O PREÇO DA SUA VIDA
Lívia sacrificou o maior sonho de sua vida para salvar Gustavo.
Ao se jogar na frente de um carro e impedir que ele perdesse a vida, ela perdeu a carreira que tanto amava como bailarina. Seis anos depois, porém, percebe que o homem por quem sacrificou tudo jamais lhe ofereceu aquilo que realmente desejava: amor.
Cansada de viver em um casamento sustentado pela gratidão, pela distância e por um coração que sempre pareceu pertencer a outra mulher, Lívia pede o divórcio e decide, finalmente, escolher a si mesma.
Mas recomeçar não será tão simples.
Depois de precisar passar por uma cirurgia no joelho, Lívia conhece o doutor Gabriel Rossi. O que começa como uma relação entre médico e paciente logo desperta sentimentos que nenhum dos dois esperava. Pela primeira vez em anos, Lívia se sente vista, desejada e livre para descobrir quem é longe de Gustavo.
Só que Gustavo não está disposto a aceitar o fim.
Ao perceber que pode realmente perder a mulher que durante anos considerou sua, ele fará de tudo para reconquistá-la — mesmo quando descobre que existe outro homem ocupando um espaço que antes acreditava ser exclusivamente seu.
Entre o passado que se recusa a morrer e um novo sentimento que cresce a cada dia, Lívia se vê no centro de uma relação inesperada, intensa e impossível de ignorar.
Talvez ela tenha que escolher entre dois homens.
Talvez nenhum deles esteja disposto a abrir mão dela.
Ou talvez o amor tenha uma forma que nenhum dos três imaginou.
Quando três corações se encontram, quem disse que só pode existir um final?
Classificação: 🔞 18+
Temas:
💔 Amor não correspondido
💍 Casamento sem amor
🥀 Rejeição conjugal
🔥 Desejo e atração
💰 Riqueza e poder
👠 Superação e independência feminina
💔 Traição emocional
👤 Retorno da ex-namorada
🩰 Sonhos interrompidos
✨ Recomeço
⚠️ Aviso de conteúdo
A história contém temas adultos e emocionalmente intensos, incluindo rejeição, abandono emocional, conflitos conjugais, traição, sofrimento psicológico, linguagem adulta e cenas de conteúdo sexual. Recomenda-se a leitura para maiores de 18 anos.
©️ Direitos autorais
© 2026 — Lorrayna Viana. Todos os direitos reservados.
Esta obra é 100% original e autoral. É proibida a reprodução, cópia, distribuição, adaptação ou publicação total ou parcial desta história, dos personagens e de seu conteúdo sem autorização expressa da autora.
Personagens, acontecimentos e situações apresentados nesta obra pertencem à narrativa ficcional e são fruto da criação da autora.
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Lívia Me chamo Lívia, tenho 26 anos e carrego no corpo as marcas do dia em que escolhi salvar a vida do homem que sempre amei. Eu tinha um futuro brilhante como bailarina, mas o acidente tirou minhas sapatilhas e me deixou uma leve claudicação na perna esquerda. Sou casada com o Gustavo há seis anos — um casamento que ele pediu por gratidão, mas que nunca consumou. Apesar da rotina fria e do desejo sufocado, continuo estudando para me reinventar e provar a mim mesma que minha história não terminou naquela rua.
Gustavo Sou o Gustavo, tenho 29 anos, empresário focado e obstinado. Minha vida mudou para sempre no dia em que a Lívia se jogou na frente de um carro para me salvar. Casei com ela por pura gratidão e me dedico a garantir que ela tenha a melhor vida e o melhor conforto possíveis. No entanto, carrego um segredo amargo: nunca consegui tocá-la como mulher porque minha mente e meu desejo continuam presos à Carina, o amor da minha juventude que me deixou no passado.
Carina Sou a Carina, tenho 28 anos, arquiteta bem-sucedida e extremamente ambiciosa. Durante o colégio, vivi um relacionamento intenso com o Gustavo, mas escolhi colocar minha carreira em primeiro lugar e mudei para a Europa assim que me formei. De volta ao país com o nome consolidado no mercado, estou disposta a reconquistar tudo o que deixei para trás — inclusive o homem que sei que nunca me esqueceu.
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PDV: Lívia
O barulho da água caindo no box do banheiro principal do quarto ecoava pelo cômodo em penumbra. Eu estava deitada na cama king size, encarando o teto gessado e acompanhando com os olhos as sombras que a luz do poste lá fora projetava na parede. O lençol de seda cobria meu corpo até a cintura. As pernas doíam hoje, uma dor surda e insistente no joelho esquerdo, exatamente onde o impacto do para-choque esmagou meus ossos seis anos atrás.
A porta do banheiro destravou e o vapor quente se espalhou pelo quarto, trazendo o cheiro forte do sabonete amadeirado de Gustavo.
Sentada na borda da cama, ajeitei a camisola de renda preta. Escolhi aquela peça de propósito. Era transparente nos pontos certos, curta o suficiente para mostrar minhas coxas e justa na cintura. Passei a mão pelo tecido macio, sentindo o peito acelerar. Mais uma tentativa. A centésima, talvez.
Gustavo saiu do banho enrolado em uma toalha branca na cintura, secando os cabelos escuros com outra menor. Os músculos das costas se contraíam a cada movimento. Ele era lindo. Tão lindo que às vezes meu ar simplesmente sumia só de olhar para ele.
Lívia — Gustavo...
Ele parou por um segundo, virando o rosto na minha direção. Seus olhos passaram por mim, da alça da camisola até as minhas pernas cobertas, sem parar em nenhum ponto específico por mais do que um segundo.
Gustavo — Ainda acordada, Lívia? Já passa de meia-noite. Você devia estar descansando. A joelheira está no armário se a dor no joelho voltar.
Lívia — Não é dor na perna.
Levantei da cama devagar. Apoiei o peso do corpo na perna direita, disfarçando ao máximo a leve claudicação que ainda me acompanhava. Caminhei até ele. O piso de madeira estava frio sob meus pés descalços. Quando cheguei perto o bastante para sentir o calor que saía da pele dele, ergui os braços e enlacei seu pescoço.
Gustavo estancou. As mãos dele continuaram segurando a toalha no cabelo, o corpo rígido como uma estátua de gelo.
Lívia — Você não acha que a gente devia aproveitar que amanhã é sábado? Ficar um pouco juntos... De verdade.
Puxei a cabeça dele levemente para baixo e selei nossos lábios. O beijo foi como tentar acender fogo em madeira molhada. A boca dele não se abriu. Não houve retribuição, apenas a tolerância passiva de quem espera uma tempestade passar.
Pressionei meu quadril contra o dele, subindo uma das mãos pelo peito largo e úmido de água. Rebolei devagar, tentando acordar qualquer tipo de reação naquele homem que era meu marido no papel, mas um estranho na cama.
Gustavo — Lívia, por favor.
Ele segurou meus pulsos. O aperto dele não era violento, mas era firme o suficiente para me afastar alguns centímetros.
Lívia — Seis anos, Gustavo. Nós somos casados há seis anos. Quando é que você vai parar de dar desculpas?
Gustavo — Eu trabalhei doze horas hoje na empresa. Fechei dois contratos difíceis com os chineses. Estou exausto, com uma dor de cabeça insuportável.
Lívia — Você sempre está cansado! Sempre tem uma dor de cabeça, uma reunião, um balanço financeiro! Eu sou sua esposa!
Gustavo — E eu cuido de você! Eu garanto que você tenha o melhor tratamento fisioterapêutico, a melhor casa, o melhor conforto! Eu nunca deixei faltar nada nesta casa, Lívia.
Lívia — Eu não quero o seu dinheiro, Gustavo! Eu não quero fisioterapia cara! Eu quero o meu marido! Eu quero me sentir desejada por você uma vez na vida!
Ele suspirou, esfregando a ponta do nariz e evitando olhar nos meus olhos. Aquele gesto que eu conhecia tão bem. O gesto de quem está lidando com uma criança birrenta, não com uma mulher frustrada.
Gustavo — Não comece com essa discussão de novo. Amanhã eu tenho que acordar cedo para jogar golfe com os conselheiros do banco. Vamos dormir.
Ele me soltou devagar, passou por mim sem olhar para trás e pegou uma calça de moletom na gaveta. Vestiu a peça com calma, pegou seu travesseiro da cama e caminhou em direção à porta do quarto.
Lívia — Aonde você vai?
Gustavo — Vou dormir no quarto de hóspedes. Assim não corro o risco de te machucar se eu me mexer muito durante a noite. Boa noite.
Ele nem esperou minha resposta. A porta do quarto se fechou com um estalo seco.
Fiquei parada no meio do quarto amplo. O silêncio da casa parecia me sufocar. Olhei para o espelho de corpo inteiro encostado na parede. A camisola cara parecia uma piada. Eu tinha vinte e seis anos, o corpo rígido pelos anos de dança, mas por dentro me sentia totalmente murcha e rejeitada.
As lágrimas finalmente rolaram, quentes e ruidosas. Encostei as costas na borda da cama e deslizei até o chão. A dor no joelho esquerdo fisgou, mas a dor no peito era infinitamente pior.
Toquei minha própria coxa, subindo a mão por debaixo da renda. Fechei os olhos e deslizei os dedos entre minhas pernas, buscando o alívio que ele se recusava a me dar. Mordi o lipo inferior para conter o choro enquanto me tocava no escuro, imaginando como seria ter o peso de um homem de verdade sobre mim, alguém que me olhasse com fome e não com pena. O orgasmo veio rápido, amargo e solitário, deixando apenas um vazio ainda maior no meu ventre.
Cerca de duas horas se passaram. O relógio digital na mesa de cabeceira marcava três da manhã. Eu não conseguia dormir. Levantei para ir até a cozinha pegar um copo de água.
Ao passar pelo corredor, percebi a porta do banheiro social entreaberta. Uma nesga de luz amarela cortava a escuridão do corredor.
Achei que ele tivesse deixado a luz acesa por engano, mas parei ao ouvir o som abafado de respiração pesada vindo lá de dentro.
Aproximei-me devagar, sem fazer barulho. Olhei pelo fresta da porta.
Gustavo estava de pé em frente ao espelho, completamente nu. Uma das mãos apoiava-se na pia de mármore enquanto a outra se movia rápido e freneticamente entre suas pernas. O peito dele subia e descia com violência, os músculos tensos, o rosto franzido em uma expressão de puro desejo reprimido. O pau dele estava completamente ereto, duro e pulsante — algo que ele jamais permitiu que eu visse ou tocasse em seis anos de casamento.
A respiração dele acelerou. Ele estava prestes a gozar.
Gustavo — Carina... Ah, Carina...
O nome saiu da boca dele como um sussurro rasgado, cheio de paixão, dor e saudade.
Tranquei a respiração. A água nos meus olhos embaçou tudo. Ele gozou com um gemido baixo, sujando a pia de mármore, e encostou a testa no espelho, arquejando o nome dela mais uma vez.
Recuei um passo, depois outro, sem fazer nenhum ruído. Corri de volta para o quarto principal e bati a porta atrás de mim, segurando o grito de dor que queria rasgar minha garganta.
Carina.
A garota da escola. A menina que foi embora para a Europa no dia em que eu fui atropelada para salvá-lo. O fantasma que morava na nossa casa, na nossa cama e na mente do meu marido a cada segundo do dia.
Deitei na cama, abraçando minhas próprias pernas enquanto soluçava no travesseiro. Ele nunca esteve cansado. Ele nunca esteve com dor de cabeça. Ele só não conseguia tocar na mulher que salvou a vida dele porque o corpo e a alma dele pertenciam a outra.
PDV: Gustavo
O vapor do chuveiro ainda tomava conta do banheiro quando fechei a torneira. Apoiei as duas mãos na borda da pia de mármore e encarei meu próprio reflexo no espelho. Minha respiração continuava descompassada. O suor frio escorria pelo meu peito, misturando-se com as gotas de água do banho.
Sentia nojo da minha própria fraqueza.
Passei a mão pelo rosto, tentando afastar a imagem que teimava em invadir minha mente todas as vezes em que eu fechava os olhos. Seis anos. Seis anos tentando me convencer de que o tempo apagaria aquela lembrança, e mesmo assim bastava um momento de descuido na penumbra para o nome de Carina rasgar minha garganta.
Peguei a toalha e sequei o rosto com força. Olhei para a porta fechada do banheiro social. Pensar em Lívia doía de uma forma diferente. Ela estava no quarto principal, provavelmente chorando ou tentando entender o motivo de mais uma rejeição.
Lívia era doce. Tinha olhos castanhos expressivos, cheios de uma vida e de um afeto que eu simplesmente não conseguia retribuir na mesma intensidade. Ela vestia aquela camisola preta mais cedo, tentando me seduzir, e a única coisa que senti ao olhar para o corpo dela foi o peso esmagador da culpa.
Minha mente voltou para a tarde em que tudo mudou. O barulho dos pneus cantando no asfalto, o grito abafado dela e o baque seco do corpo de Lívia atingindo o carro para me jogar para fora da pista. Ela era uma bailarina promissora. Tinha uma bolsa garantida no exterior, um futuro brilhante. Ela perdeu a carreira e a mobilidade da perna para que eu continuasse vivo.
Eu devia minha vida a ela.
Sequei o corpo, vesti uma calça de moletom cinza e saí do banheiro social devagar, pisando fundo para não fazer barulho no corredor de madeira. A porta do nosso quarto estava encostada. Olhei pela fresta e vi o bulto de Lívia encolhido sob as cobertas. Os ombros dela tremiam levemente.
Senti um aperto no peito, mas me recusei a entrar. Se eu entrasse, ela pediria mais do que eu podia dar. Ela queria meu amor, meu desejo, minha entrega. Mas como entregar algo que morreu no dia em que Carina embarcou naquele avião para a Europa?
Caminhei até o escritório no fim do corredor. A iluminação fraca do abajur de mesa revelou a organização impecável do meu espaço de trabalho. Sentei-me na poltrona de couro e abri a gaveta inferior da escrivaninha.
Lá no fundo, sob uma pasta de documentos da empresa, tirei uma pequena caixa de veludo preto.
Abri o fecho dourado. Deitada sobre o tecido macio estava uma gargantilha delicada de ouro branco com um pequeno pendente de brilhante. Um modelo clássico, sóbrio e extremamente caro. O mesmo modelo que comprei no primeiro aniversário de casamento. E no segundo. E no terceiro.
Eu não conseguia escolher outro presente. Aquele colar era exatamente o modelo que Carina havia me mostrado em uma vitrine, anos atrás, quando ainda éramos adolescentes e fazíamos planos para o futuro. Na época, eu não tinha um tostão no bolso para comprá-lo. Hoje, eu tinha milhões na conta, mas a mulher para quem eu queria dar aquele colar estava do outro lado do oceano.
Dar o mesmo colar para Lívia todos os anos era minha forma covarde de manter uma promessa que fiz a mim mesmo no passado, disfarçada de presente de luxo para a esposa que cuidava da minha casa.
O telefone sobre a mesa vibrou silenciosamente. A tela acendeu com uma notificação de mensagem de texto.
Era de Otávio, meu sócio e um dos poucos amigos da época da faculdade que ainda frequentavam minha casa.
Otávio — Cara, você precisa ver isso. A notícia acabou de sair nos portais de sociedade.
Abaixo da mensagem, um link de notícia. Cliquei com o polegar tenso. O site carregou a foto de uma recepção no aeroporto internacional.
A legenda dizia: "A renomada arquiteta Carina Medeiros desembarca no país após seis anos na Europa para assumir grandes projetos na capital."
Na foto, Carina sorria para a câmera. Seus cabelos loiros iluminados caíam perfeitamente sobre os ombros, os olhos claros brilhando com a mesma confiança arrogante de sempre. Ela estava diferente, mais mulher, mais distante, mas ainda era a mesma pessoa que destruiu meu coração ao ir embora sem olhar para trás.
O ar sumiu dos meus pulmões. O celular quase escorregou da minha mão.
Ela voltou.
A porta do escritório rangeu levemente. Tranquei a tela do celular instantaneamente e guardei a caixa de veludo de volta na gaveta, fechando-a com um baque seco.
Lívia estava parada no portal da porta. Ela vestia um Roupão branco felpudo por cima da camisola, os olhos castanhos levemente vermelhos e inchados pelo choro recente. Ela segurava uma xícara de chá quente nas mãos.
Lívia — Vi a luz acesa. Achei que você estivesse com dor de cabeça e não conseguisse dormir.
Ela deu dois passos para dentro, mancando discretamente com a perna esquerda, e colocou a xícara sobre a minha mesa. O olhar dela passou rápido pela gaveta que eu tinha acabado de fechar.
Gustavo — Obrigado, Lívia. Você não precisava ter se levantado.
Lívia — Eu não consigo dormir.
Ela ficou em pé ao lado da mesa, os braços cruzados rente ao corpo. O silêncio entre nós era denso, carregado de coisas não ditas.
Gustavo — O aniversário do nosso casamento é na semana que vem. Eu já pedi para a minha secretária reservar uma mesa naquele restaurante italiano no centro. Aquele que você gosta.
Lívia encarou meu rosto por longos segundos. Não havia alegria nos olhos dela, apenas uma resignação profunda que fez meu estômago embrulhar.
Lívia — Você não precisa se dar ao trabalho, Gustavo. A gente pode jantar em casa mesmo. A Maria prepara algo simples.
Gustavo — faço questão. Quero te dar o seu presente lá. Você merece o melhor.
Ela deu um sorriso fraco, quase imperceptível, sem nenhum brilho.
Lívia — É claro. O presente de sempre.
Ela se virou antes que eu pudesse responder e caminhou devagar para fora do escritório, arrastando os pés macios no tapete.
Fiquei sozinho novamente. Olhei para a tela do celular apagada sobre a mesa e depois para a gaveta fechada. Carina estava na mesma cidade. E a fragilidade do meu casamento com Lívia estava prestes a ser testada de um jeito que eu não tinha como controlar.
PDV: Lívia
O sol do fim de tarde entrava pelas grandes janelas da sala de estar. Eu estava sentada no sofá com o notebook apoiado no colo, finalizando os últimos detalhes da minha inscrição. Era uma vaga para dar aulas de teoria da dança e história da arte em um centro cultural renomado da cidade. Por conta da minha perna, eu não podia passar horas em pé demonstrando passos complexos, mas minha mente e meu conhecimento continuavam intactos.
Fechei os olhos por um segundo quando o e-mail de confirmação apareceu na tela: Inscrição recebida com sucesso. Compareça à sede amanhã para a entrega dos documentos presenciais.
Um sorriso fraco surgiu nos meus lábios. Pela primeira vez em seis anos, eu sentia que estava dando um passo em direção a mim mesma, sem depender da conta bancária de Gustavo.
A porta da frente se abriu e o som dos passos dele ecoou pelo hall. Gustavo entrou vestindo um terno alinhado, a gravata levemente frouxa no colarinho. Ele trazia uma sacola de papel de uma loja de doces fina na mão direita.
Gustavo — Boa tarde, Lívia. Comprei aqueles macarons de pistache que você gosta.
Lívia — Obrigada, Gustavo. Não precisava.
Ele se aproximou, deixando a sacola sobre a mesa de centro. Os olhos dele rapidamente passaram pelas minhas pernas dobradas no sofá antes de encontrarem meu rosto.
Gustavo — Você passou o dia em casa? A Maria me disse que você ficou trancada no escritório a manhã toda.
Lívia — Estava organizando uns papéis meus. Projetos antigos.
Não contei sobre a vaga de professora. Se contasse, ele diria que eu não precisava trabalhar, que a casa já tinha tudo o que eu precisava e que o esforço físico não faria bem para o meu joelho. Ele sempre usava o cuidado como uma gaiola bem decorada.
Gustavo — Entendo. Bom, você lembrou do nosso jantar hoje, não é? O carro passa para nos pegar às oito.
Lívia — Lembrei. É o nosso aniversário de casamento.
Ele concordou com a cabeça de forma mecânica e caminhou em direção às escadas para tomar banho.
Duas horas depois, eu estava pronta. Escolhi um vestido longo azul-marinho que cobria minhas pernas até os tornozelos, com um decote discreto nas costas. Ajeitei os cabelos em ondas leves sobre os ombros e passei um batom suave. Quando desci, Gustavo já me esperava no pé da escada, vestindo um terno escuro sob medida.
Ele me estendeu o braço. Apoiei minha mão nele e fomos até o carro do motorista.
O restaurante italiano era sofisticado, com iluminação baixa e mesas espaçadas. O maitre nos guiou até uma mesa reservada no canto mais reservado do salão.
O jantar correu em um silêncio cortado apenas por conversas triviais sobre o trabalho dele e o clima da cidade. Ele era educado, cortês e garantia que a minha taça de vinho nunca ficasse vazia, mas o olhar dele vagava constantemente para a porta de entrada.
Quando a sobremesa foi servida, Gustavo tirou do bolso interno do paletó a conhecida caixa de veludo preto.
Ele a deslizou pela mesa até parar na minha frente.
Gustavo — Feliz aniversário de casamento, Lívia.
Minhas mãos tremeram levemente ao pegar a caixa. Eu já sabia exatamente o que tinha dentro. Abri a trava dourada e encarei a gargantilha de ouro branco com o pendente de brilhante. Era idêntica às outras cinco que repousavam no meu porta-joias em casa.
Lívia — É linda, Gustavo. Obrigada.
Gustavo — Coloque. Fica perfeita no seu pescoço.
Eu peguei a correntinha fria e a prendi ao redor do pescoço, sentindo o peso daquele metal como uma algema invisível. Ele sorriu, satisfeito, crente de que tinha cumprido seu papel de marido exemplar por mais um ano.
Lívia — Vou ao banheiro um instante. Já volto.
Peguei minha bolsa e me levantei. A caminhada até o corredor dos banheiros exigi atenção para que meu caminhar saísse o mais firme possível. Lavei as mãos na pia de mármore e encarei meu reflexo no espelho, a gargantilha brilhando sob as luzes do banheiro.
Ao sair, o corredor estava silencioso. Para voltar ao salão principal, passei por uma porta entreaberta que dava acesso a um salão privativo de eventos. O som de risadas altas e taças se chocando veio lá de dentro.
Reconheci a voz imediatamente. Era Otávio, o amigo de faculdade de Gustavo.
Otávio — — Cara, você devia ter visto a cara do Gustavo quando viu a notícia! Aposto que ele quase caiu da cadeira!
Uma voz feminina, aveludada e firme, respondeu em seguida, acompanhada de uma risada baixa.
Carina — — O Gustavo sempre foi muito dramático. Tenho certeza de que ele ficou chocado ao ver que eu voltei de vez.
Tranquei a respiração. Meu corpo congelou ao lado da fresta da porta.
Amigo 2 — — Mas e o casamento dele, Carina? Todo mundo sabe que ele só casou com a manquinha porque ela salvou a vida dele. É um casamento de fachada puro!
Otávio — — Pura obrigação, cara! O Gustavo vive sustentando ela por culpa. Se você ver como ela anda hoje em dia, dá até pena. Todo aniversário ele dá o mesmo colar caro para ver se compensa a falta de tesão!
Gargalhadas ecoaram pela sala. Senti o sangue fugir do meu rosto. As pernas fraquejaram, e precisei me apoiar na parede para não cair.
Carina — — Coitada. Mas o Gustavo sempre teve pena dos fracos. O importante é que agora eu voltei, e a gente sabe muito bem quem ele realmente ama.
O ar sumiu dos meus pulmões. As palavras queimavam na minha pele pior do que a dor do atropelamento. Eles sabiam. Todo o círculo social dele sabia que o nosso casamento era uma farsa mantida por culpa e que o colar no meu pescoço era uma piada interna entre eles.
Com o coração disparado e as lágrimas queimando atrás dos olhos, dei um passo para trás. Não voltei para a mesa de Gustavo.
Caminhei o mais rápido que minha perna permitia em direção à saída do restaurante. O ar frio da noite atingiu meu rosto no momento em que passei pelas portas de vidro. Meus olhos procuraram um táxi na calçada. Acenei desesperadamente para o primeiro veículo que vi passar.
Entrei no banco de trás, a gargantilha sufocando meu pescoço.
Motorista — Boa noite, moça. Para onde vamos?
Lívia — Para o hotel mais próximo, por favor. O mais rápido que puder.
Olhei pelo vidro traseiro enquanto o táxi acelerava. Através da fachada espelhada do restaurante, vi Gustavo saindo apressado na calçada, olhando para os lados com o celular na mão. O aparelho na minha bolsa começou a tocar e a vibrar freneticamente.
Apertei o botão de desligar, apagando a tela do celular por completo. Fechei os olhos e encostei a cabeça no vidro, sentindo a primeira lágrima quente escorrer pela minha bochecha enquanto o carro me afastava daquela farsa.
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