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Ops, Engravidei do Meu Sogro Mafioso

Capítulo 01

...💥 PERSONAGENS 💥...

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Sou Evellyn, tenho vinte e nove anos e, na teoria, estou casada há três meses. Na prática, eu só assinei um papel que me transformou em uma prisioneira de luxo.

Com Otávio, no começo, parecia que seria diferente. A gente se conheceu numa daquelas noites em que eu só queria esquecer os boletos atrasados, a correria no hospital com a minha mãe, o fardo de que, ser adulta é ser acompanhada por muitas responsabilidades pesadas.

Ele apareceu como se fosse a solução de todos os meus problemas: gentil, educado, com aquele sorriso fácil de quem está acostumado a conseguir tudo.

Foram semanas de mensagens até tarde da noite, ligações no meu horário de almoço, flores chegando no meu trabalho sem remetente. Era como se eu tivesse sido arrancada de uma realidade triste e jogada em um romance fofinho que só existe na internet.

Otávio me buscava em casa, me deixava na porta do serviço, fazia planos demais para um relacionamento tão recente. Eu não tinha o costume de receber tanta atenção, e foi por isso que confundi a intensidade dele com amor.

Quando ele falou em casamento, pareceu absurdo e lógico ao mesmo tempo.

Absurdo porque fazia pouco tempo que nos conhecíamos. Lógico porque eu estava exausta de me sentir sozinha. Minha mãe estava muito doente, e a primeira grande prova de "amor" de Otávio foi usar sua influência e dinheiro para tirá-la da precariedade da saúde pública e transferi-la para uma clínica particular de alta tecnologia.

Ele dizia que queria cuidar de mim, dela, da nossa vida. E eu acreditei. Aceitei casar, aceitando junto todas as suas condições: nada de festa, nada de vestido de noiva chamativo, nada de família. Um casamento praticamente secreto.

Ele sempre tinha uma desculpa pronta:

“Meu amor, o meu pai é muito tradicional, não gosta de exposição.”

“É só por enquanto. Assim que as coisas se acalmarem, a gente faz algo maior.”

“No fim das contas, o que importa é o que a gente sente, não um bolo e convidados.”

Essas frases ficaram na minha cabeça, porque era mais fácil acreditar nelas do que admitir que talvez eu estivesse me entregando a um homem com duas caras.

Três meses depois, a máscara dele caiu por completo. Além de descobrir que meu marido é, na verdade, um mafioso perigoso, descobri também que ele me trai.

O dia em que tudo desabou começou como qualquer outro. Visitei minha mãe na clínica particular, aquela que Otávio pagava. O quarto era impecável, bem organizado, muito diferente do caos do hospital público onde ela quase morreu.

Passei a manhã inteira com ela, ajeitando seu travesseiro, ajudando a enfermeira e ouvindo o médico falar sobre a estabilidade do quadro dela graças aos medicamentos de última geração.

Antes de sair, inclinei-me sobre o leito e prometi voltar para o horário de visitas da noite. Ela segurou minha mão com força, como sempre fazia quando sentia medo.

— Vai dar tudo certo, meu milagre — sussurrei entusiasmada.

Ela assentiu, com um sorriso tranquilo nos lábios, segura de que estava recebendo o melhor tratamento possível.

Saí dali com a ideia de passar em casa, tomar um banho rápido e retornar. Mas o que planejei não aconteceu.

Lembro do barulho da chave girando na fechadura, da maçaneta fria na minha mão suada. Entrei esperando a calmaria do nosso apartamento e encontrei um som. Gemidos altos, descarados, ecoando pelo corredor.

Por um segundo, meu cérebro tentou se enganar: pensei em televisão ligada, filme, qualquer coisa. Mas bastou dar alguns passos para a realidade bater com força.

Era a voz dela. Paloma. Minha amiga. Ou a mulher que eu, idiota, achei que fosse minha amiga.

Reconheci o riso, o jeito como ela alongava o nome dele, como se cada sílaba fosse um prazer.

Abri a porta do quarto com a mão tremendo.

Eles estavam sobre a cama. A nossa cama. O colchão que eu ajudei a escolher, os lençóis que eu mesma lavei.

A cena se gravou na minha mente: pele exposta, duas silhuetas grudadas e o rastro do meu perfume preferido nela. Ela tinha tido a audácia de usar o meu perfume.

Paloma sequer se cobriu. Virou o rosto na minha direção, me encarando com malícia, e sorriu como se eu fosse apenas uma visita inconveniente.

— Amor, a sua esposa chegou — ela disse, rindo.

A palavra "esposa" soou como o mais puro deboche.

Otávio apenas levantou a cabeça, irritado. Não parecia envergonhado, nem surpreso. Parecia apenas incomodado pela interrupção.

— Evellyn, chegou cedo — ele disse, com uma naturalidade que me deu náuseas.

— Vocês dois são nojentos e descarados — rosnei.

Olhei de um para o outro, tentando encontrar no rosto dele qualquer sombra daquele homem que prometeu cuidar de mim. Não encontrei nada. Só frieza e indiferença. Senti o sangue ferver nas minhas veias.

— Eu quero o divórcio. — disparei. Não foi uma frase planejada. Foi puro instinto de sobrevivência.

Paloma riu alto, claramente satisfeita com a ideia de tê-lo livre para si. Mas Otávio não achou graça. Ele a empurrou para o lado abruptamente, fazendo-a cair no colchão. Levantou-se devagar, pegou a calça no chão e se vestiu sem pressa nenhuma. Veio na minha direção com uma calma que gelou minha espinha.

— Você não vai se divorciar de mim, Evellyn — ele disse, com a voz baixa, quase um sussurro ameaçador. — E sabe por quê?

— Porque você me ama? — perguntei, com o sarcasmo escorrendo pela língua.

Ele sorriu de canto. Naquele segundo, eu passei a odiar aquele sorriso.

— Porque a sua mãe está nas minhas mãos desde o primeiro dia, sua idiota.

Senti minhas pernas amolecerem.

— O que você quer dizer com isso?

— Você realmente achou que eu transferi aquela velha para a melhor clínica da cidade por pura caridade? — Ele soltou uma risada nasalada — Eu sou o dono daquele complexo médico, Evellyn. Cada máquina que a mantém respirando, cada comprimido caro que ela engole, cada enfermeiro que limpa o rosto dela, tudo pertence a mim. Está tudo no meu nome. Sob o meu controle. Ela está nas minhas mãos desde o começo.

O ar pareceu sumir completamente dos meus pulmões. O "resgate" que ele havia feito no início do nosso namoro não tinha sido um ato de amor. Tinha sido o pagamento adiantado pela minha coleira invisível.

— Você... você planejou isso desde o início? — perguntei, sentindo o coração bater tão forte que doía.

— Eu apenas garanto as minhas propriedades — ele respondeu, passando os dedos pelo meu rosto. Recuei com nojo, batendo em sua mão. Ele não se importou.

— Se você insistir nessa palhaçada de divórcio, eu dou uma única ordem. Desligo os aparelhos, corto a medicação e coloco ela de volta na sarjeta de onde você não tinha dinheiro para tirá-la. Em quantas horas você acha que ela morre sem o suporte da minha clínica?

Paloma, agora sentada na cama e já vestida, assistia a tudo com um sorriso vitorioso. Ela tentou intervir, segurando o braço dele:

— Otávio, deixe ela ir. Ela quer o divórcio, dê a ela. Não foi isso que você me prometeu?

— Cale a boca, Paloma. Eu sei o que estou fazendo — ele a interrompeu, ríspido, sem desviar os olhos de mim. — E então, Evellyn? O que vai ser?

A imagem da minha mãe, frágil e sorrindo no leito da clínica, piscou diante dos meus olhos. Eu estava encurralada em uma prisão cujas grades foram construídas meses atrás, sob o pretexto de um conto de fadas.

— Eu te odeio, Otávio — sussurrei, com as lágrimas finalmente transbordando.

Eu não peguei uma mala e fui embora, chorando na chuva. Eu fui até o banheiro, lavei o rosto, engoli o choro e fui para a sala. Sentei-me no sofá, olhando para um ponto fixo na parede, enquanto ouvia a porta do quarto se fechar novamente. Eles voltaram a transar. Tive que tapar os ouvidos para abafar os gemidos que vinham do corredor.

Chorei em silêncio. Não por ele, mas pela minha mãe, e pela minha própria estupidez.

No dia seguinte, ele decidiu que o inferno poderia ser ainda pior.

Acordei com Otávio sentado na beira do sofá. Ele estava impecável para um sábado de manhã: terno sob medida, gravata alinhada e perfume caro.

— Temos uma consulta hoje — anunciou, folheando alguns papéis.

Esfreguei os olhos, sentindo o estômago revirar só de ouvir o tom de sua voz.

— Consulta de quê?

— Na clínica de fertilidade — respondeu, frio. — Meu pai está voltando para o país em breve. Eu já assumi os negócios da família, já me casei com você para manter as aparências que ele exige. Agora só falta o herdeiro. Vamos começar o tratamento. Inseminação, exames, indução de ovulação. Coisa rápida.

Senti uma onda de pânico me atingir. Sério que foi para isso que ele se casou comigo? Tudo para conseguir um império que o pai prometeu? Então tudo era para isso?

— Otávio, eu não vou fazer isso...

Ele ergueu a mão, interrompendo-me imediatamente, com aquele olhar gélido de quem tem o controle absoluto em mãos.

— Você quer que a sua mãe continue recebendo oxigênio e médicos particulares, não quer, Evellyn?

Era um absurdo tudo aquilo, e o maior absurdo de tudo isso? Eu sou virgem.

Nunca tive um homem dentro de mim. Nunca beijei meu próprio marido de verdade. Ele nunca me tocou de forma íntima. O máximo que fazia era segurar minha mão em público quando precisava encenar o papel de homem apaixonado pela sociedade.

E, agora, ele achava perfeitamente aceitável me enviar para uma clínica para que médicos enfiassem instrumentos no meu corpo apenas para gerar o herdeiro que ele tanto precisava.

Ainda naquela manhã, descobri pela boca dele o motivo de ele nunca ter me tocado. Ele é devoto a Paloma. Ela é a sua única mulher, a sua religião. Eu sou apenas o cenário perfeito para a peça teatral que ele precisa apresentar ao patriarca da máfia.

Horas depois, eu estava sentada na maca fria de um consultório, usando uma bata fina que não cobria minha humilhação. Expliquei à médica, com a voz trêmula, que nunca havia tido relações sexuais e que estava ali para um procedimento de reprodução assistida. O olhar de pena e estranhamento que ela me direcionou foi quase insuportável.

Capítulo 02

Meu nome é Theo Morello. Tenho cinquenta anos, mas ninguém arrisca dizer isso quando me vê. Não é vaidade. É cuidado e sobrevivência. Na minha posição, um homem não pode parecer fraco, cansado ou velho. Rugas demais são um convite para o necrotério.

Naquela noite, em solo italiano, eu não tinha tempo para rugas nem para erros.

O restaurante era de altíssimo padrão, mesas bem postas, taças de cristal, gente rica que fingia não saber de onde vinha o sangue que pagava o menu degustação. Eu estava em uma mesa reservada nos fundos, com ângulo limpo para a cozinha e para a saída lateral de emergência. Nunca me sento de costas para janelas ou portas abertas. Quem faz isso na Cosa Nostra não chega aos trinta.

Na minha frente, o representante do clã Romano mexia no guardanapo de linho pela décima vez. Dedos inquietos entregam mais do que confissões sob tortura.

— Você está inquieto, Vittorio — comentei, girando o vinho na taça sem beber.

— Só cansaço, Don Theo. Sabe como é — mentiu, sem sustentar meu olhar. — Negócios acumulados, voos longos.

Eu já havia visto homens cansados e homens marcados para morrer. Vittorio era o segundo caso. Ele exalava o cheiro azedo do medo.

Meus soldados estavam estrategicamente posicionados. Dois do lado de fora, vigiando os carros; Enzo no corredor escuro que dava acesso aos banheiros; e outro fingindo ler o cardápio perto da entrada principal. Eu não dou um passo sem uma barreira de chumbo e lealdade ao meu redor.

Ainda assim, o ambiente ao redor era suspeito. O garçom demorou três minutos a mais para trazer a garrafa. As conversas no salão principal parecia abafado, como se as pessoas estivessem esvaziando o lugar sem alarde.

— Vamos direto ao ponto, Vittorio — apoiei os cotovelos na mesa, inclinando-me para a frente. — Você implorou por este encontro. Insistiu que fosse à noite, neste endereço específico. Desembuche.

Ele passou a língua pelos lábios rachados.

— O conselho Romano precisa de um prazo maior para repassar a porcentagem da rota portuária... — começou, a voz trêmula.

— Mentira — interrompi, o tom gélido e pausado. — Dinheiro vocês têm de sobra. O que falta em vocês é a Lealdade.

Vittorio engoliu em seco, e seus olhos desviaram por uma fração de segundo para a porta de serviço à esquerda. Foi o suficiente.

Meu coração não falhou uma batida. Minha expressão permaneceu esculpida em pedra. Apenas fiz um movimento sutil com a cabeça para o corredor. Enzo, atento, deslizou a mão para dentro do paletó sob medida e moveu-se silenciosamente pelas sombras.

— Vittorio — chamei-o de volta. — Se há uma coisa que eu não perdoo, é a traição de um juramento de sangue. Você sabe o que acontece com quem quebra a omertà (código de honra).

— Ninguém está traindo...

O som veio primeiro. O estalo seco de metal contra metal vindo da cozinha, seguido pelo baque de um corpo caindo, Enzo acabou de neutralizar o batedor deles. Mas o silenciador não abafou o chute que escancarou a porta dupla de madeira.

Eles estavam invadindo.

Levantei-me devagar, empurrando a cadeira sem fazer barulho. Minha mão direita já estava sob o paletó, os dedos calejados envolvendo a empunhadura fria da minha arma no coldre. Olhei fixamente para o vittorio.

— Última chance. Se você abriu a boca para eles, morre agora.

Ele arregalou os olhos, mas não houve tempo para gaguejar.

Três homens de preto invadiram a sala reservada. O primeiro trazia uma submetralhadora curta escondida sob um pano de prato; os outros dois já entraram com pistolas em punho, varrendo o ambiente.

— Boa noite, senhores — saudei, com um sorriso cortês que nunca chegou aos meus olhos. — O cardápio hoje é por conta da casa.

O homem com o pano de prato tentou erguer o cano da arma. Meu primeiro disparo foi mais rápido. A bala de calibre .45 rasgou o peito dele, projetando seu corpo contra a parede antes de desabar sobre um carrinho de sobremesas, estilhaçando taças e pratos em um estrondo violento.

No salão principal, o pânico estourou: gritos agudos, mesas virando e a correria desesperada de civis. O segundo atirador abriu fogo na minha direção. Joguei-me atrás da robusta mesa de carvalho maciço, sentindo os impactos das balas perfurando a madeira e lascas voando contra o meu rosto. Vittorio soltou um xingamento quando um projétil o atingiu e rasgou sua coxa. Ele caiu de lado, sujando o carpete de sangue. Não gastei um olhar com ele.

— Enzo! Flanco esquerdo! — gritei, acima do barulho dos disparos.

— Coberto, chefe! — a voz dele ecoou, seguida por uma rajada que derrubou o homem na porta lateral.

Movi-me rente ao chão com a agilidade. Saí pela lateral da mesa, o cano da pistola alinhado. O segundo atirador tentou recarregar; fiz dois disparos rápidos. O primeiro atingiu seu ombro, desestabilizando-o; o segundo perfurou sua garganta, encerrando o combate. O terceiro homem, vendo a carnificina, tentou recuar em direção à cozinha, mas Enzo não o deixou escapar e disparou duas vezes nas costas dele.

O silêncio que se seguiu foi preenchido apenas pelo som distante de sirenes de polícia, pelo choro de um funcionário trancado na despensa e pela respiração arfante de Vittorio.

Caminhei calmamente até o traidor caído, o cano da minha arma ainda quente apontado para o meio da sua testa.

— Você vendeu a minha cabeça, Vittorio? Por quanto? — perguntei, a voz terrivelmente mansa.

— Eles... eles pegaram a minha família, Don Theo... — ele soluçava, pressionando o ferimento na perna. — Disseram que matariam meus filhos se eu não trouxesse você para a mesa.

— E você achou mais seguro apostar contra mim, do que somar comigo? — balancei a cabeça, genuinamente desapontado. — Péssima escolha de negócios.

Puxei o gatilho. Um único disparo. Sem pensar duas vezes, sem raiva. Apenas a limpeza necessária de um ponto solto.

Enzo entrou na sala, com os olhos atentos, recarregando sua arma. Olhou para os corpos e depois para mim.

— Limpe tudo — ordenei, limpando uma gota de sangue alheio do meu rosto com o lenço de bolso. — Tire nossos homens do perímetro antes que a polícia local apareça. Vou sair pelos fundos.

— Sim, Don.

Guardei a arma, ajeitei as lapelas do paletó e saí pela cozinha. Os cozinheiros e auxiliares estavam encolhidos contra a parede, pálidos como fantasmas. Passei por eles sem dizer uma palavra. No nosso mundo, quem quer continuar respirando aprende a ser surdo, cego e mudo.

Cinco minutos depois, eu estava no banco de trás do sedã blindado que nos aguardava no beco. Tirei as luvas de couro preto, jogando-as no banco ao lado.

— Para casa — comandei ao motorista.

Enquanto cruzávamos as ruas da Itália, eu olhava o reflexo do meu próprio rosto no vidro. Eu não sentia remorso. Nunca me arrependi de nada.

Cheguei à minha mansão fortificada na costa. O portão de ferro duplo se abriu, revelando a imponente propriedade cercada por sensores de movimento, câmeras de alta definição e homens fortemente armados patrulhando os jardins. Ainda assim, o inimigo mais perigoso da minha vida não estava do lado de fora. Estava sob meu próprio sobrenome.

Meu único filho homem. Otávio. O herdeiro que eu decidi testar antes de entregar as chaves do império em Nova York.

Entrei no meu escritório particular, joguei a gravata sobre a poltrona de couro e servi-me de uma dose generosa de uísque puro. Meus músculos ainda estavam rígidos pela adrenalina do tiroteio. Eu poderia ter morrido hoje se tivesse amolecido, se tivesse confiado. E é exatamente por isso que Otávio me preocupa tanto.

Ele foi criado em berço de ouro, estudou nas melhores escolas e nunca precisou sentir o cheiro de pólvora ou o peso de uma decisão de vida ou morte. Eu achei que poupá-lo do início sangrento da minha jornada era um ato de amor de pai; tarde demais, percebi que o tornei fraco. E homens fracos destroem impérios.

Minha suposta "viagem de negócios" ao exterior foi apenas uma cortina de fumaça. Enquanto eu circulava pela Europa restabelecendo velhas alianças, meus homens e minhas câmeras, estavam de olhos nele.

Apertei o controle sob a minha mesa de mogno. A parede de livros deslizou ligeiramente, revelando telas de monitoramento térmico e de segurança de circuito fechado. Eu tinha acesso a tudo. Inclusive à cobertura dele.

Nas telas, mudei as câmeras até encontrar as imagens em tempo real. Lá estava ele, deitado no sofá, rindo com o celular no ouvido. Eu sabia o que era. Paloma. A amante que ele ostenta como se fosse um troféu, gastando meu dinheiro em jóias e jantares caros, enquanto se comporta como um herdeiro intocável e mimado.

Mudei o canal para o quarto que deveria ser do casal. Quase vazio de toques pessoais, exceto por algumas pastas de relatórios da empresa e uma pequena pilha de roupas femininas simples em um canto, que supostamente deve pertencer a esposa, Evellyn.

Li o dossiê dela três vezes. Uma moça comum, sem conexões com as famílias rivais, sem rabo preso com a lei, órfã de pais, mas não encontrei nada mais além disso.

Otávio a escolheu às pressas para cumprir o ultimato que lhe dei: case-se com uma mulher discreta, mantenha a pose de chefe de família e gere um herdeiro legítimo para garantir sua sucessão.

Bem, pelos relatórios que meus agentes me enviaram, o casamento aconteceu. Mas ultimamente soube que ele foi até uma clínica, e estou esperando um relatório com informações detalhadas.

Enquanto eu ainda bebia, meu celular pessoal, de linha criptografada, vibrou sobre a mesa. Era o relatório.

“Chefe, Otávio agendou a consulta em uma clínica de reprodução assistida com a esposa para hoje.”

Um sorriso sem qualquer humor surgiu em meus lábios. Pelo menos o garoto se lembra da minha exigência por um herdeiro de sangue. Mas forçar uma inseminação artificial na própria esposa enquanto se recusa a tocá-la por causa de uma amante, isso não é a postura de um futuro Don. É a birra de um menino mimado brincando com vidas humanas.

Traguei meu cigarro, deixando a fumaça densa subir pelo escritório luxuoso, e chamei Mayck pelo rádio.

— Mayck. Prepare a equipe tática e o jato privado. Estamos voltando para Nova York ainda esta semana — ordenei.

— Sim, senhor. Algum aviso prévio para o jovem senhor?

— Nenhum. Quero ver a cara dele quando eu estiver na cidade sem avisar.

Desliguei o rádio. Olhei para o dossiê de Evillyn na minha mesa. Eu só a tinha visto de costas em algumas gravações de segurança, saindo apressada do apartamento. Uma garota inocente jogada no ninho de cobras que meu filho gerenciava.

Se meu filho acha que pode comandar a nossa organização sendo um tirano fraco dentro de casa, ele está prestes a descobrir que o verdadeiro monstro da família Morello está prestes a embarcar em um voo de volta para Nova York.

Capítulo 03

Uma semana depois…

Tudo deu errado.

Estou falando da inseminação, claro. No começo eu chorava a cada resultado negativo; hoje, eu quase agradeço em silêncio por não ter colocado um filho no mundo com o homem que Otávio se revelou ser. Duas tentativas. Duas idas à clínica. Dois laudos frios, com a mesma palavra impressa no final: falhou.

Falhou para ele. Para mim, foi quase um alívio.

— Duas, Evellyn? — a voz dele saiu fria. — Duas porra de tentativas e nenhuma deu certo? Ou você está fazendo de propósito para me sacanear?

Ele está no meio da sala, andando de um lado para o outro. O rosto está vermelho de frustração, a camisa social aberta nos primeiros botões e a gravata jogada no sofá. Parece um executivo irritado com um contrato multimilionário que não conseguiu fechar.

Eu continuo em pé, na frente dele. Meus olhos estão fixos no chão, onde os papéis com os resultados da clínica estão espalhados e amassados.

— Eu não controlo isso, Otávio — respondo — A médica disse que é perfeitamente normal não dar certo de primeira… nem de segunda.

Ele solta uma risada curta, incrédula.

— Normal para quem? Para uma incompetente?

Respiro fundo, tentando conter a humilhação. Penso no consultório frio, nas seringas, nos hormônios que estão bagunçando meu corpo há semanas. Penso na médica me explicando, com uma paciência que ele se recusa a ter, os limites da biologia humana.

— Ela explicou que o meu corpo está reagindo ao estresse — começo — Meus níveis hormonais estão desregulados. Cortisol alto, alterações no ciclo… tudo isso interfere na fixação do embrião.

Ele revira os olhos, impaciente.

— Fala português, Evellyn. Sem termos técnicos.

— Estou ansiosa demais, nervosa — traduzo, engolindo em seco. — O ambiente em casa, a pressão… tudo isso sabota o processo. O útero não responde bem. Ela disse que até o fato de eu nunca ter tido relações influencia na adaptação do corpo aos medicamentos. E que também existe a possibilidade de o material genético não estar nas melhores condições. Ela sugeriu que você também fizesse exames, para …

— Agora a culpa é minha? — ele me interrompe, avançando um passo na minha direção.

— Eu só estou repetindo o que a doutora falou — respondo, recusando-me a dar um passo atrás. — Ela quer investigar os dois lados. Se você não fizer os exames de fertilidade que ela pediu, fica impossível saber por que está falhando.

Ele aperta os punhos.

— Eu pago a porra da clínica, os remédios mais caros do mercado, e o problema sou eu? Você está querendo me irritar, porr4?

— Não foi isso que eu disse.

— Foi exatamente o que você quis dizer. — Ele se aproxima mais um pouco. O cheiro do perfume dele, que no início do namoro me trazia uma sensação de segurança, agora me causa náuseas. — Você acha que eu não percebo? — ele continua, a voz caindo para um tom perigosamente baixo. — Toda vez que você volta da clínica com essa cara derrotada, no fundo, você está aliviada. Você não quer esse filho.

— Eu não quero um filho nessas condições — deixo escapar. A verdade simplesmente sai, crua e inevitável. — Sendo obrigada. Sendo tratada como um pedaço de carne e ouvindo você gritar comigo toda vez que um exame não sai como você planejou.

Os olhos de Otávio se estreitam, frios.

— Você não quer um filho meu! — ele não perguntou, constatou como se aquela fosse a maior heresia que já tivessem proferido contra ele. — Você tem noção de quem eu sou? Do que o sobrenome Morello significa?

Sorrio, sem qualquer humor.

— Tenho. Por isso mesmo tenho pavor de colocar uma criança inocente no meio disso.

No segundo em que as palavras deixam minha boca, sei que passei do limite.

— Nem para procriar você presta — ele rosnou.

— Não é culpa minha. Em todas eu fiz exatamente o que me mandaram. Tomei injeções diárias, fiz exames invasivos, fui furada e exposta. Você nunca entrou em nenhuma daquelas salas comigo. Não sabe o que é deitar em uma maca fria com uma estranha mexendo em você enquanto fala em taxas de falha. Você só sabe olhar para um pedaço de papel e gritar comigo!

— Eu não posso estar lá! — ele explode, gesticulando com raiva. — Eu tenho uma organização para gerenciar, tenho o meu pai voltando ao país a qualquer momento…

— E eu tenho o meu corpo sendo usado como moeda de troca para você provar que é homem o suficiente para o seu pai! — o interrompo. — Já chega, eu estou cansada.

A mandíbula de Otávio trava. Ele avança a distância que nos separa em um segundo, rápido demais para eu esboçar qualquer reação, e me dá um tapa.

A força do golpe vira meu rosto para o lado. Uma queimação instantânea se espalha pela minha bochecha direita, e minha visão fica turva por um breve momento. Cambaleio, segurando-me no braço do sofá para não cair, enquanto levo a mão trêmula ao rosto quente.

O tempo parece congelar. Não há som de trânsito vindo da rua. Apenas o latejar forte sob os meus dedos e o peito de Otávio subindo e descendo com rapidez à minha frente.

— Você se esqueceu de quem manda aqui. — ele diz, a voz agora em um sussurro assustadoramente calmo. — Eu não sou um homem comum que você pode peitar. Eu sou o homem que decide se a sua mãe continua respirando amanhã na clínica ou se morre em uma calçada qualquer. Você nunca mais levanta o tom de voz para mim.

Sinto o gosto metálico de sangue na minha boca. Devo ter mordido a parte interna da bochecha com o impacto. Engulo o choro. Eu me recuso a dar a ele a satisfação de me ver desabar.

— Você acabou de bater na mulher de quem você precisa para gerar o seu herdeiro — digo, a voz carregada de um desprezo frio — Se a agressão emocional já arruinava as taxas de sucesso, quer que eu peça para a médica te explicar o que a agressão física faz com o corpo de uma mulher?

Otávio dá mais um passo e segura meu braço esquerdo com tanta força que sinto seus dedos se cravarem na minha pele.

— Cuidado, Evellyn — ele adverte, o rosto a centímetros do meu. — Eu posso fazer muito pior do que isso. E você sabe muito bem disso.

— Eu sei — respondo, sustentando o olhar dele. — Por isso ainda estou aqui.

Ele me solta com um empurrão brusco, como se estivesse descartando algo incômodo.

— Vá para o quarto — ordena, ajeitando as mangas da camisa com uma frieza assustadora. — E coloque gelo nessa cara antes que os funcionários vejam. Se meu pai souber sobre isso, quem vai pagar o preço é a sua mãe.

Olho para ele uma última vez antes de me virar. Otávio já está com o celular na mão, os dedos deslizando pela tela, provavelmente buscando o conforto da amante para reclamar do seu "estorvo" de esposa.

Subo as escadas e entro no quarto de hóspedes, fecho a porta e encosto as costas na madeira, deslizando até o chão. Pego o celular no bolso e ligo a câmera frontal. A marca vermelha dos dedos dele já está desenhada na minha pele clara.

Toco de leve com a ponta dos dedos e recuo imediatamente. Dói.

Deito-me na cama sem sequer tirar os sapatos, cobrindo os olhos com o antebraço para impedir que as lágrimas rolem. Penso na minha mãe naquela clínica, acreditando que estou vivendo um conto de fadas enquanto ela recebe o melhor tratamento. Ela não pode saber disso. Nunca.

Meu celular vibra ao meu lado. É uma notificação automática da clínica de fertilidade: lembrete para o agendamento do próximo ciclo de exames em duas semanas.

Apago a tela.

Duas tentativas fracassadas. Por enquanto, a única coisa que ainda não quebrou dentro de mim é a minha resistência. E eu não sei por quanto tempo ela vai durar.

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