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O Guarda-Costas do Herdeiro

Capítulo 1: A Sombra de Ferro

📚 INFORMAÇÕES DO LIVRO

Título: O Guarda-Costas do Herdeiro

Autora: Lorrayna Viana

Gênero: Romance LGBT / Dark Romance / Máfia

Subgêneros: Romance proibido • Máfia • Guarda-costas • Enemies to Lovers • Convivência forçada • Poder e perigo

Classificação: 🔞 +18

⚠️ AVISOS DE CONTEÚDO

Este livro contém:

Violência e criminalidade

Máfia e conflitos entre organizações criminosas

Ameaças e situações de perigo

Linguagem adulta

Bebidas e festas

Ansiedade e sofrimento psicológico

Preconceito e homofobia

Relacionamento homoafetivo

Cenas de tensão e conteúdo sexual

Temas sensíveis relacionados à saúde mental

⚠️ ATENÇÃO: Esta é uma obra de ficção destinada ao público adulto. Alguns acontecimentos e temas podem ser sensíveis para determinados leitores. Recomenda-se a leitura consciente dos avisos de conteúdo.

🖤 SOBRE A OBRA

Uma história sobre poder, segredos, sobrevivência e um amor que jamais deveria acontecer.

Matteo Romano é o herdeiro de um império criminoso. Viktor Cross deveria ser apenas o homem responsável por mantê-lo vivo.

O problema é que, quando duas pessoas são obrigadas a viver sob o mesmo teto, algumas regras se tornam impossíveis de obedecer.

©️ DIREITOS AUTORAIS

© 2026 Lorrayna Viana. Todos os direitos reservados.

Esta obra é 100% autoral e fictícia. É proibida a reprodução, cópia, distribuição ou publicação, total ou parcial, desta obra sem autorização expressa da autora.

Personagens, acontecimentos, organizações e situações apresentados nesta história são frutos da imaginação da autora. Qualquer semelhança com pessoas ou acontecimentos reais é mera coincidência.

Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou distribuída sem autorização.

🖤 Matteo Romano & Viktor Cross — uma história de perigo, desejo e segredos.

Sinopse — O Guarda-Costas do Herdeiro

Matteo Romano nasceu para herdar um império construído sobre sangue, poder e silêncio. Para o mundo, ele é o filho perfeito de um dos homens mais perigosos da máfia: rico, arrogante, irresistível e sempre acompanhado por uma mulher diferente. Mas, por trás das festas luxuosas e da vida de excessos, existe um homem aterrorizado pelo próprio segredo.

Preso entre as expectativas do pai e o medo de ser descoberto, Matteo aprendeu a esconder suas fragilidades tão bem quanto esconde aquilo que realmente deseja.

Até que uma ameaça de guerra coloca sua vida em risco.

Para protegê-lo, seu pai designa Viktor Cross, um ex-militar frio, calculista e absolutamente leal à família, como seu guarda-costas pessoal. Vinte e quatro horas por dia. Sete dias por semana.

Viktor deveria apenas mantê-lo vivo.

Mas morar sob o mesmo teto transforma a missão em um verdadeiro campo de batalha.

Entre discussões, provocações, segredos descobertos e uma tensão que nenhum dos dois consegue ignorar, Viktor começa a enxergar o verdadeiro Matteo — o homem escondido atrás do herdeiro perfeito.

E quanto mais se aproxima dele, mais difícil se torna distinguir proteção de desejo.

Em um mundo onde demonstrar fraqueza pode significar a própria morte, Matteo terá que decidir se continua vivendo a mentira que sua família exige ou se finalmente enfrenta quem realmente é.

Porque Viktor foi contratado para proteger o herdeiro Romano de seus inimigos.

Ninguém o preparou para precisar protegê-lo de si mesmo. 🖤🔥

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Capítulo 1: A Sombra de Ferro

PDV: Matteo

A luz da manhã cortava as cortinas de linho do meu apartamento na cobertura, projetando sombras compridas sobre o chão de mármore. Minha cabeça latejava. A química do remédio para disfunção que fui forçado a tomar na noite anterior ainda deixava um gosto amargo e seco sob minha língua.

Dei um gole no café expresso sem açúcar. A bebida queimou minha garganta, mas não afastou a sensação de sujeira. A garota que meu pai mandou para o meu quarto já tinha ido embora há mais de uma hora. Deixou para trás apenas o perfume barato no travesseiro e a farsa mantida por mais uma noite perante os soldados de guarda no corredor.

O som da fechadura eletrônica apitou na porta social.

Girei o corpo devagar, apoiando a xícara na ilha de granito. Eu esperava encontrar Marco, o meu motorista habitual.

Em vez dele, um homem alto ocupou o vão da porta. Ele usava calça tática cinza e uma camisa preta ajustada ao peitoral largo, marcando os ombros. Tatuagens escuras subiam pela lateral do seu pescoço. O cabelo loiro-escuro estava alinhado, e os olhos claros me encararam com a precisão de um atirador de elite.

Ele não pediu licença. Apenas entrou, fechando a porta com um clique seco.

Viktor — Você está atrasado para o comboio.

Matteo — Quem diabos é você para entrar na minha casa usando a minha senha?

Viktor — Viktor Cross. Seu pai reestruturou a sua equipe de segurança dez minutos atrás. O seu antigo motorista foi realocado para o galpão da zona sul. A partir de hoje, a sua segurança pessoal é responsabilidade minha.

Viktor

Matteo — Meu pai não decide quem entra no meu quarto. Ele envia as cadelas dele para a minha cama, mas a minha porta quem controla sou eu.

Viktor — Dom Sérgio decide tudo o que envolve o sobrenome Romano. Principalmente quando o clã rival coloca a cabeça do herdeiro a prêmio.

Dei dois passos à frente. Ele não recuou um centímetro. Precisava erguer levemente o queixo para encarar o rosto dele. A presença dele era esmagadora, ocupando todo o espaço da cozinha.

Matteo — Eu sei me cuidar sozinho, Cross. Dispense os seus serviços antes que eu faça o meu pai te mandar de volta para de onde você saiu.

Viktor — Você não sabe nem esconder a medicação na gaveta do seu banheiro.

O ar no meu peito travou. Senti uma onda de frio descer pela minha espinha, paralisando meus pés no chão.

Matteo — O que você disse?

Viktor — Eu fiz uma varredura no perímetro vinte minutos antes de você acordar. O armário do seu banheiro tem uma trava dupla amadora. Três caixas de estimulante de emergência. Duas usadas esta semana.

Matteo — Cala a porra da boca.

Viktor — O seu pai pensa que você é um garanhão que passa as noites devorando as mulheres que ele envia para testar sua capacidade de comando. Ele se orgulha das histórias que os soldados contam no bar do galpão.

O desespero subiu pela minha garganta como ácido. Se essa informação chegasse aos ouvidos de Dom Sérgio Romano, minha vida dentro do clã acabaria antes do pôr do sol. Na máfia, um herdeiro que não consegue sequer erguer o próprio membro sem drogas é considerado fraco. E homens fracos são descartados com um tiro na nuca.

Aproximei meu rosto do dele, sentindo o calor que emanava do seu peito.

Matteo — Se você abrir a boca sobre o que viu naquele banheiro, eu juro por Deus que coloco uma bala no seu peito enquanto você dorme.

Viktor — Você não tem coragem de puxar um gatilho contra mim, Matteo. E mesmo se tivesse, erra o alvo por causa do tremor nas suas mãos.

A porta da frente voltou a se abrir. Marco, meu antigo segurança, apareceu no corredor segurando uma pasta de couro preta. Ele olhou para nós dois, percebendo a distância perigosamente curta entre meu corpo e o de Viktor.

Marco — Senhor Matteo... Dom Sérgio já está na sala de reuniões. A comitiva do clã parceiro acabou de atravessar os portões do complexo. Ele mandou avisar que se o senhor não estiver no carro em três minutos, ele mesmo vem buscar o senhor.

Matteo — Já estou indo, Marco.

Viktor — O Marco não vai com você.

Marco congelou no lugar, olhando de mim para Viktor com hesitação.

Marco — O Dom me mandou acompanhar o jovem Romano...

Viktor — O Dom mudou as ordens. Pegue a sua equipe e faça a varredura da garagem externa. Se encontrar algum veículo não cadastrado, perfure os pneus e descarte. Agora.

Marco assentiu rapidamente, sem coragem de encarar a autoridade de Viktor, e recuou para fora do apartamento, batendo a porta.

Fiquei sozinho novamente com a minha nova sombra.

Matteo — Você acha que manda em tudo aqui?

Viktor — Eu mando na sua sobrevivência. Vá colocar o terno. O tecido da sua calça de moletom está marcado pela ereção que você teve ao acordar e você não vai entrar na sala do seu pai parecendo um garoto amador.

Olhei para baixo por um segundo automático e percebi o volume rígido sob o pano cinza, resultado inevitável do efeito tardio do remédio no meu sangue. Quando reergui os olhos, o rosto de Viktor continuava uma máscara inexpressiva de pedra.

Viktor — Dois minutos. Se você não sair vestido, eu mesmo tiro essa calça e coloco o terno em você.

Virei em direção ao meu quarto, batendo a porta com força. O sangue fervia nas minhas veias.

Entrei no banheiro suite, tirei a roupa com pressa e entrei debaixo do chuveiro. Liguei a água no mais gelado possível. Os jatos congelantes atingiram minhas costas, mas a ereção provocada pela química no meu organismo continuava ali, rígida, latejando com dolorosa intensidade. Não havia como colocar um terno e caminhar até a sala de reuniões do meu pai com aquela protuberância evidente.

Maldito remédio. Maldita farsa.

Pressionei as mãos contra o azulejo gelado e fechei os olhos. Soltei um rosnado baixo de frustração. Sem opção, levei a mão direita até a base do meu membro ereto. Comecei a movimentar os dedos com firmeza, subindo e descendo no ritmo acelerado do meu próprio desespero.

O atrito rápido da pele gerava um calor sufocante em contraste com a água fria. O arfada escapou pelos meus dentes fechados. A imagem que veio à minha mente não era a da garota da noite anterior, mas a figura esmagadora de Viktor me encarando na cozinha. A raiva se misturava ao desejo proibido. Um gemido baixo ecoou pelo banheiro enquanto eu acelerava a fricção da mão, cravando as unhas da outra mão no mármore da pia. O prazer explodiu no meu peito em uma onda crua e urgente. Meu corpo estremeceu inteiro, a respiração cortada enquanto me aliviava sobre o ralador do box.

Desliguei a água. Enrolei a toalha na cintura com os dedos ainda trêmulos e apoiei as mãos na bancada para recuperar o fôlego.

Ao puxar a porta de vidro fosco do banheiro para sair, Dei um salto para trás, o coração disparando contra as costelas.

Viktor estava encostado no batente da porta, do lado de fora, com os braços cruzados sobre o peito largo. Ele não tinha saído dali por um segundo sequer.

Matteo — Você... você estava aí esse tempo todo?

Viktor — Eu disse que sua segurança era responsabilidade minha. O som da água não esconde o som da sua respiração, Romano. E você perdeu quatro minutos se masturbando enquanto o comboio espera.

A vergonha queimou no meu rosto, misturando-se com a raiva acumulada.

Matteo — Sai do meu caminho, Cross.

Viktor — Vista o terno. Agora que você finalmente conseguiu resolver o seu problema, temos três minutos para chegar ao carro.

Passei por ele pisando fundo, sentindo o olhar dele queimar a pele nua das minhas costas enquanto eu caminhava em direção ao closet para vestir a camisa social branca e o paletó escuro. Minhas mãos tremiam ao abotoar a camisa, não apenas pelo efeito da ejaculação recente, mas pelo pavor de ter tido minha intimidade mais crua devorada pelos ouvidos daquele homem.

Terminei de ajustar a gravata e voltei ao corredor.

Viktor estava me esperando junto à porta de saída. O olhar dele desceu pelo meu terno, avaliando o caimento do tecido no meu quadril até parar na minha boca.

Viktor — Aceitável. Vamos.

Caminhei na frente dele. Ao passar pela porta do elevador privado, parei antes de apertar o botão de chamada.

Matteo — O que você quer para manter o que viu no banheiro em segredo? Dinheiro? Uma conta na Suíça?

Viktor deu um passo lento para trás de mim. Pela primeira vez, senti o peito dele encostar levemente nas minhas costas. A respiração dele bateu morna contra a pele do meu pescoço.

Viktor — Eu não vendo o meu silêncio por dinheiro, Romano.

Matteo — Então o que você quer?

Ele se aproximou do meu ouvido, a voz descendo para um tom rasgado e perigoso.

Viktor — Eu quero ver até onde a sua farsa vai resistir antes de você cair de joelhos na minha frente.

As portas do elevador se abriram com um sinal sonoro. Viktor deu um passo para o lado, segurando a porta de metal para eu entrar, mantendo os olhos cravados nos meus enquanto a cabine começava a descer em direção ao submundo do meu pai.

Capítulo 2: O Domínio das Sombras

PDV: Viktor

O cheiro de couro novo e blindagem pesada impregnava o interior do SUV preto. No banco de trás, Matteo mantinha o rosto voltado para a janela escura, o perfil rígido desenhado pela luz fraca da manhã. Ele tentava parecer inabalável, o herdeiro refinado do clã Romano, mas a veia que latejava no seu pescoço entregava o caos que devorava seu peito.

Eu mantinha uma das mãos no volante e o olhar atento ao retrovisor interno.

Ouvi cada segundo daquele banho. O som da água batendo no azulejo não foi suficiente para abafar o arfar desordenado que escapou pelos dentes dele, nem o gemido abafado quando ele finalmente se aliviou na mão. A raiva e o desespero do rapaz eram palposas. Ele achava que a medicação e a vida de fachada o protegiam, mas a verdade era que Matteo Romano estava pendurado por um fio fino sobre um abismo. E meu dever era garantir que esse fio não cortasse antes da hora.

Entramos no complexo da família Romano. O portão de ferro fundido com o brasão do clã se abriu devagar. Guardas armados com fuzis de assalto se alinhavam no pátio interno, fazendo reverências discretas ao veículo.

Parei o carro na entrada principal da mansão. Desliguei o motor e saí antes que ele pudesse tocar na maçaneta. Abri a porta traseira, me posicionando de forma a cobrir seu ângulo cego.

Viktor — Sem movimentos bruscos ao entrar no salão. A comitiva dos Vitiello trouxe oito homens. Dois a mais do que o combinado no protocolo.

Matteo — Eu sei lidar com os Vitiello, Cross. Não preciso de lição de etiqueta de um segurança.

Viktor — Meu trabalho não é te ensinar etiqueta, Romano. É garantir que você saia respirando daquela mesa. Ajuste a botoeira do paletó e mantenha a cabeça erguida. O seu pai está observando da sacada.

Matteo me encarou por um fração de segundo, os olhos verdes brilhando com uma mistura de ódio e vergonha acumulada. Ele ajustou o paletó escuro com um movimento seco e pisou no chão de cascalho.

Acompanhei-o a um passo de distância, minha mão direita repousando a centímetros do coldre velado sob meu paletó.

Ao cruzarmos as portas duplas de carvalho, o ar da mansão ficou denso. O cheiro de charuto, uísque caro e pólvora impregnava o ambiente. No centro do salão de reuniões, sentado no topo de uma mesa longa de mogno, estava Dom Sérgio Romano. O patriarca exalava a autoridade brutal de quem construiu um império sobre corpos.

Do outro lado, acompanhado por seus soldados, estava Franco Vitiello, o subchefe do clã rival.

Dom Sérgio — Você atrasou dez minutos, Matteo.

Matteo — Tivemos um imprevisto na garagem da cobertura, pai. O novo chefe da segurança decidiu revisar os protocolos de saída.

Dom Sérgio desviou os olhos frios para mim. Ele avaliou minha postura, os ombros e a ausência de hesitação no meu olhar.

Dom Sérgio — Se o Viktor atrasou você, ele teve um bom motivo. Prefiro um herdeiro vivo e atrasado do que um filho pontual dentro de um caixão. Sente-se.

Matteo ocupou a cadeira à direita do pai. Eu me posicionei logo atrás dele, em pé, com as mãos cruzadas na frente do corpo, mantendo a varredura visual sobre os homens de Vitiello.

Franco Vitiello soltou uma gargalhada rouca, tragando seu charuto antes de se inclinar sobre a mesa.

Franco — Não seja tão duro com o garoto, Sérgio. Fiquei sabendo que a garota que você mandou para a cobertura dele ontem à noite só saiu de manhã bem cedo. O jovem Matteo precisa de energia para dar conta das mulheres que o clã Romano envia para a sua cama.

Um riso contido percorreu os soldados dos Vitiello.

Percebi o exato momento em que o corpo de Matteo travou. A mão dele sobre a mesa se fechou em um punho rígido, a pele das articulações ficando branca pela pressão. A vergonha que ele tentara esconder de mim na cozinha voltava para assombrá-lo na frente de todo o conselho da máfia.

Dom Sérgio sorriu, um sorriso orgulhoso e sem calor.

Dom Sérgio — Um Romano de sangue forte honra as obrigações na cama e nos negócios, Franco. Matteo sabe exatamente como satisfazer uma mulher e como manter a ordem nos nossos territórios. Não é, meu filho?

O silêncio caiu sobre a sala. Todos aguardavam a resposta do herdeiro.

Matteo engoliu a saliva com dificuldade. Ele abriu a boca para responder, para alimentar a mentira grotesca que seu pai tanto venerava, mas a voz pareceu travar na sua garganta. O tremor leve começou a subir pelos seus dedos.

Dei meio passo à frente. O tecido do meu ombro roçou de leve na parte de trás da cadeira de Matteo, um toque sutil, imperceptível para os outros, mas intencional o bastante para lembrá-lo de que eu estava ali.

Viktor — O senhor Romano não precisa provar nada a homens que precisam trazer dois soldados extras por medo de andar na nossa cidade, Vitiello.

O riso na sala morreu instantaneamente. Franco Vitiello ficou ereto na cadeira, os olhos queimando de raiva na minha direção.

Franco — Quem deu permissão para esse cão falar na mesa dos chefes?

Dom Sérgio ergueu uma das mãos, interrompendo a reação dos guardas de Franco. O velho encarou a mim e depois olhou para Matteo, analisando a dinâmica velada entre nós dois.

Dom Sérgio — Ele é o escudo do meu filho, Franco. E pelo visto, tem dentes afiados. Vamos ao que interessa: a rota das docas.

A reunião prosseguiu por mais uma hora entre ameaças veladas e acordos comerciais. Matteo permaneceu em silêncio na maior parte do tempo, assinando os documentos exigidos pelo pai com a mão firme que ele forçava a ter.

Quando a comitiva dos Vitiello finalmente se retirou sob escolta, Dom Sérgio dispensou os outros conselheiros. Ficamos apenas nós três na sala vasta.

Dom Sérgio levantou-se da cabeceira, caminhando até Matteo. Ele pousou a mão pesada no ombro do filho, apertando com uma força que beirava a dominação.

Dom Sérgio — Você esteve muito quieto hoje, Matteo. Um futuro Dom não se deixa intimidar por piadas de salão. Você tem honrado o nome da família com a mulher que enviei?

Matteo sustentou o olhar do pai, a máscara de frieza voltando ao lugar.

Matteo — Ela teve exatamente o que veio buscar, pai. Como todas as outras.

Dom Sérgio deu um tapinha no rosto de Matteo, um gesto paternal carregado de condescendência.

Dom Sérgio — Esse é o meu garoto. Viktor, garanta que ele esteja na balada do clube privado esta noite. O embaixador da aliança estará lá e quer ver o herdeiro dos Romano esbanjando a vida que a máfia nos proporciona. Leve duas garotas da nossa frota para a mesa dele.

Viktor — Entendido, Don Sérgio.

Matteo não disse uma palavra. Ele apenas se levantou, caminhando a passos rápidos em direção à saída da mansão. Acompanhei-o de perto.

Assim que cruzamos a porta de vidro que dava acesso à garagem privada, longe dos ouvidos dos soldados, Matteo parou bruscamente. Ele se virou para mim, os olhos faiscando.

Matteo — Você não tinha o direito de se intrometer na conversa com o Vitiello!

Viktor — Se eu não tivesse falado, você teria hesitado por mais três segundos e o seu pai teria percebido que a história da garota era uma farsa.

Matteo — Eu sei me defender sozinho!

Viktor — Você estava prestes a entregar o seu segredo pelo simples pavor de não parecer o homem que o seu pai quer que você seja.

Aproximando-me até que a distância entre nós se reduzisse a um sopro, olhei bem no fundo dos olhos dele.

Viktor — Hoje à noite você tem um compromisso no clube. Mais mulheres, mais bebida e a mesma farsa de sempre. Se quiser sobreviver ao seu pai e aos Vitiello, trate de controlar o tremor nas suas mãos antes de entrar naquele camarote.

Matteo deu um passo para trás, o peito subindo e descendo desordenadamente, sem encontrar uma resposta para me dar.

Subimos no carro em silêncio. Quando liguei o motor, a tela do meu celular encriptado no painel acendeu com uma mensagem privada. Um aviso de emergência do sistema de vigilância da cobertura de Matteo.

​Alguém havia invadido o apartamento enquanto estávamos na mansão.

Capítulo 3: A Violão do Santuário

PDV: Matteo

O silêncio dentro do carro blindado ficou sufocante. A tela do painel brilhava com a luz vermelha de emergência do aplicativo de segurança do meu prédio. Um aviso seco pulsava no visor: Invasão detectada no Setor A - Suíte Master.

Minha mão repousava sobre a coxa e senti os dedos se contrairem involuntariamente. Olhei de relance para Viktor. O perfil dele continuava imutável, mas a forma como os nós dos seus dedos apertaram o couro do volante me mostrou que ele já estava em modo de combate.

Matteo — Quem teria a audácia de entrar na minha cobertura com o comboio dos Romano na cidade?

Viktor — Quem quer que seja, não foi procurar joias. Sabiam exatamente quando a mansão estaria cheia e o seu apartamento, vazio.

Matteo — Os Vitiello?

Viktor — O Vitiello é ganancioso, mas não é burro. Se ele quisesse te matar, teria feito uma emboscada na estrada. Isso é busca de informação. Alguém quer um trunfo contra você.

O pavor gelado voltou a serpentear pelas minhas entranhas. Minhas caixas de remédio. A trava dupla da gaveta do meu banheiro não resistiria a dois minutos nas mãos de um profissional. Se quem estivesse lá dentro encontrasse aquela medicação...

Pressionei as costas contra o banco de couro, tentando disfarçar a respiração desordenada.

Matteo — Mande a equipe de apoio da garagem subir primeiro.

Viktor — Negativo. Se mandarmos o grupo tático, metade do clã vai saber que o seu apartamento foi devassado antes do meio-dia. Nós vamos resolver isso sozinhos e em silêncio.

Matteo — Você ficou louco? Não sabemos quantos homens estão lá dentro!

Viktor freou o SUV com precisão no subsolo do meu edifício. O barulho dos pneus cantando no concreto ecoou pela garagem vazia. Ele desligou os faróis, deixando o veículo na penumbra.

Viktor — Destrave a trava de segurança da sua arma. Você vai ficar dois passos atrás de mim. Se a porta do elevador abrir e houver fogo cruzado, você se abaixa e cobre o meu flanco esquerdo. Entendeu, Romano?

Matteo — Eu não recebo ordens suas, Cross.

Viktor virou o corpo na minha direção. A luz fraca do subsolo cortava metade do seu rosto, destacando a cicatriz discreta perto da sua mandíbula e a imensidão fria dos seus olhos claros. Ele se aproximou tanto que consegui sentir a fúria contida que emanava da sua pele.

Viktor — Lá em cima você não é o herdeiro dos Romano, Matteo. É um alvo. Se você hesitar por um segundo que seja, a sua farsa acaba hoje. Agora pegue a porra da arma.

Ele sacou a pistola do coldre velado com um movimento limpo e rápido, checando a câmara com o polegar antes de destravar a arma.

Puxei a Glock do meu cós. O metal frio contra a minha palma me trouxe um vislumbre de controle, mas o tremor leve nos meus dedos continuava lá. Mantenho a arma abaixada, acompanhando Viktor enquanto ele saía do veículo sem fazer um único ruído.

Caminhamos em direção ao elevador privativo. Viktor usou um cartão de acesso de emergência para sobrepor o sistema do prédio. A cabine subiu em silêncio absoluto. A cada andar que o painel luminoso indicava, meu coração batia com mais força contra as costelas, parecendo um martelo desgovernado.

Quando o indicador marcou o 28º andar, a luz do elevador se apagou, entrando em modo tático por comando de Viktor.

A porta de metal deslizou para o lado.

O hall do meu apartamento estava na penumbra. O cheiro de café expresso da manhã já tinha desaparecido, substituído por um odor metálico e sutil de graxa e poeira trazido de fora.

Viktor saiu primeiro, o corpo abaixado, a pistola erguida na linha dos olhos. Eu o segui, colando as costas na parede de mármore do corredor.

A porta social da cobertura estava encostada. A tranca eletrônica havia sido perfurada com um ácido corrosivo de ação rápida — trabalho limpo, silencioso e extremamente caro.

Viktor fez um sinal com dois dedos, indicando para eu guardar a esquerda enquanto ele invadia a sala.

Empurramos a porta ao mesmo tempo.

A sala estava intocada. Os quadros caros continuavam nas paredes, a garrafa de uísque importado permanecia sobre o aparador. O invasor não queria dinheiro.

Um barulho discreto de madeira rangendo veio do corredor dos quartos.

Avançamos a passos firmes e amortecidos. Viktor fez a curva em direção ao meu quarto principal. A porta do meu closet estava aberta e as gavetas de roupas sociais haviam sido reviradas no chão.

Mas a iluminação da suíte revelava o verdadeiro objetivo do invasor.

A porta do meu banheiro principal estava escancarada. Do lado de dentro, ajoelhado em frente ao armário da pia, um homem vestido com um macacão tático preto usava uma pé-de-cabra em miniatura para forçar o fundo do armário — exatamente onde a gaveta falsa com os remédios estava escondida.

O sangue subiu para a minha cabeça com tanta força que minha visão ficou turva por meio segundo.

Matteo — Largue essa porra agora!

O invasor reagiu no mesmo instante. Ele não tentou pegar uma arma; ele se lançou para o lado, arremessando um frasco de vidro contra o chão. Um gás denso e esbranquiçado começou a se expandir com um chiado alto.

Viktor — Máscara! Matteo, recua!

Viktor avançou como um predador antes mesmo que o gás cobrisse o banheiro. Ele agarrou o homem pelo colarinho do macacão, projetando o corpo do invasor contra o box de vidro, que se espatifou em mil pedaços no chão.

O invasor tentou puxar uma lâmina do cinto, mas Viktor segurou o pulso do homem, torcendo o braço dele até ouvir um estalo seco de articulação deslocada. O sujeito soltou um urro de dor que foi imediatamente abafado pelo joelho de Viktor pressionando a garganta dele contra os cacos de vidro.

Tossi com a fumaça irritante, cobrindo o nariz com a manga do paletó enquanto entrava no banheiro.

Matteo — Quem te mandou aqui? Quem caralhos te mandou?

O homem no chão, com o rosto ensanguentado pelos vidros, cuspiu no sapato de Viktor. Ele deu um sorriso grotesco e ensanguentado antes de responder com a voz rouca.

Invasor — O seu pai... queria saber... o que o garoto de ouro guarda na gaveta.

O mundo pareceu parar de girar.

Olhei para o fundo do armário. A gaveta falsa havia sido parcialmente arrombada. Uma das caixas de remédio para disfunção estava caída no chão, esmagada pela bota do invasor.

O meu próprio pai. Dom Sérgio Romano havia mandado um homem invadir a minha casa para revirar meus segredos.

Viktor encarou o homem no chão por um segundo longo. A expressão no rosto do meu guarda-costas mudou de disciplina tática para algo sombrio e terrivelmente frio. Ele olhou para mim, percebendo o estado de choque em que eu me encontrava.

Viktor — Ele está mentindo para tentar ganhar tempo. Don Sérgio não usaria um mercenário de fora do clã.

Matteo — Como você tem certeza?

Viktor — Porque esse homem tem a marca dos Vitiello tatuada no antebraço esquerdo.

Viktor puxou a manga do macacão do sujeito, revelando a serpente negra queimada na pele. O invasor parou de sorrir.

Viktor — O Vitiello queria o seu segredo para desmancá-lo perante o conselho hoje à noite.

Matteo — O que vamos fazer com ele? Se o meu pai souber...

Viktor levantou-se devagar, ajustando o paletó escuro como se nada tivesse acontecido. Ele olhou para o homem caído no chão e depois cravou os olhos claros em mim.

Viktor — O seu pai não vai saber de nada. E esse homem não vai sair deste apartamento caminhando.

O invasor tentou se arrastar para pegar um caco de vidro, mas Viktor nem hesitou. Ele sacou a pistola com silenciador e puxou o gatilho uma única vez. O som foi apenas um sopro abafado. O corpo do mercenário desabou pesado contra o chão do meu banheiro.

Fiquei paralisado, encarando o sangue que começava a se espalhar pelo mármore branco, misturando-se com os cacos do box e a caixa do meu remédio.

Viktor guardou a arma, deu dois passos na minha direção e parou a centímetros do meu corpo, me forçando a olhar para ele.

Viktor — Limpe o rosto, Romano. Nós temos um corpo para descarte e uma balada para frequentar em três horas. E dessa vez, você vai ter que atuar melhor do que nunca.

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