Capítulo 1
POV: Amora
A luz entrava pela fresta da cortina e caía exatamente sobre o lençol amassado, como se até o sol daquela cobertura soubesse a hora de me acordar. Senti o corpo antes de abrir os olhos. A moleza nas pernas, o ardor de leve no pescoço, a marca que a boca dele tinha deixado ali na noite anterior. Estiquei a mão pro lado quente da cama e encontrei Matheus já sentado na beirada, de costas, colocando o relógio no pulso.
Matheus Villar. Herdeiro do Grupo Villar, dono de meio quarteirão da Faria Lima e, nos últimos dois anos, dono também dos meus fins de noite sempre que ele resolvia que me queria por perto. Aos trinta e poucos, tinha o tipo de beleza que não pedia licença: ombros retos, maxilar duro, um jeito de ocupar o quarto inteiro sem dizer uma palavra.
Rolei na cama e enlacei as costas dele com um braço, a voz saindo macia, treinada, do jeitinho que ele gostava.
— Fica mais um pouco… — pedi, encostando o rosto na pele quente dele. — Ainda é cedo.
Ele nem virou o rosto.
— Não seja grudenta, Amora.
Sorri contra o ombro dele pra que ele não visse. Por dentro, a menina doce que ele achava que estava abraçando já tinha ido embora fazia tempo. Grudenta. Eu não estava com saudade dele nem por um segundo. Estava fazendo o que sempre fiz naquela cama: o papel. O papel da mocinha boba e apaixonada que fica de manhã pedindo pra ele ficar, porque era isso que agradava o homem e mantinha o contrato de pé.
Matheus se levantou e foi pro banheiro. Ouvi o chuveiro abrir. Fiquei encarando o teto altíssimo daquela cobertura nos Jardins, a Cobertura Aurora, o apartamento onde eu só punha os pés quando ele precisava de mim. Aquilo nunca tinha sido minha casa, só o lugar onde eu esperava por ele. Um cenário bonito e caro pra uma substituta que ele chamava e dispensava conforme a agenda.
Quando ele saiu do banho, já de camisa, olhou pra mim como quem confere um item de uma lista.
— O Fábio te leva de volta. Tenho reunião cedo.
— Tá bom — respondi, e a doçura já tinha ido embora da minha voz. Ele não reparou. Ele nunca reparava.
Peguei o telefone da mesa de cabeceira só pra ter o que fazer com as mãos enquanto ele terminava de se arrumar. E foi aí que a tela explodiu.
Sete áudios da Larissa. Duas chamadas perdidas. Uma fileira de mensagens em maiúsculo.
Larissa Nunes era minha empresária havia cinco anos, a mulher que me tirou de figuração e apostou em mim quando ninguém apostava. Também era a pessoa mais dramática que eu conhecia às sete da manhã. Abri o primeiro áudio no volume baixo.
"Morinha, acorda, acorda, ACORDA. Os números da série vieram e a gente vai surtar juntas. Me liga. Não, não me liga, vem pra Lumina. Cadê você?"
Segundo áudio: a Mila, minha assistente, respirando rápido no fundo como se estivesse correndo com três sacolas e um café na mão, avisando que a agenda do dia tinha triplicado. Terceiro áudio: de novo a Larissa, agora sobre propostas de publi.
Olhei de novo pro homem que ajeitava a gravata no espelho e quase ri da própria vida. De um lado, a substituta obediente da Cobertura Aurora. Do outro, a atriz que a cidade inteira estava começando a procurar. Duas mulheres no mesmo corpo, e nenhuma das duas podia deixar a outra transparecer.
Levantei, enrolei o lençol no corpo e fui pra sala falar sem ele por perto. Liguei pra Larissa.
— Lari, são sete da manhã.
— Sete da manhã é o novo horário nobre, meu amor. — Ela falava e digitava ao mesmo tempo, dava pra ouvir o teclado. — A série bombou de madrugada. Você tá em todo lugar. Mas não é por isso que eu tô te ligando dez vezes.
Alguma coisa na voz dela mudou. Ficou mais baixa. A Larissa só baixava a voz quando a notícia era das grandes.
— Fala.
— A Cecília Nardini voltou.
Meu passo parou no meio da sala.
Cecília Nardini. O nome que eu tinha aprendido a não pronunciar dentro daquela casa. A menina de sempre da família Villar, a moça de família tradicional que a mãe do Matheus tinha criado quase como filha, a mulher que ele guardava num lugar da vida onde eu nunca ia entrar. Foi por causa do rosto dela que eu fui escolhida dois anos atrás. Um rosto que lembrava o dela. Só lembrava. Nunca foi o dela.
— Voltou de vez? — perguntei, e a minha voz saiu tão firme que me surpreendi.
— Chegou em São Paulo essa semana. O pessoal do meio já tá falando que ela veio pra "voltar pro lugar que é dela". As palavras não são minhas, tá? Vim te avisar antes que você lesse em algum lugar.
Agradeci e desliguei.
Fiquei parada no meio da sala com o lençol enrolado no corpo, e não senti o que eu achava que ia sentir. Não teve aperto no peito, não teve pânico. Teve, isso sim, uma corda que vivia esticada dentro de mim havia dois anos afrouxando de uma vez, quase com alívio. Porque eu sempre soube que esse dia ia chegar. Eu só estava esperando a hora de sair de cena antes que me empurrassem.
Matheus passou pela sala pegando as chaves na bancada. Parou meio segundo ao me ver ali, séria, o telefone na mão.
— Aconteceu alguma coisa?
Olhei pra ele. O homem que dormia comigo e me chamava de grudenta. O homem que me tratava como um lugar conveniente. Por um instante quis testar, quis dizer o nome dela e ver o rosto dele mudar. Não disse. Não valia a pena entregar de graça a única carta que ainda estava na minha mão.
— Nada — respondi. — Vai pra sua reunião.
Ele me olhou mais um segundo, como se fosse dizer alguma coisa, e não disse. Pegou o paletó e saiu. A porta se fechou com aquele barulho macio de fechadura cara, e a Cobertura Aurora ficou do jeito que sempre ficava depois que ele ia embora: enorme, silenciosa, e não minha.
O telefone vibrou de novo na minha mão. Dessa vez era a Mila.
— Amora, bom dia, me perdoa, eu sei que é cedo. — A Mila falava sempre pedindo desculpa por coisas que não eram culpa dela. Vinte e poucos anos, olho vivo, capaz de achar qualquer informação sobre qualquer pessoa em quinze minutos. — A Larissa mandou eu montar sua agenda de novo porque agora tem entrevista, tem a marca de joia querendo reunião, tem o pessoal da série pedindo você no evento hoje à tarde. Eu remarco o quê?
Olhei pra bagunça de luxo espalhada pela cobertura, os sapatos dele largados perto do sofá, o meu vestido de ontem jogado numa poltrona de veludo que custava mais que o aluguel de um ano da casa onde eu cresci.
— Não remarca nada — falei. — Confirma tudo. E, Mila, avisa a Larissa que hoje à tarde eu quero conversar. Assunto meu, não da série.
Ela hesitou meio segundo, do jeito de quem percebe que a chefe mudou de tom, e só disse tá bom antes de desligar.
Guardei o telefone. Era assim todo dia: de manhã a substituta obediente daquele apartamento, e antes do café já a mulher que a cidade inteira queria. A parte engraçada era que nenhuma das duas vidas tinha me perguntado se eu queria. A primeira me escolheram por um rosto. A segunda eu construí sozinha, papel por papel, madrugada por madrugada, enquanto sorria e esperava por um homem que me chamava de grudenta.
Fui até a janela e olhei os Jardins lá embaixo, os prédios brancos, as copas verdes, o dinheiro todo espalhado até onde a vista alcançava. No reflexo do vidro estava o meu rosto, o mesmo rosto que tinham comprado por parecer o de outra.
No pulso, a pulseira com o pingente de sol que eu usava fazia tempo captou a luz e brilhou. Nem lembrava mais quem tinha me dado. Um presente qualquer, achei, dos muitos que apareciam naquela casa.
Encostei a testa no vidro frio.
— Então tá — disse baixinho pro meu próprio reflexo. — Se ela voltou pro lugar dela, tá na hora de eu sair do meu.
E pela primeira vez em dois anos, a ideia não doeu. Fez sentido.
Amora
Capítulo 2
POV: Amora
Quando cheguei na Lumina, a recepção inteira parou pra me olhar, e não era o olhar de sempre.
A Larissa veio andando pelo corredor batendo os saltos como quem anuncia guerra, o celular numa mão, um tablet na outra e um sorriso que ia de uma orelha à outra.
— Chegou a mulher do momento. — Ela me abraçou de lado e já foi me empurrando pra sala de reunião. — Senta que eu vou te mostrar uma coisa que você não vai acreditar.
Girou o tablet na minha frente. Sob o Mesmo Céu, a série que a gente tinha lançado na sexta, estava em primeiro lugar no streaming. Não em segundo, não entre os mais vistos. Em primeiro. A minha personagem, a Nina, tinha virado assunto do momento durante a madrugada inteira, e a hashtag com meu nome ainda estava subindo.
— A gente tem proposta de publi de três marcas antes das nove da manhã — disparou a Larissa. — Tem revista querendo capa. Tem gente que não atendia minha ligação ano passado me mandando coraçãozinho agora. Morinha, aconteceu. Você virou a chave.
Passei o dedo pela tela, vi os números subindo em tempo real, e deixei que aquilo entrasse devagar. Dois anos atrás eu era figuração. Ontem eu era um nome que os diretores esqueciam. Hoje eu era procurada. Aquilo ali não tinha me sido dado por ninguém. Aquilo era meu.
O evento da série era no fim da tarde, num hotel na região da Paulista. Coletiva pequena, tapete pra foto, imprensa amontoada atrás da grade.
O Vinícius Dantas me esperava nos bastidores, já de terno, catando amendoim de um potinho como se estivesse num churrasco de domingo. Vinícius era o galã da série, meu par na tela, um ator que sabia trabalhar uma câmera melhor do que sabia decorar texto e que, fora dela, era só um cara simpático e folgado que me chamava de parceira.
— Olha ela, a Nina em pessoa — ele disse, oferecendo o potinho. — Tá pronta pra ser fotografada até enjoar?
— Nasci pronta, Viní.
A gente entrou no tapete junto, e foi automático. Ele encostou a mão nas minhas costas, eu ri de alguma piada que ele fez baixinho, e os cliques triplicaram. Dava pra ouvir a plateia lá atrás cochichando o nome do casal da série, gente já juntando meu personagem com o dele. Deixei rolar. Química boa de câmera vale ouro, e eu ia precisar de cada moeda.
Foi quando eu estava posando sozinha que a Sabrina apareceu.
Sabrina Toledo tinha o rosto de anúncio de sabonete e a fama de mocinha que ela cuidava com unhas e dentes. Era da minha idade, do meu meio, e me odiava desde que a Nina passou por cima da série dela nos números. Chegou perto com uma taça na mão e aquele sorriso de quem vai dizer uma gentileza.
— Amora, que loucura esse seu sucesso, né? — falou alto o suficiente pra dois repórteres pertinho ouvirem. — Fico até emocionada. Quer dizer, é tão bonito quando dá certo pra quem consegue brilhar sendo… cópia barata de alguém. Você tem esse dom, viu, querida. De parecer com as coisas.
Um repórter riu. Outro puxou o celular pra gravar. A palavra cópia me acertou onde ela queria acertar, bem no meio de uma ferida que a Sabrina nem sabia que existia mas farejava como cachorro.
Um ano atrás eu teria abaixado os olhos e engolido. Sorrindo, de preferência, pra não dar munição. Mas a menina que abaixava os olhos tinha ficado pra trás num quarto dos Jardins naquela mesma manhã.
Peguei uma taça da bandeja que passava, sem pressa, e virei pra ela com o mesmo sorriso doce que ela estava usando.
— Cópia? — repeti, e levantei a taça de leve, como quem faz um brinde. — Amor, original todo mundo se cansa de ver. Eu prefiro ser inimitável. — Dei um gole. — Mas obrigada pela preocupação. Fica tranquila que emocionar os outros é o meu trabalho.
O repórter que tinha rido de mim há pouco riu de novo, só que da Sabrina dessa vez. A Sabrina abriu a boca, não achou o que dizer, e o vermelho subiu pelo pescoço dela mais rápido do que ela conseguiu disfarçar. Girou nos saltos e sumiu.
O Jorge Menezes, o diretor da série, tinha visto tudo do canto e veio até mim balançando a cabeça, meio orgulhoso meio preocupado.
— Você tá diferente, menina. — Ele me olhou por cima dos óculos. — Diferente bom. Só não arruma briga que a assessoria não consiga limpar.
— Pode deixar, diretor Jorge. Eu limpo sozinha.
A Larissa já estava do outro lado do salão com o telefone na orelha, botando a máquina da assessoria pra rodar antes mesmo de a Sabrina chegar no carro. Quando o vídeo do meu comentário caiu na internet, meia hora depois, a maré já tinha virado toda pro meu lado.
Nos bastidores, sozinha finalmente, deixei o sorriso cair.
Do lado de fora eu era a mulher do momento, a atriz que calou a boca da rival com uma taça na mão. Do lado de dentro eu ainda era a substituta que tinha acordado com a marca da boca de um homem no pescoço e ouvido, antes do café, que a mulher de verdade dele tinha voltado. As duas coisas não cabiam na mesma pessoa por muito mais tempo. A cópia barata da Sabrina, o rosto emprestado da Cobertura Aurora, tudo apontava pro mesmo lugar. Eu estava cansada de ser o reflexo de alguém.
A Larissa apareceu na porta do camarim, o telefone ainda na mão, mas o rosto sem o brilho de antes.
— Morinha. — Ela fechou a porta atrás de si. — A Cecília apareceu num jantar ontem à noite. Cheia de joia, cheia de sorriso. E tinha gente da roda perguntando se ela e o Matheus não iam voltar a ser o que eram.
Não respondi na hora. Peguei meu celular, olhei a tela cheia de notificação, cheia do meu nome, e desliguei ele.
— Lari — falei, e a minha voz saiu limpa, decidida, sem nenhum tremor. — Amanhã de manhã eu vou resolver uma coisa. Depois disso, a gente vai reconstruir a minha carreira do meu jeito. Sem depender de ninguém.
Ela me olhou sem entender direito, mas conhecia aquele tom. Foi o mesmo tom que eu tinha usado cinco anos atrás, quando disse a ela que ia virar atriz mesmo sem ninguém acreditar.
— O que você vai resolver?
Peguei minha bolsa e passei por ela na direção da porta.
— Vou sair de cena antes que me tirem dela.
Capítulo 3
POV: Amora
Na manhã seguinte, eu subi sozinha até o último andar do Grupo Villar.
Nunca tinha ido lá por vontade própria. Em dois anos, eu ia aonde ele mandava, na hora que ele mandava. A sede do Grupo Villar na Faria Lima era o coração daquele mundo que nunca foi meu: piso de mármore que devolvia o reflexo dos sapatos, vidro do chão ao teto, gente de terno andando rápido e falando baixo, tudo caro, tudo frio. Uma menina da Baixada atravessando aquele saguão como se pertencesse ali. Não pertencia. Mas naquela manhã eu andei como se pertencesse, e ninguém teve coragem de me barrar.
Foi o Fábio quem me encontrou saindo do elevador. Fábio Prado era o assistente do Matheus, um homem de uns quarenta anos, discreto, o tipo que sabia de tudo e não comentava nada. Ele piscou ao me ver, e por um segundo esqueceu a cara de profissional.
— Amora. — Ele olhou pro corredor, depois pra mim. — O senhor Matheus não avisou que a senhora vinha.
— Ele não sabia. Ele tá aí?
Fábio hesitou meio segundo, e aquilo já respondia. Eu passei por ele.
A sala do Matheus era do tamanho do meu primeiro apartamento inteiro. Ele estava atrás da mesa, de camisa, uma pilha de papéis na frente, uma caneta na mão. Não levantou os olhos quando a porta abriu, porque devia achar que era o Fábio.
— Deixa aí — ele disse.
— Não vim deixar nada — respondi.
A caneta parou. Ele ergueu o rosto, e por um instante teve alguma coisa ali que eu não soube ler, alguma coisa que se fechou rápido demais pra virar surpresa de verdade. Depois voltou a ser o de sempre. Recostou na cadeira e me olhou como quem espera uma explicação que já decidiu não achar interessante.
— Aconteceu alguma coisa?
Fechei a porta atrás de mim. Não sentei.
— Acabou, Matheus.
Ele não mudou de expressão. Aquilo, eu já esperava.
— Acabou o quê?
— Isso. A gente. — Mantive a voz plana, sem raiva, porque raiva era mais do que ele merecia àquela altura. — Esses dois anos. Eu não quero mais ser o lugar que você ocupa quando dá na telha. Não quero mais esperar você numa cobertura que eu nem escolhi. Vim aqui te dizer na cara pra não restar dúvida. Terminou.
Por um segundo o escritório inteiro ficou em silêncio. Do lado de fora, o barulho abafado da Faria Lima, telefones, um elevador chegando. Dentro, só ele me olhando e eu esperando.
Eu tinha imaginado essa cena de cem jeitos. Ele bravo. Ele frio. Ele fazendo alguma pergunta que me obrigasse a explicar. Nunca imaginei o que ele fez.
Matheus baixou os olhos de volta pros papéis. Molhou a ponta da caneta na assinatura seguinte. E disse, com a mesma voz que usaria pra dispensar um funcionário:
— Como quiser.
A caneta correu no papel. Meio segundo. Eu juro que a mão dele parou meio segundo antes de tocar a folha, uma pausa mínima, como um soluço no meio de um gesto. Depois assinou, do mesmo jeito de sempre.
Deve ter sido impressão minha, pensei. Ele nem se dava mais ao trabalho de fingir que ligava.
— Como quiser — ele repetiu, sem me olhar, virando a página. — O apartamento fica no seu nome mesmo. Não precisa devolver nada.
E foi só isso.
Dois anos, e o homem me despachava com um "como quiser" e a informação, jogada de lado como um detalhe de contrato, de que a cobertura sempre esteve no meu nome. Eu nem sabia disso. Ele tinha posto o apartamento no meu nome em algum momento e nunca achou que valesse a pena me contar, do mesmo jeito que nunca achou que eu valesse uma conversa de dois minutos olhando na minha cara.
Esperei sentir o baque. A humilhação, o choro preso na garganta, aquela vontade de perguntar por quê. Não veio nada disso. Veio uma calma esquisita, quase leve, como quando a gente finalmente larga um peso que carregou tempo demais e o braço formiga de alívio.
— Tá bom — falei.
Ele não respondeu. Já estava no documento seguinte.
Girei nos calcanhares e fui embora. Não bati a porta. Fechei ela devagar, com cuidado, o tipo de cuidado que a gente tem com uma coisa que nunca mais vai tocar. O Fábio estava no corredor com uma pasta na mão e o rosto de quem tinha ouvido, ou adivinhado. Não disse nada. Eu também não.
Desci os cinquenta e poucos andares olhando meu reflexo na porta espelhada do elevador. O mesmo rosto. Só que dessa vez ele não era emprestado de ninguém. Era só meu.
Quando pisei na calçada da Faria Lima, o vento bateu quente na minha cara e eu respirei fundo pela primeira vez em muito tempo. Os prédios de vidro subiam altos dos dois lados da avenida, cheios de gente que decidia o preço das coisas. Um dia atrás eu era a mulher de um homem lá em cima. Agora eu era só uma mulher na rua, sem casa dele, sem nome dele, sem espera nenhuma me prendendo. Nunca a rua tinha me parecido tão grande.
O celular vibrou na bolsa. Larissa.
"Morinha, senta que eu tenho a proposta da sua vida. Uma novela nova, personagem forte, mulher que come o mundo pelas beiradas. Nada de mocinha. Perguntaram se você toparia mudar completamente de imagem. EU JÁ DISSE QUE SIM. Me liga."
Li a mensagem duas vezes na calçada e senti o canto da boca subir sozinho.
Nada de mocinha. Depois de dois anos interpretando a menina doce que espera, era exatamente isso que eu queria. Se eu estava livre, então estava na hora de mostrar pro mundo inteiro uma cara nova. A minha de verdade, a que eu tinha guardado embaixo do papel esse tempo todo.
Guardei o telefone e comecei a andar pela avenida sem esperar carro nenhum, sem que ninguém decidisse pra onde eu ia.
Lá em cima, num escritório de vidro, um homem assinava papéis e não sabia ainda o que tinha deixado sair pela porta. E cá embaixo, na rua, a mulher que ele chamava de grudenta acabava de decidir que nunca mais ia esperar por ninguém.
A pausa da caneta dele eu já tinha esquecido. Àquela altura, achei mesmo que tinha sido impressão minha.
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