📖 Informações do livro
Título: Dono do Meu Recomeço
Autora: Lorrayna Viana
Gênero: Romance • Drama • Romance de Favela
Classificação: 🔞 18 anos
⚠️ Aviso de conteúdo
Contém violência, criminalidade, traição, abuso emocional, linguagem forte, tentativa de suicídio e cenas adultas.
Sophia
"Eu me chamo Sophia, tenho 26 anos. Por muito tempo, a minha maior vocação foi cuidar dos outros. Me formei como técnica em enfermagem e encontrava no jaleco branco a certeza de que podia fazer a diferença na vida das pessoas. Mas quando me casei com o Gustavo, tudo mudou. Para ele, meus plantões eram um incômodo, meu cansaço era 'frescura' e a minha dedicação aos pacientes era um abandono do lar. Aos poucos, me deixei persuadir. Abri mão da minha carreira, dos meus sonhos e da minha independência para me tornar a esposa perfeita que ele exigia. Me doei até me esvaziar por completo.
O resultado? Fui traída, trocada pela colega de trabalho dele e humilhada de uma forma que me destruiu por dentro. A dor foi tão visceral que cheguei ao ponto mais escuro da minha alma no Morro do Cocada, tentando apagar tudo. Mas a vida me deu uma segunda chance pelas mãos de quem eu menos esperava. Hoje, renascendo das cinzas, entendi que ninguém mais vai me fazer largar o que eu amo. Voltar a cuidar das pessoas na comunidade não é só o meu trabalho de novo... é a forma como estou reconstruindo o meu próprio coração."
Victor (Vulgo: Rachid)
"Me chamam de Rachid. Tenho 30 anos, 1,88m de altura, corpo fechado de tatuagem e o comando do Morro do Cocada nas minhas mãos. Aqui o papo é reto e o respeito é conquistado na marra. Não tenho paciência pra drama, fraqueza ou palhaçada dentro da minha comunidade. Minha vida sempre foi postura, correria e proteção da minha família. Nunca deixei mulher nenhuma pisar na minha mente ou ditar o que eu faço. Mas quando vi aquela garota desacordada nos braços da amiga, com a vida escapando pelas mãos no meu portão, alguma coisa mudou. Eu disse que ia cuidar dela por obrigação do morro... só não contava que ela fosse virar minha maior fraqueza."
Tati
"Me chamo Tati, tenho 26 anos, nascida e criada no Morro do Cocada. Sou a melhor amiga da Sophia desde a infância e a única que teve coragem de abrir as portas quando ela não tinha mais para onde ir. Sou despachada, falo alto e não levo desaforo pra casa. Ver a minha amiga naquele estado destruiu meu coração, mas mover os céus e a terra pra salvar a vida dela foi a melhor coisa que fiz."
Cauã
"Tenho 28 anos e sou o braço direito do Rachid. Minha missão é manter a ordem, blindar o chefe e resolver o que tiver que ser resolvido sem fazer barulho. No morro, a lealdade vem em primeiro lugar. Quando o chefe mandou descer com o carro pra socorrer a amiga da Tati, vi que o Rachid que todo mundo teme pela primeira vez olhou pra alguém com outros olhos."
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Dono do Meu Recomeço
Sinopse Oficial
Ela deu tudo de si por um casamento que a destruiu. Ele não acreditava em segunda chance... até encontrar o amor no meio da dor.
Sophia passou anos se anulando. Para ser a esposa perfeita para Gustavo, ela abriu mão do diploma de técnica em enfermagem, dos seus sonhos e da sua própria essência. Como resposta, recebeu frieza, uma traição com a colega de trabalho do marido e uma humilhação devastadora: "Você está acabada".
Expulsa da própria vida e sem rumo, ela se refugia no Morro do Cocada, no Rio de Janeiro, na casa da sua melhor amiga, Tati. No ponto mais escuro do seu desespero, Sophia tenta apagar a própria existência, mas o destino intervém nas mãos de Victor — conhecido por todos no morro pelo vulgo de Rachid.
Rachid é o chefe implacável da comunidade. Homem de poucas palavras e regras rígidas, ele não aceita tragédias no seu território e resolve levar aquela garota quebrada para a sua mansão, determinado a mantê-la viva sob os seus olhos.
O que começa como uma obrigação territorial logo se transforma. Enquanto resgata sua vocação na enfermagem cuidando dos moradores do morro, Sophia reencontra sua força, sua beleza e sua dignidade. E Rachid, até então inalcançável, descobre que a única coisa mais perigosa do que dominar um morro é entregar o coração para a mulher certa.
Quando o passado de Sophia tenta voltar, com um ex-marido arrependido e uma "atual idiota" caindo nas mesmas velhas armadilhas, Gustavo vai descobrir da pior forma que a mulher que ele descartou agora carrega a coroa do Morro do Cocada... e a proteção do homem mais perigoso da cidade.
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CAPÍTULO 1
O Preço de Me Anular
PDV: Sophia
O silêncio do apartamento parecia pesar toneladas. Olhei para o relógio na parede da cozinha e os ponteiros marcavam quase dez da noite. O jantar já tinha esfriado sobre a mesa posta pela terceira vez naquela semana. Mandei três mensagens, liguei duas vezes, mas o celular do Gustavo só dava na caixa de mensagem ou chamava até cair.
Minhas costas doíam. Passei a tarde inteira limpando a casa, lavando as roupas dele a mão para não estragar o tecido fino dos ternos que ele usava na construtora, e preparando exatamente o prato que ele disse que estava com vontade de comer. Quando olhei para o meu reflexo no vidro da janela da varanda, vi uma mulher que eu mal reconhecia. Os cabelos castanhos, que antes viviam arrumados e cheios de vida, estavam presos num coque frouxo e desajeitado. O rosto limpo, sem maquiagem, carregava olheiras profundas. Vestia um camisão antigo dele e uma calça de moletom desgastada.
Nem parecia a Sophia de cinco anos atrás. A Sophia que vestia o jaleco branco com orgulho, que corria nos corredores do hospital fazendo estágio de Técnica em Enfermagem, que sorria com facilidade e sonhava em fazer uma faculdade de Enfermagem completa.
Sophia: — "É pelo nosso futuro, amor. O hospital te consome demais, você chega cansada, não tem tempo pra mim e nem pra cuidar da nossa casa. Homem meu não precisa de mulher trabalhando fora." — murmurei para o nada, repetindo as palavras que o Gustavo usou quando me convenceu a trancar a faculdade e pedir demissão.
Na época, meu coração ingênuo enxergou aquilo como cuidado. Achei que era amor. Achei que abdicar dos meus sonhos para construir os dele era o papel de uma esposa dedicada.
O barulho da chave girando na fechadura me tirou do transe. Meu coração deu um salto bobo de esperança. Me ajeitei rápido, passei a mão no cabelo na tentativa inútil de arrumar o coque e fui até a sala com um sorriso cansado no rosto.
Sophia: — Você chegou, meu amor! Fiquei preocupada, você não atendia o celular... Aconteceu alguma coisa na empresa?
Gustavo entrou e nem sequer olhou na minha cara. Ele jogou o paletó de grife sobre o sofá, soltou o nó da gravata com grosseria e soltou um suspiro pesado, carregado de impaciência. O cheiro dele me deu um nó no estômago imediato. Não era o perfume amadeirado de costume. Tinha um aroma doce e forte misturado, um perfume feminino que definitivamente não era o meu.
Gustavo: — Que saco, Sophia! Já vai começar com o interrogatório? Eu trabalho o dia inteiro, sustento essa casa sozinho, levo pancada de cliente e de chefe, e quando chego em casa tenho que dar satisfação como se fosse um moleque?
Sophia: — Não é interrogatório, Gustavo... Eu só me preocupei. O jantar tá pronto faz tempo, fiz aquele lombo assado que você gosta...
Gustavo: — Eu já comi na rua. Não tô com fome nenhuma. E para de ficar com essa cara de coitada me esperando no sofá. Isso me irrita.
A resposta fria foi como um tapa seco no meu rosto. Engli o seco, sentindo a garganta arranhar. Tentei me aproximar dele para pegar sua pasta, um gesto automático de servidão que eu tinha me acostumado a fazer.
Sophia: — Deixa que eu guardo a sua pasta...
Gustavo: — Não encosta em mim, porra! — ele esbravejou, esquivando o corpo com uma repugnância que cortou meu peito ao meio. — Que raiva, você fica sufocando o tempo todo!
Foi aí que o celular dele, que estava na minha mão porque eu tinha pegado da mesa onde ele soltou, acendeu. Uma notificação de aplicativo de mensagem piscou na tela iluminada. Eu não queria olhar, mas o nome na tela saltou aos meus olhos: Nicole (Engenharia).
Nicole: "Amooooori, já chegou em casa? A noite no restaurante foi incrível, o vinho estava perfeito. Mal posso esperar pra nossa reunião secreta de amanhã cedo na sua sala. Beijo no seu pescoço... ❤️"
O mundo parou. O ar sumiu dos meus pulmões de um jeito tão abrupto que cambaleei dois passos para trás. Minhas mãos começaram a tremer incontrolavelmente e o celular quase caiu do meu aperto.
Sophia: — G-Gustavo... o que é isso aqui?
Ele olhou para a tela, depois olhou para mim, e em vez de demonstrar qualquer pingo de vergonha, culpa ou susto, o rosto dele se transformou numa máscara de puro deboche e frieza.
Gustavo: — Ah, faça-me o favor, Sophia. Vai fazer cena de ciúme agora?
Sophia: — Cena?! Gustavo, você tava num restaurante com a Nicole? A colega do seu setor? Comendo, tomando vinho e... beijo no pescoço?! Você tá me traindo? Me fala na minha cara, você tá me traindo com ela?!
A minha voz saiu rasgada, um grito sufocado de dor acumulada de anos. As lágrimas represadas finalmente transbordaram, queimando a minha pele.
Gustavo deu um passo na minha direção, cruzando os braços. A expressão dele era de nojo. Não de arrependimento. De nojo de mim.
Gustavo: — Tô! Pronto, é isso que você quer ouvir? Tô me deitando com a Nicole sim! Há meses! Quer saber o porquê? Olha pra você, Sophia! Pega um espelho e olha pra essa aberração que você se tornou!
Sophia: — O quê...? Como você pode falar isso de mim depois de tudo que eu fiz por você?!
Gustavo: — O que você fez por mim? Você não faz nada! Você passa o dia inteiro enfurnada nessa casa, não tem uma conversa interessante, não produz nada! A Nicole é uma mulher de verdade. É inteligente, trabalha comigo, se veste bem, é cheirosa, vaidosa! E você? Você tá acabada! Se largou, parece uma velha de cinquenta anos com esse moletom ridículo e essa cara lavada. Dá vergonha de sair do seu lado na rua!
Cada palavra dele entrava no meu peito como uma faca amolada, girando e rasgando o pouco de dignidade que me restava. Eu chorei tanto que mal conseguia respirar, segurando a gola do meu camisão velho.
Sophia: — Eu fiquei assim por você! Eu larguei a minha profissão! Eu larguei a enfermagem, larguei meus amigos, larguei a minha vida pra cuidar de você e da sua casa! Eu me anulei por você, Gustavo!
Gustavo: — Ninguém te obrigou a nada! Você largou porque é fraca, porque não aguenta a pressão da vida adulta! Agora não vem colocar a culpa da sua incompetência nas minhas costas. Eu cansei. Não aguento olhar pra essa sua cara de coitada chorando mais um segundo.
Ele foi até o quarto de casal e voltou três minutos depois com uma mala pequena de viagem que a gente usava para fins de semana. Ele jogou a mala aberta no meio da sala de estar.
Gustavo: — Pega as tuas coisas e esvazia o meu apartamento. Agora.
Sophia: — O quê...? Gustavo, por favor, é noite... Eu não tenho pra onde ir! Meus pais já faleceram, eu não tenho dinheiro, não tenho nada!
Gustavo: — O problema é teu. O apartamento tá no meu nome, eu que pago as contas. Não vou passar mais uma noite dividindo o mesmo teto com uma mulher acabada e fracassada como você. Pega tuas roupas velhas e some da minha frente antes que eu te tire daqui pela gola da camisa.
Sophia: — Você é um monstro... — murmurei, caindo de joelhos no chão da sala, soluçando sem parar. — Você destruiu a minha vida...
Gustavo: — Você se destruiu sozinha, Sophia. Agora junta os teus panos e vaza. A Nicole vem pra cá no fim de semana e eu quero esse lugar limpo de qualquer vestígio seu.
Ele se virou, entrou no escritório da casa e trancou a porta por dentro, me deixando jogada no tapete da sala, totalmente quebrada.
Com as mãos trêmulas e o coração em pedaços, enfiei algumas peças de roupa dentro da mala de qualquer jeito. Eu não tinha dinheiro na conta, não tinha para onde ir e minha mente estava em um breu total. A única pessoa no mundo que ainda falava comigo, mesmo que por mensagens esporádicas, era a Tati, minha amiga de infância que morava no Rio de Janeiro.
Peguei o celular com a tela trincada e mandei uma única mensagem, antes de fechar o zíper da mala e sair para a noite fria, sabendo que a Sophia que eu conhecia tinha morrido ali.
Sophia: "Tati... ele me colocou pra fora. Não tenho pra onde ir. Me ajuda, por favor..."
PDV: Sophia
A rodoviária do Rio de Janeiro parecia um formigueiro humano, mas eu me sentia absolutamente sozinha. A viagem de ônibus de São Paulo até ali tinha sido um pesadelo silencioso. Não consegui pregar o olho por um segundo sequer. Passei a noite inteira encolhida contra a janela fria, vendo a estrada escura passar enquanto as palavras cruéis do Gustavo rodavam em um loop infinito na minha cabeça: "Você tá acabada... dá vergonha de sair do seu lado."
Puxando a minha única mala rodinha — que estava com uma das rodas travadas —, caminhei até a calçada da saída. O calor do Rio me atingiu como um bofe no rosto, misturado com o cheiro de fumaça de ônibus e maresia. Eu estava exausta, com a pele grudenta do suor da viagem, o estômago doendo de fome e uma enxaqueca violenta me martelando a testa.
Não comia nada desde o almoço do dia anterior. Na verdade, mal conseguia pensar em comida sem sentir ansiedade.
Tati: — Sophia! Meu Deus, amiga!
Olhei para o lado e vi a Tati correndo na minha direção. Ela estava linda, vestindo um shorts jeans curto, uma regata cropped amarela e chinelos de dedo, com os cabelos cacheados volumosos balançando no vento. O abraço dela foi tão apertado que quase me tirou o ar, e foi o suficiente para o nó na minha garganta estourar de novo.
Sophia: — Tati... — murmurei, desabando no ombro dela enquanto as pessoas passavam direto por nós.
Tati: — Calma, minha irmã. Já passou, tá? Você tá comigo agora. Aquele desgraçado do seu ex vai pagar cada lágrima que você tá derramando, eu te juro. Vem, o carro tá ali na frente.
Ela pegou a minha mala pesada sem me deixar protestar e me puxou pela mão até um carro preto com insulfilm bem escuro parado perto do canteiro. No banco do motorista, um homem alto, de ombros largos, camiseta preta ajustada ao corpo sarado e braços bem tatuados nos observava pelo retrovisor. Era o Cauã.
Cauã: — Deixa que eu jogo essa porra no porta-malas. Pega leve aí, Tati, a garota tá quase caindo em pé.
Tati: — Não enche, Cauã! Acalma o coração aí que a Sophia passou a noite viajando. — Tati se virou para mim e deu um beijo na minha bochecha. — Sophia, esse é o Cauã... meu homem. Ele que veio me trazer pra te buscar.
Sophia: — Prazer, Cauã... Desculpa o incômodo de ter que vir me pegar essa hora.
Cauã: — Esquenta a cabeça não, Sophia. Amiga da Tati é responsabilidade nossa. Entra aí no ar-condicionado que tu tá amarela de fome e cansaço.
Entrei no banco de trás e o ar-condicionado do carro me deu um alívio imediato. Enquanto o Cauã dirigia com facilidade pelo trânsito movimentado do Rio, a Tati não parava de falar um segundo, tentando me distrair, embora meus olhos só conseguissem encarar o nada pela janela. Conforme o carro avançava, os prédios altos da zona sul foram dando lugar à entrada da comunidade.
Uma ladeira íngreme de paralelepípedos se revelou, repleta de motos subindo e descendo em alta velocidade, bares com pagode tocando alto na calçada e crianças brincando na rua. O Morro do Cocada.
Cauã: — Chegamos, família. Vou encostar aqui perto do beco porque pra subir de carro até a casa da Tati é ruim. Tati, segura a mão dela aí.
Tati: — Valeu, amor. Tu vai no miolo agora?
Cauã: — Vou lá dar um papo com o Rachid no quartel general, ver uns bagulhos do morro. Mais tarde eu broto na tua casa pra comer alguma coisa e ver como a Sophia tá.
Antes de sair do carro, Cauã puxou a Tati pelo pescoço e deu um beijo estalado, profundo, puxando a cintura dela contra o console do carro. Tati deu um gemidinho baixo, segurando no ombro dele com vontade, sem se importar com a minha presença.
Tati: — Não demora, tá? Se tu demorar, eu como o almoço todo e não deixo nada pra tu, seu fominha.
Cauã: — Tu sabe que tu é o meu prato principal, surucucu. Vai lá, cuida dela.
Descemos do carro e a Tati me guiou pelas vielas estreitas até a casa dela. Era uma casa simples, mas super aconchegante, no alto do morro, com uma varandinha que dava para ver o mar bem de longe entre os telhados.
Tati: — Pronto! Chegamos no nosso refúgio. Ó, a primeira coisa que tu vai fazer agora é tomar um banho bem demorado pra tirar essa poeira de estrada do corpo. Enquanto tu tá no chuveiro, eu vou pra cozinha preparar um almoço de verdade pra gente. Tu tá parecendo um fantasma de tão magra, Sophia!
Sophia: — Tati, eu realmente não tô com fome...
Tati: — Sem essa! Não quero saber. Vai pro banheiro agora! Tem toalha limpa no armário e sabonete cheiroso. Anda, se joga na água quente.
Não tive forças para argumentar. Fui para o banheiro pequeno, liguei o chuveiro e deixei a água quente cair sobre a minha cabeça. Lavei meus cabelos, esfreguei a pele com força, tentando em vão tirar a sensação de contaminação e rejeição que o Gustavo tinha deixado em mim. Olhando para as minhas pernas e minha barriga na água caindo, eu só conseguia me enxergar pelos olhos dele: feia, apagada, inútil.
Quando saí do banheiro vestindo um shortinho de malha e uma regata folgada que a Tati me emprestou, o cheiro que vinha da cozinha era maravilhoso. Cheiro de alho frito, feijão fresquinho e bife acebolado.
Tati: — Ah lá, outra cara! — ela disse, colocando dois pratos bem servidos sobre a mesa pequena da cozinha. — Senta aí e come tudo. Fiz arroz, feijão novo e bife com bastante acebolado do jeito que tu gostava quando a gente era garota.
Sentei-me meio hesitante, mas na primeira garfada, meu corpo deu um estalo. A comida caseira, quente e bem temperada me consolou de um jeito simples. Comi quase o prato inteiro enquanto a Tati me olhava com um sorriso satisfeito, tomando um copo de suco de maracujá gelado.
Tati: — Viu só? Barriga cheia, coração mais calmo. Agora tu vai deitar naquela cama e dormir até a hora que quiser.
Sophia: — Obrigada, Tati... De verdade. Eu nem sei como te agradecer por me acolher assim.
Tati: — Tu é minha irmã de consideração, doida. Aqui ninguém solta a mão de ninguém.
Fui para o quarto de hóspedes, deitei na cama macia com cheiro de amaciante e, pela primeira vez em dias, meu corpo cedeu ao cansaço absoluto.
PDV: Tati
A Sophia dormiu igual uma pedra. Coitada, dá até dó de ver o estado em que aquele desgraçado do ex-marido deixou ela. Uma garota tão linda, estudada, enfermeira, virar aquele fiapo de gente assustada por causa de homem embuste.
Já era final da tarde quando ouvi a porta da frente abrir suavemente. Olhei pra sala e lá estava o Cauã. Ele tirou o boné, jogou a chave da moto em cima do balcão e veio direto na minha direção na cozinha. Ele estava sem camisa, só de bermuda jeans e de chinelo, mostrando aquele peitoral largo cheio de tatuagem que me deixava louca.
Cauã: — E aí, gostosa... A garota dormiu?
Tati: — Dormiu sim, tava caindo pelos cantos. Comeu um prato de pedreiro e capotou.
Cauã: — Boa. O Rachid perguntou quem era a visitante no morro. Já mandei a real pra ele, disse que é tua amiga de SP que veio passar um tempo contigo porque o marido vacilou.
Tati: — O Rachid não enchendo o saco tá bom demais. E tu, tá com fome? Fiz comida pra caralho.
Cauã: — Tô com fome de outra coisa... — ele falou com a voz bem grave, se aproximando por trás de mim enquanto eu lavava os pratos do almoço na pia.
Cauã passou os braços fortes pela minha cintura, colando o peitoral quente nas minhas costas. Senti o volume avantajado dele já duro marcando contra o meu bumbum por baixo do shorts. Ele puxou meu cabelo de leve para o lado e deu uma mordida gostosa na base do meu pescoço, me fazendo arrepiar inteira.
Tati: — Cauã... Para, doido! A Sophia tá dormindo no quarto do lado!
Cauã: — Ela tá num sono profundo, nem se um trovão cair aqui ela acorda. E tu sabe que eu tô na seca desde ontem, né.
Ele não me deu tempo de responder. Cauã me virou de frente pra ele na bancada da pia, segurou firme nas minhas duas coxas e me levantou sem esforço nenhum, me sentando no mármore frio. Soltei um arfado curto quando a boca dele colou na minha num beijo faminto, quente, com a língua dele invadindo tudo sem pedir licença.
Tati: — Hummm... Cauã...
As mãos pesadas e calajosas dele subiram por baixo da minha regata cropped, apertando meus peitos sem sutiã com força, fazendo meus bicos endurecerem na hora. Ele desceu os beijos molhados do meu queixo até o meu colo, chupando a minha pele até deixar marca.
Cauã: — Tu fica cheirosa demais depois que cozinha, porra... Me deixa doido.
Sem perder tempo, Cauã desabotoou o meu shorts jeans e puxou pra baixo junto com a minha calcinha de renda, deixando minhas pernas totalmente expostas ali no meio da cozinha. Ele se meteu no meio das minhas pernas, ajoelhando no chão, e afastou minhas coxas.
Tati: — Ai... amor... aí não... — sussurrei, agarrando os cabelos dele enquanto sentia o mormaço da respiração dele direto na minha intimidade.
Cauã não falou nada. Ele simplesmente afundou a língua quente e experiente na minha greta já encharcada. Soltei um gemido abafado, cobrindo a minha própria boca com a mão pra não fazer barulho alto e acordar a Sophia. Ele metia a língua fundo, lambendo de baixo pra cima, dando chupões no meu clitóris que me faziam contorcer todinha em cima da bancada fria.
Cauã: — Gostoso pra caralho... Tu tá molhadinha pra mim, Tati...
Ele se levantou rápido, tirou a bermuda de uma vez só e tirou a preservativo do bolso traseiro, vestindo com agilidade. A ferramenta dele era grande, grossa e veiava, pulsando de vontade. Cauã segurou firme na minha cintura, ergueu uma das minhas pernas no seu ombro e meteu de uma vez só, sem dó.
Tati: — Porra, Cauã! — gemia bem baixo, sentindo ele me preencher todinha até o fundo.
Ele começou a dar estocadas fundas, rápidas e ritmadas. O som seco dos corpos se chocando e da bancada balando de leve preenchia a cozinha. Cada metida dele batia no meu ponto certo, me fazendo arranhar as costas tatuadas dele com toda a força das minhas unhas. Ele me segurava como se eu não pesasse nada, estocando forte, do jeito que eu gostava.
Cauã: — Safada... Gosta quando eu te pego assim na cozinha, né? Fala baixo, porra...
Tati: — Vai... mete mais forte, meu amor... Isso, fundão!
Ele acelerou as metidas de um jeito insano, me prensando contra o azulejo da parede. Sentir a força dele me dominando me levou ao limite em poucos minutos. Meu corpo inteiro estremeceu, minhas pernas tremeram e eu gozei com força, me contraindo todinha ao redor do pênis dele. Sentindo o meu aperto, Cauã deu mais três estocadas violentas até o fundo, soltou um urro rouco no meu ouvido e se derramou todinho dentro da camisinha.
Ficamos ali encostados um no outro por alguns minutos, arfando fundo, com o suor colando nossas peles.
Cauã: — Porra... Tu me mata, garota.
Tati: — Tu é um tarado, Cauã... Se a Sophia pegasse a gente assim eu morria de vergonha.
Cauã: — Ela tá dormindo que nem um anjo, relaxa. — Ele me deu um selinho demorado, me ajudou a descer da bancada e ajeitou as roupas. — Vou no banheiro me lavar e depois a gente esquenta aquela comida de novo, que eu fiquei com uma fome desgraçada depois dessa.
Sorri, vendo ele andar até o banheiro com aquela postura de dono de si. Ajeitei minha roupa, limpei a bancada e suspirei. A vida no morro podia ser intensa, mas pelo menos aqui a gente vivia de verdade. Só torcia para que a Sophia conseguisse achar um pouco dessa vida dentro do coração dela de novo.
l
PDV: Rachid
O sol nem tinha despontado direito no horizonte e o barulho da rádio comunitária do morro já ecoava ao longe. Eu estava em pé na varanda da mansão, no ponto mais alto do Morro do Cocada, olhando toda a extensão da minha comunidade lá embaixo. Na mão, um copo com duas pedras de gelo e uísque puro. No peito, aquela urgência constante de quem tem que manter a ordem em um lugar onde o menor deslize custa a vida.
Eu me chamo Victor, mas na pista e na favela ninguém me chama assim. Sou o Rachid. Tenho trinta anos, o corpo fechado de rabiscos e a responsabilidade de mandar em tudo isso aqui. Para manter o respeito de centenas de homens e a segurança dos moradores, não posso ter fraqueza. Não posso ter sentimentalismo. Na minha vida, papo é reto e a curva é perigosa.
A porta de vidro do quarto da mansão correu e o barulho de passos descalços veio na minha direção. Era a Vanessa, uma das garotas que direto subiam a favela pra passar a noite comigo. Ela estava só enrolada num lençol fino de seda, com a maquiagem da noite anterior meio borrada nos olhos e um sorriso manhoso nos lábios.
Vanessa: — Bom dia, meu marrento... Já tá de pé essa hora? Vem pra cama de novo, o dia tá só começando...
Ela tentou passar as mãos unhas pintadas de vermelho pelo meu peitoral nu, cheia de intenção, mas eu segurei o pulso dela sem fazer força, empurrando o corpo dela levemente para trás.
Rachid: — Jacaré que dorme a onda leva, Vanessa. Já deu tua hora. O carro do Cauã vai descer pro miolo daqui a pouco e tu vai junto.
Vanessa: — Poxa, Rachid... Tu é muito frio, sabia? A gente passou a noite toda juntos, tu me pegou de jeito naquela cama e agora já tá me mandando embora assim?
Olhei bem nos olhos dela, sério, sem esboçar um pingo de sorriso. Vanessa era gostosa, sabia usar o corpo que tinha, mas pra mim ela era só mais uma marmita. Uma mulher pra descarregar o estresse da mente, satisfazer o tesão acumulado da semana e tchau. Comigo não tem essa de xodó, de café na cama ou de papinho furado depois que o sexo acaba.
Rachid: — Tu sabe como funciona o meu ritmo. Tu vem, a gente faz o que tem que fazer, tu ganha tuas regalias e volta pra tua casa. Não viaja na minha não que tu me conhece.
Ela suspirou, derrotada, mas sabia que comigo não adiantava bater de frente. Deu meia volta, foi pro banheiro se arrumar e dez minutos depois já estava descendo a escada da mansão.
Enquanto ouvia o barulho do salto dela sumindo no corredor, fui pro banheiro master. Liguei o chuveiro no gelado pra despertar de vez. Deixei a água bater nas minhas costas largas, tirando o suor do corpo e o cheiro do perfume doce dela da minha pele. Peguei o sabonete, me lavei rápido e saí enrolado na toalha.
Vesti uma bermuda preta da Oakley, uma camiseta larga branca e coloquei meu cordão pesado de ouro no pescoço. Ajeitei o radinho de comunicação na cintura e coloquei a Glock na cintura da bermuda. Pronto pra correria do dia.
Desci as escadas e encontrei o Cauã sentado na mesa da cozinha da mansão, devorando um pão com ovo e tomando café preto.
Cauã: — Qual é a boa, chefe? A morena já vazou?
Rachid: — Já. Não quero mulher mofando aqui na mansão essa hora da manhã não. E aí, como tá a contenção das bocas da zona sul?
Cauã: — Tudo tranquilão, o movimento da madrugada foi pesado. A carga nova de pó que chegou ontem à noite já tá toda embalada. Só tô esperando o sinal pra mandar pros pontos.
Rachid: — Cauã, E aquela parada que tu comentou ontem da amiga da tua mulher?
Cauã deu uma golaço no café e me olhou.
Cauã: — A Sophia. Poxa, Rachid... A garota tá mal pra caralho. O ex-marido lá de São Paulo humilhou a garota, botou pra fora de casa com uma mala na mão e trocou ela por uma piranha do trabalho dele. A Tati disse que a garota nem come direito, só sabe chorar e olhar pro teto. Dá até pena, a garota é cheia de estudo, técnica em enfermagem e os caralho, mas o maluco destruiu a mente dela.
Dei uma tragada no cigarro que tinha acabado de acender, soltando a fumaça densa pelo nariz.
Rachid: — Mulher fraca é foda. Nego se entrega demais pra quem não vale um tostão e depois fica aí definhando. No meu morro eu não quero palhaçada de gente querendo se encostar nos outros por causa de dor de cotovelo não. Fala pra Tati dar um jeito de botar essa garota pra andar. Se veio pra favela, tem que ter postura.
Cauã: — A Tati tá cuidando dela, pode deixar. Mas a menina tá num breu doido, papo reto.
Rachid: — Cada um com seus problemas, Cauã. Vamos descer pro quartel general que o dia hoje vai ser longo.
PDV: Sophia
O dia no Morro do Cocada parecia passar numa velocidade que eu não conseguia acompanhar. A Tati tinha saído para ir ao mercado fazer umas compras para a casa e me deixou sozinha por algumas horas.
O silêncio do quarto me engoliu.
Eu estava deitada na cama de solteiro, encolhida em posição fetal, encarando a parede pintada de azul claro. Minha cabeça parecia que ia explodir a qualquer momento. A enxaqueca era forte, mas a dor no peito era infinitamente pior.
Peguei o celular que estava no criado-mudo. A tela estava cheia de notificações de redes sociais, mas nenhuma mensagem do Gustavo. Nenhuma ligação pedindo desculpas. Nenhum arrependimento. Entrei no perfil dele por impulso e o meu coração simplesmente se despedaçou em mil pedacinhos.
Ele tinha postado um story há três horas. Uma foto de duas taças de champanhe num restaurante chique da Zona Sul do Rio de Janeiro. A legenda dizia: "Novos ciclos, novas energias. A vida é curta demais pra viver de passado." E marcada na foto estava a Nicole.
Eles já estavam juntos. Ele nem esperou a poeira baixar. Ele estava vivendo a vida como se os meus últimos cinco anos de dedicação, de amor e de abdicação nunca tivessem existido. Eu fui apagada da vida dele como se fosse um rascunho de papel jogado no lixo.
Sophia: — Eu não sirvo pra nada... — murmurei para o quarto vazio, a voz embargada pelas lágrimas que voltaram a rolar quentes pelo meu rosto. — Eu sou um fardo... Sou feia, sou acabada, sou inútil...
As palavras do Gustavo ecoavam na minha mente como uma sentença de morte. Olhei para as minhas mãos trêmulas. Lembrava de quando essas mesmas mãos salvavam vidas nos estágios de enfermagem, de quando eu tinha orgulho de mim mesma. Agora, eu não sentia nada a não ser um vazio sepulcral e um cansaço absurdo de respirar.
Levantei da cama como um zumbi. Minhas pernas estavam fracas. Fui até o banheiro da Tati e abri o armário do espelho.
Procurei desesperadamente por algo que fizesse aquela dor parar. Encontrei uma cartela inteira de tranquilizantes fortes e um vidro de relaxante muscular que a Tati usava para dores nas costas. Minhas mãos não tremiam mais. Um silêncio gélido tomou conta do meu ser.
Sophia: — Me desculpa, Tati... Me desculpa por ser uma decepção...
Despejei todos os comprimidos da cartela na palma da minha mão. Sem pensar em mais nada, abri a torneira da pia, joguei todos os remédios na boca e engoli de uma vez só com a água da torneira.
Voltei para o quarto com a visão já ficando levemente embaçada. Deitei na cama, puxei o cobertor até o pescoço e fechei os olhos. Aos poucos, a sensação de peso no meu peito foi diminuindo, dando lugar a uma dormência profunda. Pensei que aquele seria o meu fim. Apenas o fim do meu sofrimento.
PDV: Tati
Cheguei da rua carregando duas sacolas pesadas de compras. O calor na subida do morro estava de matar. Deixei as sacolas em cima da mesa da cozinha e respirei fundo.
Tati: — Sophia! Cheguei, amiga! Trouxe aquele suco de maracujá que tu gosta e uns pães doces da padaria!
Nenhuma resposta. Achei estranho. A Sophia não costumava sair do quarto.
Caminhei até o corredor e bati na porta do quarto dela suavemente.
Tati: — Sophia? Tá acordada, minha irmã?
Como ela não respondeu, rodei a maçaneta e abri a porta. O que eu vi fez o meu sangue gelar no mesmo segundo. As sacolas da minha mão caíram no chão, espalhando tudo.
A Sophia estava deitada na cama, com o rosto pálido como cera, os lábios roxos e uma espuma fina no canto da boca. Ao lado da cama, a cartela de remédios totalmente vazia jogada no chão.
Tati: — SOPHIA! MEU DEUS, SOPHIA! — gritei, correndo até a cama e sacudindo o corpo mole dela. — Responde, pelo amor de Deus! Sophia! Socorro!
Ela não reagia. O peito dela mal se movia. A respiração estava fraquíssima, quase imperceptível.
Entrei em puro desespero. Saí correndo pelo corredor da casa, abri a porta da frente e me debrucei no portão da rua, gritando com todas as forças do meu pulmão para a ruela do morro:
Tati: — SOCORRO! ALGUÉM ME AJUDA, POR FAVOR! A MINHA AMIGA TÁ MORRENDO! SOCORRO!
O barulho do motor de uma moto de alta cilindrada ecoou alto no beco. Era a moto do Rachid, com o Cauã na garupa. Ele freou bruscamente bem em frente ao meu portão, levantando poeira.
Rachid: — Que porra tá acontecendo aqui, Tati?! Que gritaria é essa no meu morro?
Tati: — Rachid! Cauã! Me ajuda, pelo amor de Deus! A Sophia tomou um monte de remédio, ela tá desacordada na cama! Ela tá morrendo!
Rachid nem esperou eu terminar de falar. Ele desligou a moto de vez, tirou o capacete com brutalidade e passou pelo portão com passadas largas e pesadas, entrando na minha casa como um furacão.
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