mal conseguia furar a escuridão — parecia que a própria floresta a absorvia. A casa estava no centro de uma clareira, de madeira escura e janelas vazias como olhos sem vida. A porta estava entreaberta, rangendo levemente com o vento, como se estivesse a respirar.
— Não devia ter vindo — sussurrei para mim mesmo, mas a curiosidade, aquela maldita curiosidade, puxou-me para a frente.
Tinha encontrado a chave no bolso do casaco do meu avô, no dia em que o enterrei. Numa nota amarelada, com a caligrafia trémula dele, estava escrito: “A casa no fim do caminho. Vai, mas não entres depois do anoitecer. E se entrares… não fiques até à meia-noite. Não olhes para o espelho do corredor. E nunca, em hipótese nenhuma, abres a terceira porta à esquerda.”
Eu ri-me quando li. Sempre fomos uma família de contadores de histórias. Mas ali, de pé diante daquela casa silenciosa, com o ar frio a cheirar a mofo e a algo mais — algo doce e podre, como flores mortas —, o riso morreu-me na garganta.
Empurrei a porta. Rangeu tão forte que o som pareceu percorrer-me a espinha. O interior estava em penumbra, coberto de poeira, mas não parecia abandonado. Havia uma mesa posta com chávenas que não tinham sido lavadas há muito tempo. Um relógio de parede parado às 23:52. E no ar, uma quietude tão densa que doía nos ouvidos.
— Só vou olhar. Depois saio — disse, mais para acalmar o medo que crescia no peito.
Caminhei pelo corredor. As paredes estavam cobertas de retratos antigos. Pessoas de roupas velhas, com olhos que pareciam seguir cada passo meu. Quanto mais eu andava, mais a sensação de que não estava sozinho aumentava. Algo observava-me. Algo que respirava. O som vinha de todo o lado e de lugar nenhum — um suspiro baixo, rítmico, como se a própria casa tivesse pulmões.
Parei diante do espelho, o segundo aviso do avô. Era alto, com uma moldura de madeira escura e entalhes que pareciam garras. Eu não queria olhar, mas os meus olhos foram puxados contra a minha vontade.
No reflexo, eu vi-me — mas não só. Atrás de mim, no canto mais escuro do corredor, estava uma figura alta e magra, vestida de branco. O rosto era uma mancha sem forma, mas os olhos brilhavam com um vermelho vivo, como brasas. Eu congelei. Quando me virei, não havia nada. O corredor estava vazio. Mas o ar tinha ficado mais frio. E o som da respiração… tinha ficado mais perto.
— É a minha imaginação — murmurei, mas a mão tremia tanto que a lanterna quase caiu.
Continuei. O aviso mais forte era o último: nunca abres a terceira porta à esquerda. E foi precisamente para lá que os meus pés me levaram. Uma força invisível puxava-me. Cada passo era uma luta contra mim mesmo. A curiosidade misturava-se com o terror, criando uma ânsia doentia de ver o que estava escondido.
A porta estava fechada. A chave que o avô me deixou estava na minha mão, a tremer. Encaixei-a na fechadura. O som da rotação foi como um grito naquele silêncio.
Abri devagar. O quarto estava iluminado por uma luz pálida que vinha de lugar nenhum. No centro, sobre uma mesa de madeira, estava uma caixa de madeira preta. E nas paredes… nas paredes estavam escritas frases, com tinta vermelha que parecia ainda fresca:
“O passado não morre. Apenas espera.”
“Não há saída. Apenas mais tempo.”
“Ele vê-te. Sempre te viu.”
Aproximei-me da caixa. Abri-a.
Dentro, havia apenas uma coisa: um retrato. Era eu. Mas não era uma fotografia tirada há anos. Era eu, ali, naquele momento. Com o rosto pálido, os olhos arregalados de terror. E atrás de mim, na imagem, a figura de branco estava de pé, com as mãos sobre os meus ombros.
O som de um grito preso na garganta ecoou pela sala — mas não saiu de mim. Veio de todos os lados ao mesmo tempo. O relógio bateu. Meia-noite.
A porta fechou-se com estrondo atrás de mim. A luz apagou. E na escuridão, a respiração finalmente falou. Uma voz suave, sussurrada diretamente no meu ouvido:
— Obrigada por me deixares entrar. Agora… é a tua vez de esperar.