O ar no topo do arranha-céu da Kozlov Energy parecia mais frio do que a neve que caía sobre São Petersburgo. Eram exatamente oito horas da manhã quando o copo de cristal bateu pesado contra a madeira maciça da mesa. O líquido transparente queimou a garganta de Abran, mas não fez nada para aliviar a queimação que consumia o seu peito.
Com apenas vinte e seis anos, Abran Kozlov carregava o peso de uma coroa de espinhos. Seu pai, Anton, liderou a máfia russa e o império do petróleo por mais de três décadas, desde os seus vinte anos. Mas Anton escolheu se aposentar cedo para curtir a vida ao lado da esposa, deixando sobre os ombros largos do filho a responsabilidade de manter o sangue e o ouro fluindo.
Para o mundo exterior, Abran era o novo Pakhan, um bilionário implacável que comandava refinarias e plataformas de gás no Mar do Norte. Para si mesmo, ele era apenas um homem partido.
Sua mãe biológica morreu no seu parto, vítima de uma leucemia avassaladora. Ele nunca soube o que era o colo materno até a chegada de Emily. A brasileira de sorriso quente e coração acolhedor foi a única mãe que ele conheceu. Emily trouxe vida àquela mansão fria de São Petersburgo, impondo suas raízes com orgulho, era quase cômico ver o temido Anton Kozlov se render ao cheiro de arroz, feijão fresco, um bife bem grande e suculento com batatas fritas que exalava da cozinha todos os dias. Abran herdou esse gosto da mãe de criação; comia até os legumes e a salada que ela colocava no seu prato, enquanto seu pai sempre tentava desviar dos vegetais sob o olhar reprovador de Emily.
Mas nem todo o amor de Emily foi capaz de colar os cacos do que fizeram a Abran quando ele tinha apenas quinze anos.
Ele se levantou, caminhando até a janela de vidro do piso ao teto. O terno sob medida escondia um mapa de horror. Um mês inteiro mantido em um cativeiro escuro e úmido, trancado em uma caixa onde quase não podia respirar. As marcas de facas, cigarros e queimaduras ainda queimavam em sua pele. As cicatrizes físicas o fizeram odiar qualquer ambiente fechado, mas as cicatrizes da alma o fecharam para o mundo. Ele tinha vergonha do próprio corpo. Aos vinte e seis anos, cercado por uma sociedade hedonista, Abran ainda era virgem. O desejo, a vulnerabilidade e o toque humano eram sentimentos que ele sufocava com doses diárias de vodka, jornadas exaustivas de trabalho e uma crueldade cirúrgica.
A porta do escritório se abriu sem alarde. Leonid Orlov, seu primo, braço direito e amigo verdadeiro, entrou com uma pasta sob o braço. Leonid estancou os passos ao ver a garrafa de vodka pela metade sobre a mesa.
— Oito da manhã, Abran? — Leonid suspirou, a preocupação estampada nos olhos escuros. — Você não dormiu de novo.
— Dormir é para quem tem a consciência limpa, Leonid — a voz de Abran saiu grave, sem emoção. Ele virou mais uma dose. — Como estão os relatórios das plataformas de gás?
— Estão em ordem, mas eu não vim aqui para falar de gás, brat — Leonid se aproximou, a postura rígida relaxando por um segundo. — Você está se matando. Anton me ligou mais cedo. Ele está preocupado com você. Emily também, ela disse que você não aparece em casa para jantar há três dias.
— Tenho trabalho a fazer. — Abran ajeitou os punhos do terno, desviando o olhar.
— Você está afogando seus demônios em álcool e sangue. Acha que eu não vejo? — Leonid deu um passo à frente, a voz carregada de uma lealdade dolorosa. — A escuridão daquele cativeiro não existe mais, Abran. Mas você continua trancado lá dentro.
Os olhos de Abran se estreitaram, tornando-se duas pedras de gelo.
— Não fale do que você não entende, Leonid. Se veio aqui apenas para ser meu babá, pode sair.
Antes que Leonid pudesse responder, o telefone criptografado de Abran tocou. A aura de tensão mudou instantaneamente. Ao atender, a expressão de Abran congelou em uma fúria tão pura que fez o ar do escritório esquentar.
— Repita — exigiu Abran, com uma calma aterrorizante.
A pessoa do outro lado da linha falou por alguns segundos. Abran não disse mais nada; apenas desligou o aparelho e caminhou até o cofre embutido na parede, retirando uma lâmina militar de aço escuro.
— O que aconteceu? — perguntou Leonid, já sacando a própria arma, sabendo que aquele olhar do primo significava morte.
— Um dos soldados do galpão sul esqueceu qual é o seu lugar.
Vinte minutos depois, o carro blindado de Abran freou bruscamente na entrada de um galpão abandonado no porto de São Petersburgo. O ambiente cheirava a maresia, óleo queimado e medo.
Três homens estavam ajoelhados no centro do galpão, cercados por guardas armados. Um deles, um homem corpulento chamado Yuri, tremia incontrolavelmente, embora tentasse manter uma postura de deboche.
Abran entrou no local com passos calmos, as mãos nos bolsos do sobretudo preto. Anton Kozlov já estava lá, de pé no canto, observando tudo em silêncio. Anton se aposentara, mas a notícia do que o soldado falou o fez ir pessoalmente até o local.
Abran parou a meio metro de Yuri. As luzes amareladas do galpão destacavam a frieza no rosto do novo Don.
— Fale de novo — ordenou Abran, o tom suave como uma lâmina cortando a seda. — Quero ouvir da sua boca o que você disse sobre a minha irmã.
Yuri engoliu em seco, tentando rir para disfarçar o terror. Ele não sabia que Abran estava na escuta via rádio quando abriu a boca para os outros guardas.
— Don Kozlov... foi só uma brincadeira entre os homens... eu só disse que a Anna... que a garota está crescendo bem... que se ela desse abertura, eu...
Yuri nem conseguiu terminar a frase.
A fúria de Abran pelas suas irmãs era algo divino e inegociável. Ayla, de dezoito anos, e Anna, de dezenove sua irmã de alma, a filha que Emily trouxe para a sua vida e que ele protegia com a própria pele , eram sagradas. Tocar no nome delas era assinar a própria sentença de morte.
Com uma velocidade inumana, Abran agarrou o pescoço de Yuri, levantando o homem do chão com uma única mão e cravando-o contra uma pilastra de ferro. O homem sufocou, os pés balançando no ar.
— Você achou que podia sujar o nome da minha família? — rosnou Abran, os olhos queimando com um sádico prazer pela dor do outro.
Sem hesitar, Abran tirou a lâmina do bolso. Com movimentos precisos, cruéis e sem qualquer traço de hesitação, ele abriu o tórax de Yuri enquanto o homem ainda estava consciente e gritava em agonia. O sangue quente espirrou no rosto de Abran, sujando sua camisa branca, mas ele nem piscou. O som de costelas se partindo ecoou pelo galpão silencioso. Abran enfiou a mão no peito aberto do soldado e, com um golpe seco, arrancou o coração de Yuri ainda pulsando, jogando o corpo inerte no chão como se fosse lixo.
O órgão sangrento caiu aos pés dos outros guardas, que empalideceram, paralisados pelo terror absoluto.
Abran olhou para o coração no chão, limpando o sangue do próprio rosto com as costas da mão. A escuridão em sua alma parecia devorar qualquer nesga de humanidade que lhe restava.
No canto do galpão, Anton assistia à cena com o aperto no peito. O ex-Don fechou os olhos por um segundo, sentindo uma dor profunda. Ao olhar para Abran coberto de sangue, Anton não via apenas o seu filho; ele via o reflexo assustador do próprio pai. O homem abominável que Anton precisou matar no passado, depois de ver a mãe e a irmã e si mesmo, serem quebrados e torturados por ele inúmeras vezes.
A crueldade de Abran era idêntica à do velho monstro. A única diferença e a única salvação de Abran era que, ao contrário do avô, Abran ainda mantinha um amor puro e incondicional pela sua família.
Anton se aproximou do filho, ignorando o sangue que sujava o chão. Colocou uma mão pesada sobre o ombro rígido de Abran.
— Limpe-se, meu filho — disse Anton, a voz carregada de uma preocupação paternal sufocada. — Sua mãe preparou o almoço. E você sabe que Emily não gosta que ninguém se atrase para a mesa.
Abran olhou para o pai. Por um breve segundo, o monstro implacável deu lugar ao menino que ainda carregava os fantasmas daquele cativeiro no peito. Ele assentiu em silêncio, guardando a faca.
Ele governava metade da Rússia com ferro, sangue e dor. Tinha o poder do mundo em suas mãos, mas por dentro, Abran Kozlov continuava congelado na mais profunda e escura solidão.
O aroma inconfundível de feijão fresco temperado com alho, arroz soltinho e bife acebolado impregnava a espaçosa sala de jantar da mansão Kozlov. Para quem olhasse de fora, parecia um refúgio de paz em meio ao rigoroso inverno de São Petersburgo, mas a tensão dentro da casa era palpável.
No canto da varanda envidraçada, antes de servirem a mesa, Leonid chamou Anton de canto. O braço direito do novo Don tinha o rosto tenso, ainda impressionado com a cena brutal que testemunhou mais cedo no galpão.
— Tio, precisamos conversar sobre o Abran — disse Leonid em tom baixo, garantindo que ninguém mais ouvisse. — O que aconteceu hoje no porto... ele está fora de controle. Ele quase não dorme, vive à base de vodka e a crueldade dele está ficando cada vez mais desmedida. Eu estou realmente preocupado.
Anton suspirou fundamente, passando a mão pelo rosto. A expressão do ex-Don carregava o peso de quem via o próprio filho se afundar no mesmo abismo que quase destruiu sua família no passado.
— Eu sei, Leonid, eu também estou extremamente preocupado — admitiu Anton, com a voz embargada. — Eu já marquei sessões de terapia para ele com os melhores especialistas, mas ele simplesmente faltou a todas as vezes. Ele se recusa a mexer nessas feridas. O Abran acha que se permitir sentir algo além de raiva, ele vai quebrar de novo.
— Ele não pode continuar assim, tio a mente dele ainda está presa naquele cativeiro.
— Eu sei... mas por enquanto, a única coisa que segura o Abran neste mundo é esta família.
Nesse momento, a porta da sala se abriu e Abran entrou. Ele já havia tomado um banho demorado no seu quarto, trocado de terno e tentado, em vão, arrancar o cheiro de ferro do sangue do seu corpo. Ele se mantinha rígido, com uma aura distante e fria.
Abran odiava ser tocado. O contato físico para ele era um gatilho direto para as memórias das mãos que o torturaram aos quinze anos. Mas naquela casa existiam exceções que desarmavam até o homem mais perigoso da Rússia.
— Abran! — exclamou Anna, de dezenove anos.
Antes que ele pudesse dar um passo para trás, a garota se jogou em seus braços, envolvendo o pescoço do irmão em um abraço apertado. Logo em seguida, Ayla, de dezoito anos, se aproximou por trás, beijando a bochecha do irmão com carinho.
— Garotas... parem com isso — resmungou Abran, tentando parecer duro, embora não fizesse força alguma para afastá-las. — Vocês sabem que eu não gosto dessa grudança toda.
— Ah, cale a boca, Abran! Você adora que a gente te mije de carinho — brincou Ayla, dando um leve tapinha no braço dele antes de soltá-lo.
— Você está muito ranzinza hoje, brat — disse Anna, sorrindo e ajeitando a gola do terno dele, sem demonstrar medo algum do monstro que o resto do mundo temia.
Abran apenas soltou um suspiro derrotado, mas o olhar duro em seus olhos suavizou por um breve instante. Ele aceitava o toque delas porque sabia que o amor das duas era puro.
— Chega de conversa, a comida vai esfriar! — anunciou Emily, surgindo da cozinha com uma travessa fumegante de batatas fritas crocantes. A brasileira sorriu calorosamente ao ver a família reunida. — Abran, meu filho, sente-se. Fiz tudo como você gosta.
A mesa era uma mistura única de culturas e histórias de superação. Ao lado de Emily, sentavam-se Katherina, a mãe de Anton, e Francisco, o pai de Emily.
A história dos dois idosos era um dos capítulos mais bonitos daquela família. No passado, Katherina afundou em uma depressão severa após os traumas que sofreu nas mãos do ex-marido abusivo. A chegada de Emily à mansão trouxe uma luz inédita com a alegria e a energia brasileira, começando a tirar Katherina da escuridão. Mas foi Francisco, um homem simples, sábio e paciente, quem concluíu esse processo de cura. Ele se apaixonou por Katherina e a ajudou a superar os últimos fantasmas da sua mente. Hoje, os dois eram casados e viviam uma velhice tranquila, sendo o pilar de sabedoria da casa.
Abran tinha uma ligação profunda com os avós. Ele se sentou ao lado de Francisco, que deu dois tapinhas afetuosos em sua ombro.
— Você parece cansado, meu neto — comentou Katherina, olhando para Abran com olhos amorosos e perspicazes. — Comer um pouco da comida da sua mãe vai te fazer bem.
— Obrigado, vovó. Estou bem, só com muito trabalho na empresa — mentiu Abran suavemente, servindo-se de uma generosa porção de arroz, feijão, o bife suculento e a salada que Emily fazia questão que ele comesse.
Anton sentou-se na cabeceira, servindo-se do bife e das batatas, mas ignorando estrategicamente a tigela de legumes, o que fez Emily franzir a testa e cruzar os braços.
— Anton Kozlov, eu vi você pulando a salada! — repreendeu Emily em português, fazendo as meninas rirem. — O Abran tem vinte e seis anos e come os legumes dele sem reclamar, e você com essa idade fica fazendo manha?
— Emily, meu amor... legumes tiram o sabor do bife — Anton tentou se defender, arrancando uma risada abafada até mesmo de Leonid.
Enquanto a mesa se enchia de conversas cruzadas, risos e o calor humano daquela família, Abran observava tudo em silêncio enquanto comia. Por fora, ele mantinha a postura do poderoso Don da máfia russa. Mas por dentro, a solidão continuava a corrosão silenciosa.
Ele olhava para as cicatrizes sob suas mangas compridas, sentindo a queimação da vontade de beber mais uma dose de vodka para calar os gritos em sua cabeça. Ele tinha o amor de todos naquela mesa, mas a sua alma continuava trancada no escuro. Ele mal sabia que, em breve, uma tempestade em forma de uma garota de olhos ardentes atravessaria o seu caminho para virar seu mundo arruinado de cabeça para baixo.
A madrugada caíra sobre São Petersburgo, e o silêncio da mansão Kozlov parecia ensurdecedor. No porão do complexo privado, Abran estava completamente dominado por um desejo e uma excitação frustrante que queimavam em suas veias, alimentados pelo sangue fervendo e pela insônia implacável.
Ele tentou expelir aquela energia destrutiva de todas as formas. Ficou horas no estande de tiro privativo, descarregando pente atrás de pente até os seus ouvidos zunirem. Depois, foi para a sala de artes marciais, socando o saco de pancadas com tanta força que os nós dos seus dedos cortaram. Por fim, jogou-se na piscina aquecida do subsolo, nadando extensão após extensão até que seus pulmões queimassem pedindo ar.
Nada funcionou ,o desejo não passava, e a cabeça continuava a mil.
Exausto, mas longe de conseguir dormir, ele subiu para a sala de estar privativa apenas de calça moletom, descalço e sem camisa. Sentou-se no chão de madeira fria, encostado na base do sofá, com uma garrafa de vodka entre as pernas.
Ele já estava na sua quinta dose quando uma sombra se projetou sobre ele.
Anton desceu as escadas em silêncio, vestindo um ropão escuro. O ex-Don observara em silêncio os movimentos desesperados do filho durante a madrugada. Ao ver Abran prestes a virar o quinto copo, Anton se aproximou com passos lentos, abaixou-se e tirou com firmeza o copo da mão do filho.
— Filho... você já bebeu demais, vá dormir — disse Anton, a voz serena, mas firme.
Abran encostou a cabeça para trás, encarando o teto com os olhos avermelhados pelo álcool e pelo cansaço.
— Eu preciso relaxar... não consigo dormir — a voz de Abran saiu rouca, quase um sussurro quebrado.
Anton olhou para o peito e as costas do filho. Sob a luz fraca do ambiente, o mapa de cicatrizes de Abran parecia ainda mais profundo. Marcas de cortes, queimaduras velhas e sulcos na pele.
— Vá tomar um banho... se toque, conheça o seu próprio corpo. Não tenha nojo de você mesmo — falou Anton suavemente, sentando-se no chão ao lado do filho, sem se importar com a rigidez da madeira. — Assim como você, eu também tenho as marcas no meu corpo. As marcas do chicote do seu avô... e nem por isso eu me afoguei no álcool. Eu conheci sua mãe, Alison. Vivemos o nosso amor até o dia em que a leucemia a levou... E depois eu conheci sua mãe Emily, e o nosso amor já dura dezoito anos.
Anton colocou a mão sobre o joelho de Abran, encarando o filho nos olhos.
— Filho, não se feche no seu próprio mundo. Não pense que você é um monstro deformado. Pode existir alguém lá fora que vai te amar... que vai te amar por dentro e por fora, exatamente do jeito que você é.
Abran soltou uma risada amarga, desprovida de qualquer humor. Com esforço, ele se levantou do chão, os músculos do peito e dos ombros tensos, exibindo cada relevo feio das cicatrizes que odiava.
— Eu não consigo! — esbravejou Abran, a voz embargada de raiva e dor represada. — Acha que eu não tentei? Acha que eu nunca olhei para uma mulher e desejei ser normal? Mas ver a cara de nojo das mulheres é horrível! Olhar para o corpo delas e saber que quando elas olharem para o meu, vão sentir repulsa... Eu prefiro a solidão a ver o nojo nos olhos de alguém!
Anton se levantou devagar, mantendo o olhar fixo no filho. Ele conhecia a dor da rejeição, mas sabia que a prisão de Abran estava na própria mente.
— Você não deveria se importar com o que essas mulheres fúteis pensam, Abran — disse Anton com uma convicção inabalável. — Mas eu acredito no destino. E eu acredito que, um dia, você vai encontrar o seu amor. Alguém que não vai ver cicatrizes, mas sim o homem que você é.
Abran não respondeu. Apenas encarou o pai por alguns segundos antes de virar as costas e caminhar em direção ao seu quarto escuro. O Don da máfia russa tinha o império aos seus pés, mas naquela noite, ele dormiu acompanhado apenas pelos seus velhos fantasmas
O sol da tarde batia nas janelas do pequeno e aconchegante restaurante brasileiro no coração de Queens, em Nova York. O cheiro marcante de feijoada completa, couve refogada no alho e farofa exalava pelo ambiente, trazendo um pedaço do Brasil para o meio da metrópole americana.
Melina suspirou de alívio ao se sentar em uma das mesas do fundo. Aos dezenove anos, vestindo um jeans largo e uma blusa casual, ela parecia apenas mais uma jovem universitária. Ela estudava Direito, mas a verdade é que matava a última aula para satisfazer seu desejo de comida brasileira. Melina não queria seguir os passos do pai na engenharia; seu sonho era se tornar advogada criminalista, exatamente como sua mãe, Sophia.
Sophia era brasileira, vivia nos Estados Unidos há muitos anos e, além de ser uma advogada brilhante, comandava uma ONG dedicada a acolher e proteger mulheres vítimas de violência doméstica. Para Melina, a mãe era o maior exemplo de força.
Ela estava prestes a fazer o pedido quando uma sombra se projetou sobre a mesa.
— Matando aula de novo, Melina? — a voz grave e fria soou bem atrás dela, como se ele tivesse surgido do nada.
Melina rolou os olhos, encarando seu irmão gêmeo. Orion Wisbech, vestindo um moletom casual que escondia sua postura rígida, parecia um fantasma. Ele cursava Engenharia e já se preparava para assumir o posto de futuro herdeiro da Cosa Nostra americana. Orion era extremamente protetor, para não dizer controlador.
— Orion! Quer parar de aparecer do nada? E sim, eu mudei de ideia. Cansei daquela aula teórica e vim comer — respondeu Melina, cruzando os braços. — E o pai não liga para isso, a família é nossa, não precisa agir como meu sombra vinte e quatro horas por dia.
Antes que Orion pudesse dar uma bronca na irmã, a porta do restaurante se abriu e Theo entrou a passos largos. Theo tinha quase a mesma idade dos gêmeos; Sophia engravidou dele quando Orion e Melina tinham apenas três meses de vida. A diferença era mínima, o que os tornava praticamente triplos na convivência.
Theo trajava roupas casuais como os outros, mas trazia no rosto a mesma carranca controladora de Orion. Ele se aproximou da mesa, fuzilando o irmão com o olhar.
— Você deixou ela matar aula, Orion? — Theo cruzou os braços, dando uma bronca direta no irmão. — O pai confiou na gente para ficar de olho nela!
— Ela fugiu do campus antes que eu pudesse impedir — Orion deu de ombros, sentando-se ao lado de Melina.
No entanto, o cheiro da feijoada na mesa ao lado fez a postura rígida de Theo desmoronar. Ele puxou uma cadeira, sentando-se com eles e olhando feio para os dois.
— Vocês são dois traidores — resmungou Theo, chamando o garçom. — Ia comer essa feijoada sem mim? Pede mais duas porções agora.
Apesar da dinâmica protetora e controladora dos irmãos, a família Wisbech era extremamente unida e afetuosa. O pai deles, Eros, não era um homem cruel com os filhos; pelo contrário, mantinha a casa guiada pelo amor e pela lealdade.
Enquanto esperavam os pratos, o celular de Orion começou a tocar no modo vibracional. O nome de Eros piscou na tela. Orion atendeu imediatamente.
— Pai?
— Orion! Onde vocês estão? A Melina está com você? — a voz de Eros saiu áspera, carregada de uma urgência desesperada. Ao fundo, podia-se ouvir a voz de Sophia gritando no telefone, preocupada.
— Estamos juntos, pai, no restaurante brasileiro perto do campus. O que aconteceu? — perguntou Orion, franzindo o cenho.
— Houve um ataque a tiros agora há pouco na faculdade — explicou Eros, tentando manter a calma. — Entraram atirando no prédio de Direito. O campus está em caos absoluto, há vários mortos e feridos. Eu quase enfartei achando que a Melina estava lá dentro!
Orion soltou o ar que nem sabia que estava segurando, olhando para os irmãos.
— Estamos bem, pai. Matamos a última aula para vir comer feijoada. Estamos bem longe do campus.
Do outro lado da linha, a voz de Sophia ecoou ao fundo, interrompendo o marido com a energia típica de sempre:
— Graças a Deus! Orion, aproveita que vocês estão aí e traz uma marmita de feijoada para mim!
Uma hora depois, o clima leve desmoronara completamente. Ao chegarem à mansão dos Wisbech, o ar na casa era pesado. A televisão na sala exibia imagens ao vivo do campus cercado por viaturas policiais e ambulâncias.
Eros caminhava de um lado para o outro na sala, enquanto Sophia terminava de falar ao telefone com contatos da polícia.
— Foi um atentado direcionado? — perguntou Orion assim que cruzou a porta, a voz rígida. — Alguém estava tentando atingir a Mel?
— Não — respondeu Eros, balançando a cabeça com o rosto sombrio. — Tudo indica que foram dois ex-alunos revoltados. Um ato insano e isolado, eles não sabiam quem estava lá dentro.
No canto da sala, afastada dos pais e dos irmãos, Melina mantinha o celular pressionado contra o ouvido. As mãos dela tremiam levemente. Ela discava desesperadamente para o número de April, sua melhor amiga.
April era uma garota alegre, bolsista na faculdade de Direito, vinda de uma família simples. Ela não tinha qualquer ligação com a máfia, mas virou presença constante na vida dos Wisbech. Orion, em especial, mantinha um laço profundo com a garota. April costumava dormir na mansão com ele, e Orion já demonstrava uma obsessão silenciosa e protetora por ela, embora nunca admitisse abertamente.
Melina olhou para o lado e viu Orion no centro da sala. Ele tentava parecer calmo conversando com o pai, mas os olhos dele buscavam o celular de Melina a todo momento, ansioso por notícias de April.
Uma chamada. Duas. Três. Quatro. Na quinta tentativa, a ligação finalmente foi atendida.
— April? Meu Deus, você está bem? — disparou Melina, com a voz embargada.
— Aqui é o detetive Miller, do departamento de polícia de Nova York — uma voz estranha e grave respondeu do outro lado. — De quem é este aparelho?
O mundo de Melina parou.
— Eu... eu sou a amiga dela, cadê a dona do telefone?
— Sinto muito, senhorita. A proprietária deste aparelho foi uma das vítimas fatais no corredor do segundo andar. Ela não resistiu aos ferimentos.
O silêncio que se seguiu foi devastador. O policial desligou a ligação, mas Melina continuou com o aparelho na orelha, paralisada. A imagem da amiga sorridente, cheia de sonhos e planos, foi destruída em um segundo pela violência banal do mundo real.
Orion percebeu a mudança na postura da irmã. Ele deu dois passos em direção a ela, os olhos arregalados em uma mistura de pânico e negação.
— Mel... O que aconteceu? Cadê a April? — a voz de Orion falhou, perdendo toda a postura de herdeiro durão da máfia.
Melina baixou o celular devagar. Ela olhou para a mãe, para o pai, para Theo e, finalmente, para Orion. Ela não conseguiu emitir uma única palavra sobre a morte da amiga, mas o terror e a dor em seus olhos entregaram tudo.
Orion deu um passo para trás, o rosto empalidecendo enquanto a ficha caía como uma lâmina afiada em seu peito April se foi. A garota de sorriso doce que trazia luz para a sua escuridão foi tirada dele jovem demais, levando embora um pedaço do seu coração e deixando em seu lugar uma cicatriz que nunca cicatrizaria.
Enquanto a dor da perda consumia a sala, uma chama diferente acendeu no peito de Melina. Olhando para a sua família, para as regras da máfia, para a violência que cercava sua vida e para a fragilidade da existência, a raiva tomou conta de suas veias.
Ela não disse nada para ninguém. Guardou a dor no fundo da alma, mas fez uma promessa silenciosa para si mesma diante do corpo invisível de sua amiga: ela não deixaria sua vida ser controlada por medos, regras ou linhagens de sangue. Pelo menos uma vez na vida, ela seria dona do próprio destino. Ela seria livre.
Para mais, baixe o APP de MangaToon!