Meu Marido Ouve Meus Pensamentos Indecentes
cap-001
Capítulo 1: O pingente e a voz que ele nao deveria ouvir
Cristian Montalvo nao acreditava em amuletos, em bencaos de aeroporto nem em velhinhas que surgiam no meio da multidao como se tivessem saido de um cartao-postal mal dobrado.
Por isso, assim que o carro deixou para tras o terminal privado e pegou a avenida rumo a Las Lomas, ele abaixou o vidro.
Entre seus dedos pendia uma peca de metal escuro, absurdamente morna apesar do ar-condicionado. A mulher de Phuket a tinha colocado em sua palma com um sorriso sem dentes e uma insistencia que nem seus segurancas nem o tradutor conseguiram afastar.
"Para ouvir o que nao se diz", ela havia murmurado.
Cristian a soltou.
O pingente caiu na noite da Cidade do Mexico, engolido pelas luzes, pelo barulho e pela fila interminavel de carros.
— Deseja que voltemos, senhor Montalvo? — perguntou Julian, do banco da frente.
Cristian fechou o vidro.
— Nao. Era so lixo.
Nao pensou mais nisso.
Tinha trinta e seis e-mails pendentes, uma reuniao com o financeiro logo cedo e sete dias de cansaco acumulados entre os ombros. A viagem a Phuket tinha corrido bem, o contrato tambem, e tudo o que ele queria era chegar em casa, tomar banho, revisar dois relatorios e dormir como uma pessoa civilizada.
A Mansao de Las Lomas o recebeu com luzes baixas, marmore impecavel e aquele silencio caro que sua mae chamava de paz familiar. Para Cristian, aquilo era eficiencia: empregados que nao faziam barulho, seguranca que nao falhava, uma esposa que entendia seu lugar dentro do acordo.
Ximara o esperava no vestibulo.
Usava um vestido marfim, fechado ate a clavicula, o cabelo preso com uma fita discreta e um sorriso tao suave que parecia ensaiado diante de um espelho de convento.
— Bem-vindo a casa, Cristian — disse ela.
A voz soou tranquila, doce, exata.
Cristian tirou as luvas de couro e as entregou a empregada que aguardava ao lado.
— Cheguei tarde. Voce nao precisava me esperar.
— Eu quis esperar.
Ela baixou os olhos com aquela docilidade que, durante um ano, lhe parecera conveniente. Nao atrapalhava, nao reclamava, nao fazia cenas. Nos jantares de familia, sorria quando devia sorrir. Na igreja, tinha inclinado a cabeca como uma noiva correta. Dentro de casa, movia-se como se tivesse nascido para cuidar da temperatura do cafe dele.
Era, em resumo, a esposa perfeita para um casamento que nunca fingira ser uma historia de amor.
Cristian subiu a escada com ela dois passos atras. No quarto principal, Ximara pegou o paleto dele e o pendurou no cabideiro com maos diligentes.
— Pedi a senhora para preparar agua quente. A viagem deve ter acabado com voce.
— Foi toleravel.
— Tambem deixei um jantar leve, caso esteja com fome.
— Nao.
— Entao quer que eu prepare o banho?
Cristian afrouxou o no da gravata. Ia responder que nao era necessario quando alguma coisa, uma voz feminina e clarissima, atravessou sua cabeca.
Ai, enfim. Sete dias fora e volta com essa cara de santo de luxo e esses ombros que nem cabem na camisa. Velho fofoqueiro, hoje eu vou te olhar de perto, mesmo que voce banque o gelo.
Cristian ficou imovel.
Ximara continuava diante dele, com o sorriso intacto.
— Cristian?
Ele a encarou.
— O que voce disse?
— Perguntei se quer que eu prepare o banho.
A voz falada era a mesma de sempre: educada, serena, sem uma ruga de irritacao. Mas aquela outra frase havia soado dentro de sua cabeca com uma nitidez impossivel.
Cristian tocou a propria tempora.
Jet lag. Cansaco. Falta de sono.
Nada mais.
— Prepare — disse.
— Claro.
Ximara entrou no banheiro. Cristian a ouviu abrir a torneira da banheira, mexer em frascos, testar a temperatura com a mao.
E entao voltou a escuta-la.
Agua perfeita, toalhas perfeitas, esposa perfeita. Se me pagassem extra por cada sorriso falso, eu ja teria meu proprio apartamento... e um closet cheio de coisas para ver esse homem perder a compostura. Mas nao, aguenta. Primeiro ele precisa tirar a camisa.
Cristian parou de desabotoar a camisa.
Nao podia ser.
Olhou para a porta do banheiro. Ximara estava de costas, inclinada sobre a banheira. Nao mexia os labios.
— Com quem voce esta falando?
Ela se virou, surpresa.
— Eu? Com ninguem.
— Eu ouvi voce.
A mao de Ximara escorregou da borda da banheira.
— Eu so estava verificando a agua. Talvez tenha sido o barulho.
O barulho? Claro, poe a culpa na agua. O que deu nele hoje? Sera que finalmente percebeu que tem peito, cintura e abdomen de escandalo?
Cristian apertou a mandibula.
— Modo o que?
Ximara piscou.
— Como?
Ele deu um passo na direcao dela. O rosto continuava perfeito: olhos abertos, labios macios, respiracao medida. Mas por dentro, se aquela voz vinha mesmo dela, ela estava rindo dele.
Agora anda como vilao de novela. Que medo, senhor Montalvo. Com essa cara fria e esse corpo de pecado, o minimo era se deixar tocar mais de cinco vezes por ano, nao? Cinco. E isso contando a noite em que estava meio dormindo.
Cristian sentiu o ar prender no peito.
Cinco.
A palavra caiu entre os dois, embora ela nao a tivesse pronunciado.
— Saia do banheiro — ordenou.
Ximara obedeceu no mesmo instante.
— Fiz alguma coisa errada?
— Nao.
— Voce parece irritado.
— Estou cansado.
Aham. Cansado. Frio, eu diria. Frio com abdomen definido, o que e pior, porque a pessoa ve o banquete e o senhor se comporta como se estivesse em jejum obrigatorio.
Cristian fechou os olhos por um segundo.
A velha de Phuket.
O pingente.
A frase absurda: "Para ouvir o que nao se diz."
Nao. Ele nao ia aceitar uma explicacao ridicula so porque tinha dormido pouco e comido mal durante uma semana. Nao era um adolescente impressionavel. Era Cristian Montalvo, diretor-geral do Grupo Montalvo, um homem que resolvia processos, aquisicoes e crises familiares sem piscar.
Ele nao ouvia pensamentos.
— Vou tomar banho — disse.
— Vou deixar roupa limpa no closet.
Ximara saiu com a mesma delicadeza com que havia entrado. Cristian esperou a porta ficar entreaberta e se despiu com movimentos rigidos.
A agua quente nao o acalmou.
Da banheira, continuou ouvindo pequenos fragmentos, como se alguem tivesse ligado uma estacao de radio privada dentro do cranio dele.
Nao olhe a caixa, nao olhe a caixa, nao olhe a caixa.
Cristian abriu os olhos.
Que caixa?
Dez minutos depois, de robe e cabelo umido, foi ao closet. Ximara estava ajeitando uma camisa branca no encosto de uma cadeira. Ao ve-lo, sorriu.
— Deixei seu pijama azul. E mais confortavel.
E mais chato que missa das seis. Com essas costas, ele devia dormir com alguma coisa mais atrevida, nao vestido como herdeiro de funeraria.
Cristian encarou a caixa que ela acabara de empurrar para baixo de uma pilha de camisas.
— Abra isso.
Ximara seguiu a direcao dos olhos dele. Pela primeira vez desde que ele chegara, seu sorriso perdeu um milimetro.
— A caixa?
— Sim.
— Nao acho que tenha nada de que voce precise ai.
— Abra, Ximara.
Ela baixou o olhar, caminhou ate o movel e puxou a caixa com as duas maos. Abriu apenas um pouco. Em cima havia um pijama de seda perfeitamente dobrado.
Cristian esperou.
Nao levante o pijama. Pelo amor de qualquer coisa, velho fofoqueiro, nao levante o pijama. Se ele vir a cueca boxer preta, vai me dar sermão como se querer ve-lo mais gostoso fosse crime federal.
Cristian levantou o pijama com dois dedos.
Embaixo surgiu uma cueca boxer preta, justa, de tecido macio e corte provocante demais para um homem que escolhia ate o silencio com solenidade.
Ximara engoliu em seco.
— Comprei algo novo para voce. Esta lavada. Se nao gostar, posso guardar.
Cristian segurou a peca diante dela.
Nao guarda. Veste. Por favor, veste. Um homem tao serio numa coisa tao indecente... ai, nao, vou direto para o inferno e vou feliz.
Cristian dobrou a peca outra vez com uma lentidao perigosa.
A esposa perfeita de Cristian Montalvo havia comprado roupa intima para ele como se quisesse provocar uma guerra privada dentro do proprio quarto.
Ximara fechou a mao na borda da caixa.
— Foi uma sugestao da Val — mentiu, com voz suave. — Ela disse que era mais confortavel.
Confortavel para os meus olhos, sim. Se ele vestir com a camisa aberta, eu mesma aplaudo o servico completo.
Cristian ergueu o olhar.
Pela primeira vez em um ano, a mulher diante dele nao lhe pareceu tranquila. Pareceu presa.
Mas essa impressao durou pouco, porque a voz interior voltou com um resfolego furioso.
Alem disso, qual e o problema dele? Como se o senhor cinco-vezes-em-um-ano fosse me deixar conferir o resultado. Com sorte, ele veste, se olha no espelho e entende que esse corpo nao nasceu so para terno cinza.
— Nao compre algo assim de novo — disse ele.
Ximara fechou a caixa devagar.
— Nem para experimentar?
— Nao.
Ela baixou a cabeca.
— Como quiser.
Como quiser, uma ova. Primeiro eu mordo a lingua. Segundo, escondo a caixa. Terceiro, um dia ainda vou te ver usando algo pior e nesse dia acendo vela de agradecimento.
Cristian sentiu uma pressao estranha no peito, algo entre irritacao e uma risada que jamais admitiria.
— Eu ouvi voce — disse em voz baixa.
Ximara ergueu os olhos.
— O que?
Ele a observou por varios segundos.
Se dissesse, soaria louco.
Se nao dissesse, teria que aceitar que a mulher com quem dividia o teto era um misterio envolto em seda marfim, uma cueca boxer preta e mentiras ditas com um sorriso perfeito.
— Nada — respondeu.
Ximara inclinou a cabeca, docil outra vez.
— Descanse, Cristian.
Ela saiu do closet e apagou a luz principal do quarto. Ele se deitou sem revisar os e-mails, com os olhos cravados no teto escuro.
Por um minuto, acreditou que o silencio tinha voltado.
Entao, do lado da cama onde Ximara fingia dormir, a voz interior suspirou com uma clareza cruel.
Velho fofoqueiro. Tomara que voce ronque baixinho. Se dormir rapido, pelo menos me contento em olhar suas costas. Que desperdicio de marido bonito e mal aproveitado.
Cristian abriu os olhos.
A noite acabara de se tornar impossivel.
Capítulo 2: Ela ficou louca?
Cristian nao dormiu.
Toda vez que fechava os olhos, a voz de Ximara voltava a surgir com uma naturalidade insuportavel, como se tivesse encontrado uma porta aberta dentro da cabeca dele e se instalado ali com toda a confianca do mundo.
Ela nao falava o tempo todo. Essa era a pior parte. Havia silencios longos, respiracoes regulares, pequenos movimentos de lencois. Entao, de repente:
Se amanha ele me perguntar alguma coisa estranha, eu nego tudo. Nego ate que nasci.
Cristian abriu os olhos no escuro.
Do outro lado da cama, Ximara dormia de lado, com as maos sob a bochecha e o cabelo solto sobre o travesseiro. Sem o sorriso de esposa perfeita, parecia mais jovem. Menos distante. Mais perigosa.
As cinco e meia, Cristian se levantou.
Nao fazia sentido continuar deitado ao lado de uma mulher que podia insulta-lo sem mover a boca.
Quando Ximara acordou, ele ja estava vestido com camisa branca e calca escura, conferindo o celular junto a janela. A luz fria da manha cortava o quarto em dois.
— Bom dia — disse ela, sentando-se com cuidado.
— A partir de hoje voce vai dormir em outro quarto.
A frase saiu seca.
Ximara ficou imovel por um segundo. Depois baixou os olhos, como se tivesse acabado de receber uma instrucao domestica, nao uma expulsao do quarto matrimonial.
— Entendo.
Quarto proprio? Ai, nao. Sera que ele descobriu que as vezes eu toco no peito dele enquanto dorme? Tambem nao era motivo para me exilar, se aqueles musculos ficam ali provocando.
Cristian ergueu os olhos do celular.
— Voce esta feliz?
Ximara piscou, impecavel.
— Estou preocupada que voce esteja incomodado.
Incomodado ele. Eu passo um ano dormindo ao lado daquele abdomen de estatua de museu, com as maos se comportando melhor que freira em retiro.
— Nao estou incomodado — disse Cristian.
— Entao farei como voce preferir.
Sim, senhor geladeira com corpo de pecado. O que o senhor mandar.
Cristian fechou o celular com forca demais.
— Desca para tomar cafe.
— Em dez minutos.
Ele saiu antes de responder algo que nao conseguiria explicar.
Na sala de jantar, a mesa estava posta com a precisao de sempre: fruta cortada, cafe preto, torradas, ovos com molho. A casa cheirava a cafe recem-passado e a pimenta tostada, uma nota mais intensa que em outros dias.
Cristian se sentou na cabeceira.
Ximara apareceu pouco depois com um vestido azul-claro e o cabelo preso. Cumprimentou a empregada com um sorriso, serviu cafe na xicara de Cristian e se sentou a direita dele.
— Pedi que preparassem algo simples — disse. — Como voce chegou tarde, talvez nao queira comida pesada.
Simples, sim. Simples como meu plano de vinganca: um pouquinho de pimenta a mais para ver se o senhor acorda a alma. Ou alguma coisa. Qualquer coisa.
Cristian olhou para os ovos.
— Voce pediu isso?
— Pedi. Nao gosta?
A inocencia no rosto dela merecia um premio.
Cristian pegou o garfo.
Nao permitiria que uma voz em sua cabeca o governasse. Se era uma alucinacao, precisava comprovar. Se nao era... ainda nao sabia o que faria com essa possibilidade.
Provou uma garfada.
O fogo subiu imediatamente pela lingua, pela garganta e pelo nariz.
Tossiu uma vez. Depois outra.
Ximara se levantou na mesma hora.
— Voce esta bem?
Funcionou! Ai, nao, nao ria. Cara de preocupacao. Cara de esposa boa. Pensa em algo triste. Pensa na conta do supermercado.
Cristian tomou agua. O primeiro copo nao bastou. O segundo mal conseguiu faze-lo respirar sem odiar toda a culinaria mexicana.
— Isso parece simples para voce?
— Talvez o molho tenha ficado mais apimentado que o normal.
Mais apimentado que o normal, ela diz. Coloquei pimenta para acordar defunto.
Cristian pousou o copo sobre a mesa.
— Nao faca isso de novo.
Ximara baixou a cabeca.
— Desculpe. Eu nao sabia que pimenta incomodava tanto voce.
Mentira. Todo mundo sabe que ele come como crianca rica doente: sal, pimenta-do-reino e medo.
Cristian a encarou com os olhos ainda marejados por causa da pimenta. Em qualquer outra circunstancia, se alguem tentasse zombar dele em sua propria mesa, uma frase teria bastado para encerrar o assunto. Mas Ximara nao estava zombando com a boca. A boca continuava docil. As maos continuavam recolhendo o guardanapo com um nervosismo fingido.
O impossivel era a parte dela que nao obedecia.
E, contra a propria vontade, aquela parte lhe parecia mais viva do que tudo o que vira em sua esposa durante um ano.
— Hoje voce vai ao meu escritorio ao meio-dia — disse de repente.
Ximara ergueu o olhar.
— Ao seu escritorio?
— Leve meu almoco.
— Posso pedir para o motorista mandar.
— Eu disse que voce vai levar.
O rosto dela nao mudou, mas a voz interior soltou um guincho.
Eu? No Grupo Montalvo? Nao, nao, nao. Hoje eu precisava ver a Val antes da festa. Como e que vou provar o vestido de alcinha se o senhor decide brincar de marido carente justo quando esta tao bonito de terno?
Cristian sentiu alguma coisa se encaixar dentro dele.
Festa.
Vestido de alcinha.
Nada daquilo combinava com a mulher sentada diante dele, de joelhos juntos e pescoco coberto por renda.
— Voce tem planos? — perguntou.
— Nada importante.
So minha primeira noite livre em semanas. So um vestido vermelho que nao parece toalha de senhora. So vontade de dancar, me sentir bonita e parar de pensar nas maos enormes de um homem que acha que pedir agua morna conta como intimidade.
— Cancele.
Ximara pousou a xicara no pires com um ruido minimo.
— Como quiser.
Nao vou cancelar. Vou reorganizar. O que nao e a mesma coisa.
Cristian se levantou.
— Ao meio-dia.
— Estarei la.
Ele caminhou ate a entrada. Ximara o seguiu para se despedir, como sempre. No vestibulo, um empregado lhe trouxe o paleto e a pasta. Ela pegou o paleto antes do homem e o ofereceu a Cristian com as duas maos.
— Tenha um bom dia.
A imagem era perfeita.
A esposa cuidadosa. A mansao em ordem. O herdeiro do Grupo Montalvo saindo para conquistar o mundo.
Tenha um bom dia, velho fofoqueiro. E que a lingua arda um pouquinho para voce aprender a mandar a esposa dormir em quarto separado com essa cara de modelo caro. Eu nao sou de pedra.
Cristian se inclinou apenas um pouco na direcao dela.
— Ximara.
— Sim?
— Nao use esse vestido.
O sangue sumiu do rosto dela por um instante.
— Que vestido?
— O de alcinha.
Ximara abriu a boca, fechou-a e tornou a sorrir. Foi um sorriso pequeno, tenso, perigoso pela primeira vez.
— Nao sei do que voce esta falando.
Como ele sabe? Como diabos ele sabe? Ele mexeu no meu closet? Nao, impossivel. Esse vestido nem esta aqui.
Cristian baixou a voz.
— Entao voce nao tera problema em obedecer.
— Claro que nao.
Obedecer, meus saltos. Agora e que eu vou usar o vermelho, nem que seja por baixo de um casaco. Se ele pode andar bonito assim sem avisar, eu tambem posso provocar em silencio.
Cristian entrou no carro.
Enquanto o veiculo avancava pela entrada da mansao, viu Ximara parada a porta, ereta, delicada, com as maos unidas diante do corpo.
Parecia uma pintura de esposa exemplar.
Mas, em sua cabeca, ele ainda ouvia a palavra festa, o vestido vermelho, a suspeita de ter sido descoberta tocando demais e uma raivinha pequena, saborosa, que nao combinava com o vestido azul-claro.
Cristian olhou o proprio reflexo no vidro escuro.
O closet de Ximara so tinha roupas sobrias, cores suaves e cortes de jovem senhora resignada. Nenhuma alcinha vermelha. Nenhum decote. Nenhum sinal da mulher que ele acabara de ouvir.
Entao, ela tinha ficado louca?
Ou, durante um ano, ele havia vivido com uma desconhecida?
Capítulo 3: O cavaleiro das financas
Assim que o carro de Cristian desapareceu atras do portao, Ximara deixou o sorriso cair.
As bochechas doiam.
Nao de tristeza. De treino. Um ano de sorriso de esposa correta podia cansar mais que uma turma inteira de adolescentes antes das ferias.
Subiu para seu quarto novo, fechou a porta e ligou para Valeria antes que a coragem escapasse pela janela.
Val atendeu no segundo toque.
— Me diz que voce nao amanheceu na cadeia.
— Pior. Amanheci casada e de castigo, sem acesso visual ao peito do meu marido.
— Isso a gente ja sabia, Ximena.
Ximena se jogou na cama ainda sem lencois.
— Ele me mandou para outro quarto.
— E por que voce esta falando como se ele tivesse te dado um apartamento em Polanco?
— Porque quase e isso. Val, ontem a noite ele estava esquisitissimo. Ficava me perguntando coisas como se tivesse ouvido o que eu estava pensando.
Houve um breve silencio do outro lado.
— Que tanto voce pensou?
— Nada.
— Ximena.
— Bom, coisas normais.
— As suas coisas normais podem destruir casamentos, governos e cafeteiras.
Ximena cobriu o rosto com uma das maos.
— Chamei ele de velho fofoqueiro na minha cabeca. E talvez tenha pensado alguma coisa sobre os ombros dele.
Val caiu na gargalhada.
— Ai, nao. E ele ouviu?
— Nao sei. Ele perguntou "modo o que?" bem depois de eu pensar algo sobre o modo geladeira humana com abdomen definido.
— Isso parece grave.
— Parece impossivel.
— Tambem parecia impossivel voce acabar se passando pela sua gemea num casamento religioso de ricos, e olha ai.
A piada derrubou o animo dela como uma pedra.
Ximena se sentou.
— Nao foi um casamento legal, Val.
— Eu sei.
— O civil ficou pendente por causa da recuperacao da Ximara. Essa foi a unica coisa inteligente que Aurelio fez em todo esse desastre. Se tivessem conseguido me enfiar no cartorio com o nome da minha irma, nem todo o seu talento de detetive me tiraria limpa dessa.
— Seu pai nao fez isso para te proteger. Fez para ter margem de manobra.
— Meu pai nao e meu pai quando o assunto e me proteger.
Val suspirou e, pela primeira vez, baixou a voz.
— Voce falou com a Ximara?
— Ontem. Ela esta melhor, mas ainda nao pode voltar. Preciso cumprir o prazo e receber o prometido. Com esse dinheiro, pago minha saida, ajudo a Mamae Tencha e paro de depender da familia Blanco ate para respirar.
— Ximena...
— Nao me diga para tomar cuidado.
— Entao eu digo outra coisa: nao se apaixone.
Ximena olhou para a parede branca do quarto. A cama era enorme e nova. O quarto, elegante. Nada ali lhe pertencia.
— Cristian Montalvo nao e homem para uma mulher se apaixonar. A gente administra o risco e evita olhar demais para a boca dele.
— Assim espero.
— Alem disso, hoje ele estragou minha manha. Quer que eu leve almoco para ele no Grupo Montalvo.
— No escritorio dele?
— Sim. Como se eu fosse delivery de comida com vestido modesto para um homem que nem deixa a gente conferir a mercadoria.
— Bom, coloca o modesto por cima e o vermelho por baixo.
Ximena sorriu pela primeira vez.
— Foi o que eu pensei.
— E por isso que somos amigas.
A ligacao terminou com Val prometendo mandar depois os dados do lugar da festa. Ximena respirou fundo, procurou o vestido vermelho na mala escondida no fundo do closet e o segurou contra o corpo diante do espelho.
Depois olhou para o vestido azul-claro que usara no cafe da manha.
— Ao trabalho, senhora perfeita — murmurou.
Ao meio-dia, Ximena entrou no edificio principal do Grupo Montalvo com uma lancheira termica em uma das maos e as costas mais retas do que o necessario.
O vestibulo era uma catedral de vidro, marmore e silencio executivo. As pessoas nao caminhavam: deslizavam com crachas, tablets e ternos que custavam mais que seis meses de aluguel em qualquer bairro normal.
Ela sorriu para a recepcao.
— Vim ver o senhor Montalvo.
A recepcionista a reconheceu de imediato.
— Claro, senhora Montalvo. O senhor Rosas esta esperando.
Julian apareceu junto aos elevadores, impecavel como se tivesse nascido de terno.
— Senhora — cumprimentou. — O senhor Montalvo esta em reuniao, mas pediu que a senhora subisse assim que chegasse.
— Eu nao gostaria de interromper.
— Ele insistiu.
Claro que insistiu. O senhor tem complexo de diretor de escola. Com certeza quer verificar se trouxe o almoco certo, o sorriso certo e o comprimento certo do vestido. Pena que nao revisa outras coisas com a mesma atencao.
Julian nao reagiu, como era natural.
Mas, quando as portas do elevador se abriram no andar executivo, Cristian ergueu a cabeca do fundo da sala de reunioes como se aquela frase tivesse chegado a ele antes dela.
Ximena parou por um segundo.
Ele estava sentado na cabeceira de uma mesa longa, cercado de diretores. Diante dele, um homem de uns cinquenta anos, o diretor corrupto da area financeira, tinha o rosto vermelho e uma pasta aberta nas maos.
— Nao pode me demitir assim — dizia o homem. — Se isso sair na imprensa, o Grupo tambem perde.
Cristian nao levantou a voz.
— O senhor esta confundindo uma renuncia negociada com uma demissao.
— Nao estou confundindo nada. Tenho anos aqui. Sei demais.
Ximena entrou devagar, com a lancheira colada ao corpo.
Cristian a olhou.
— Entre.
Todos os olhos se voltaram para ela. Ximena sentiu o impacto de estar fora de lugar: seu vestido claro, seu almoco caseiro, seu papel de esposa decorativa entrando numa briga de homens com dinheiro.
Sorriu.
— Desculpem interromper.
Ui, que clima. Cheira a perfume caro, medo e fraude. E Cristian com essa camisa branca, esses ombros e essa cara de "ninguem respira sem minha permissao". Concentre-se. Esse senhor e o das financas, nao e? O que paga o apartamento da amante em Polanco com notas de consultoria. E ainda tem outra em Santa Fe. Val estava certa: corrupto adora diversificar.
Cristian parou de respirar por um segundo.
Polanco.
Santa Fe.
Notas de consultoria.
A informacao caiu na mente dele como uma pasta que alguem tivesse deixado aberta.
O diretor apontou para ele com um dedo tremulo.
— Se me pressionarem, vou falar. E nao vou ser discreto.
Cristian apoiou as duas maos na mesa e se levantou.
— Entao vamos falar de discricao.
O silencio apertou.
Ximena olhou para Julian, incomodada.
— Talvez eu devesse esperar la fora.
— Nao — disse Cristian. — Fique.
Fique? Ai, nao. Eu so vim entregar frango com legumes, nao assistir a um sacrificio corporativo.
Cristian contornou a mesa ate ficar diante do diretor.
— Apartamento em Polanco — disse. — Contrato de consultoria com uma empresa de fachada. Pagamentos mensais lancados em projetos internos.
O homem ficou branco.
Julian ergueu as sobrancelhas quase nada, mas nao interrompeu.
Cristian continuou:
— Apartamento em Santa Fe. Mesma estrutura, laranja diferente. Alem dos voos para Cancun registrados como inspecoes de obra. Quer que eu continue ou prefere assinar sua renuncia com uma clausula de confidencialidade razoavel?
O diretor engoliu em seco.
— O senhor... o senhor nao tem provas.
Tem cara de quem tem, sim, senhor. E, se nao tiver, eu conheco uma detetive que consegue com lacinho.
Cristian quase sorriu.
— Julian.
Seu assistente ja estava junto a mesa com uma pasta.
— O documento esta pronto, senhor Montalvo.
O diretor encarou a pasta como se fosse uma sentenca. A arrogancia comecou a murchar pelos ombros, pela boca, pelos dedos suados.
— Isso nao era necessario — murmurou.
— Roubar tambem nao.
A caneta raspou o papel.
Ximena nao disse nada. Apenas segurou a lancheira e fingiu nao entender muito bem o que acabara de acontecer.
Pois olha so. O velho fofoqueiro serve para alguma coisa alem de congelar quartos e ficar indecentemente bonito de terno. Cavaleiro das financas, campeao contra amantes patrocinadas.
Cristian virou um pouco a cabeca para ela.
— Cavaleiro de que?
Ximena arregalou os olhos.
— Como?
Julian olhou para o chefe. O diretor parou de assinar.
Cristian voltou a mesa com expressao neutra.
— Nada. Termine de assinar.
Cinco minutos depois, o homem saiu da sala com a renuncia debaixo do braco e a dignidade reduzida a pedacos de forma privada, limpa, ao estilo do Grupo Montalvo: sem gritos, sem publico, sem manchetes.
Julian recolheu os documentos.
— Vou enviar o pacote ao juridico.
— E revise os contratos de consultoria dos ultimos tres anos — ordenou Cristian. — Sem alarde.
— Sim, senhor.
Quando por fim ficaram a sos, Ximena colocou a lancheira sobre a mesa.
— Trouxe comida.
— Estou vendo.
— Nao tem pimenta.
Embora vontade nao tenha faltado.
Cristian abriu a tampa. Frango, legumes, arroz branco. Tudo inofensivo.
— Que consideracao da sua parte.
— Nao queria que voce passasse mal outra vez.
Nem que descobrisse duas vingancas seguidas. Tambem nao da para abusar da sorte.
Cristian pegou os talheres, embora nao tenha comecado a comer.
Olhou-a de frente.
Sua esposa de aparencia perfeita, com o vestido correto, a voz suave e um arsenal de fofocas corporativas escondido por tras dos olhos.
Nao sabia quem ela era.
Nao sabia por que podia ouvi-la.
E, pela primeira vez desde que o pingente caiu pela janela do carro, entendeu o perigo real daquele poder: ele servia.
Servia demais.
— Ximara — disse.
— Sim?
— A partir de hoje, quando eu pedir que venha ao meu escritorio, voce vem.
Ela sorriu com obediencia perfeita.
— Claro.
Nem morta. Bom... depende. Se tiver drama financeiro, comida gratis e Cristian de camisa branca dando ordens, talvez sim.
Cristian baixou os olhos para o almoco para esconder a ponta de curiosidade que lhe subia a boca.
Ate onde podia ouvi-la.
Ate onde devia faze-lo.
E quanto tempo ela levaria para perceber que ja nao estava pensando sozinha?
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