Capítulo 1
Leo
Estou dentro do carro, no banco de trás, com meu irmão.
Meu pai está dirigindo e minha mãe no banco do carona.
Estamos indo passar o Natal na casa dos meus avós.
Todo final de ano, toda a família se reúne lá para comemorar.
Tenho 18 anos e sou gay assumido. Minha família aceitou numa boa; se não aceitasse, o problema seria deles, não meu. Eu não mudaria quem sou por causa de ninguém.
Meu irmão tem 22 anos, é mais velho que eu e é hétero. E ele é um garoto chato.
Saio dos meus pensamentos quando meu pai entra com o carro na garagem da mansão dos meus avós.
A entrada está toda decorada com pisca-pisca, e há duas árvores grandes e verdes, enfeitadas com luzinhas coloridas e bolinhas vermelhas, verdes e azuis.
Meu pai estacionou o carro e nós saímos.
E meus pais e meu irmão treinam os risos deles para quando meu avô José fizer as piadas sem graça de sempre.
tem família que tem o tio da piada do pavê; aqui, na minha família, a gente tem o avô da piada do pavê, bem diferente — eu saio andando e deixo eles treinando as gargalhadas para lá.
Abro a porta e entro. A mansão está cheia de empregados andando de um lado para o outro: uns arrumam a árvore de Natal gigante que fica no meio da sala, outros decoram a escada com pisca-piscas coloridos e um tapete enorme dourado.
Saio dos meus pensamentos quando vejo minha avó vindo até mim.
— Rosana, ai, meu netinho favorito chegou! — diz minha avó, me dando um abraço e enchendo minha bochecha de beijos.
Dou um sorriso. Eu amo ser o neto favorito dos meus avós — e também sou o favorito do meu avô.
— Benção, vó.
— Deus te abençoe, bebê da vovó.
— Quero te apresentar o filho da nossa governanta, o Tomás.
Acho que vocês vão se dar bem — diz minha avó, pegando na minha mão.
Ela me leva até o jardim.
Quando chegamos lá, vejo um rapaz muito lindo.
Ele é loiro, tem olhos verdes e deve ter cerca de 1,93 de altura.
—Tomás, vem aqui, querido — chama minha avó.
Ele olha para a gente e dá um sorriso.
— Tomás, esse aqui é meu netinho, o Léo. E, Léo, esse é o Tomás, filho da governanta.
Ele estende a mão para mim, e eu aperto.
— Muito prazer em te conhecer — ele diz.
— Digo o mesmo.
Capítulo 2
Leo
Ficamos alguns segundos nos olhando, aquele tipo de silêncio que não chega a ser desconfortável, só diferente.
O sorriso dele é fácil, meio tímido, e isso me pega desprevenido.
— Tomás vai ficar aqui com a gente durante as festas — diz minha avó, toda animada. — Achei que seria bom você ter companhia.
Companhia. Olho de novo para ele e sinto meu coração dar um pulinho totalmente desnecessário.
— Vou deixar vocês conversarem — minha avó diz, piscando para mim antes de sair, claramente satisfeita com a própria ideia.
Assim que ela se afasta, Tomás passa a mão na nuca, meio sem jeito.
— Então… — ele diz, respirando fundo. — Você mora longe daqui?
— Não muito — respondo. — Mas a gente sempre vem para cá,no Natal.
Ele concorda, com a cabeça.
Ser tem quantos anos,ele pergunta.
Eu tenho 18 anos e você.
Tenho 21 anos, ele diz.
Começamos a caminhar pelo jardim sem perceber.
A conversa flui leve: músicas que gostamos, filmes ruins que a gente ama assistir mesmo assim.
Em algum momento, estamos rindo baixo, quase esquecendo que o mundo existe fora dali.
— Você ri fácil — ele comenta, me olhando de um jeito que faz meu estômago dar um nó.
— Culpa sua — respondo, brincando.
Ele para de andar de repente, e eu paro também.
As luzinhas refletem nos olhos verdes dele, deixando tudo ainda mais bonito.
Fico consciente demais da proximidade, do jeito que ele está perto demais… ou talvez perto na medida certa.
— Léo — ele chama, baixinho.
— Oi.
Por um segundo, acho que ele vai dizer alguma coisa importante.
Mas então ouvimos a voz da minha mãe chamando de longe.
— A ceia vai começar!
O momento se quebra, mas não some. Fica ali, suspenso no ar.
— Parece que fomos convocados — ele diz, sorrindo.
— É… — respondo. — Mas a conversa não acabou.
— Ainda bem.
Entramos juntos na mansão.
A mesa está enorme, cheia de pratos, luzes, risadas e cheiro de comida boa.
Minha família fala alto, meu avô já está contando alguma piada que ninguém pediu, e todo mundo parece feliz.
E os empregados comendo, junto a ceia, pois meus avós gostam, assim todos comem, juntos, no Natal e ano novo, até os empregados, e os filhos deles.
Tomás se senta ao meu lado. Nossos braços se encostam de novo, e dessa vez nenhum de nós finge que foi sem querer.
— Feliz Natal — ele diz, inclinando-se levemente para mim.
— Feliz Natal —
respondo, sentindo meu coração bater mais forte.
Enquanto todos brindam, percebo que, no meio de tanta gente, ele é a única pessoa que realmente chama minha atenção.
Capítulo 3
Leo
Três dias depois
Eu e Tomás estávamos deitados na grama do jardim, lado a lado, olhando a lua cheia que brilhava no céu limpo. A noite estava silenciosa, só se ouvia o som distante dos grilos e o vento balançando as folhas das árvores. O cheiro suave das flores misturava-se com o frescor da madrugada.
Ele segurava a minha mão com cuidado, como se tivesse medo de que eu desaparecesse a qualquer momento. Eu virei o rosto e fiquei observando o jeito como a luz da lua iluminava os traços dele — os olhos atentos, o sorriso meio tímido.
— É uma pena que você vá embora amanhã, Leo — Tomás disse baixinho, apertando de leve a minha mão.
Eu dei um sorrisinho, tentando parecer mais forte do que realmente estava.
— Sim… é uma pena. Mas quem sabe meus pais não deixam eu passar as férias aqui em janeiro? — respondi, tentando soar esperançoso.
Ele suspirou.
— Tomara que eles deixem.
Ficamos alguns segundos em silêncio, apenas nos olhando. Meu coração começou a bater mais rápido. Eu não queria ir embora sem fazer algo que já estava guardando há dias.
— Tomás… — chamei, um pouco nervoso.
— Oi?
Eu me aproximei devagar. Ele também. Nossos rostos ficaram tão perto que eu conseguia sentir a respiração dele. Por um instante, pensei em recuar, mas ele segurou meu rosto com carinho.
E então aconteceu.
Nosso primeiro beijo foi tímido, suave, quase inseguro. Mas ao mesmo tempo foi cheio de sentimento, como se aquele momento estivesse sendo esperado há muito tempo. Quando nos afastamos, nós dois sorrimos, com as bochechas quentes e os olhos brilhando.
— Eu vou sentir sua falta — ele sussurrou.
— Eu também vou sentir a sua — respondi.
Na manhã seguinte, o céu estava claro, eu dentro do carro dos meus pais, com meu irmão dormindo, vou pedir aos meus pais se posso, passar as férias com meus avós.
Fim