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O Sheik que Comprou a Noiva

Capítulo 1

...🤍 Recadinho da autora 🤍...

→ Vamos embarcar em mais um romance juntas? Já aviso: tem emoção, surtos, personagens apaixonantes e aquele caos que a gente ama! Então prepare o coração e vem comigo, porque essa história promete te prender do começo ao fim.

E ó… não me abandona, hein! Votar, comentar e mandar presentinhos faz toda a diferença e deixa essa autora aqui muito feliz (e inspirada para escrever ainda mais). Quero ver você comigo em cada capítulo!

Bjinhos 😘

...Alina Costa...

...Khalid Al-Nasir...

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...💍👰‍♀️ Alina 💍👰‍♀️...

Eu me chamo Alina Costa, tenho vinte e nove anos e sou professora de História em uma escola pública de bairro, daquelas que lutam todos os meses para ter giz, livros atualizados e um ventilador que funcione em todas as salas. É o tipo de lugar que muita gente passa na porta sem olhar duas vezes, mas é onde eu coloco meu coração todos os dias. Mesmo tendo a chance de trabalhar em uma escola grande no centro da cidade, eu escolhi ficar ali, naquela escola simples, porque sabia o quanto eles precisavam de professores e porque eu queria fazer diferença justamente onde quase ninguém queria estar.

Sempre fui esforçada, não por escolha, mas por necessidade. Desde cedo entendi que, se eu não corresse atrás, ninguém faria isso por mim. Trabalhei, estudei, cuidei da casa, dos meus irmãos, tudo ao mesmo tempo. Eu fazia isso por mim, pela minha mãe, pelo meu pai e pelos dois pequenos que sempre me olhavam como se eu tivesse respostas para tudo.

Meu pai, Roberto Costa, começou com uma empresa pequena. Era quase uma sala com uma mesa velha, um computador lento e um sonho enorme. Eu me lembro de quando ele chegava em casa todo empolgado, falando de clientes novos, de contratos, de metas, como se estivesse construindo tudo com as próprias mãos. Com o tempo, a empresa cresceu. Ele contratou funcionários, alugou um espaço maior, comprou carros da empresa. Aos nossos olhos, ele era um homem de sucesso, alguém que tinha vencido na vida.

O problema é que, enquanto eu via crescimento, ele via números, dívidas, prazos e cobranças que ninguém mais enxergava. Eu não percebia na época. Ninguém percebia. Minha mãe, Helena, achava que as preocupações dele eram só cansaço normal de quem trabalhava demais. Meus irmãos, Sofia, de oito anos, e Samuel, de dezenove, só viam o pai que chegava com chocolate, fazia piada na hora do jantar e perguntava da escola.

Ele sorria tanto que eu acreditava naquele sorriso. Eu confiava cegamente que, se alguma coisa estivesse errada, ele me contaria. Mas não contou.

Nos últimos meses, ele começou a passar mais tempo no escritório, chegava mais tarde, às vezes esquecia o jantar. Eu vi as olheiras escurecendo, as mãos tremendo levemente quando ele pegava uma xícara de café, mas sempre que eu perguntava se estava tudo bem, ele dizia:

— Está tudo sob controle, Lina. Seu pai aguenta.

Ele sempre falava como se fosse invencível. E eu acreditei nisso por tempo demais.

Mas ele estava perdendo tudo. A empresa, os contratos, os clientes. E, junto com isso, estava perdendo a própria saúde. Se preocupava demais com tudo, carregava sozinho o peso das contas, dos salários dos funcionários, dos empréstimos, e não deixava ninguém se aproximar dessas preocupações. Ele adoecia lentamente diante de nós, e nós não víamos. Ou talvez víssemos, mas não queríamos aceitar.

Minha mãe continuava acreditando no marido forte, no homem que sempre dava um jeito em tudo. Sofia só queria brincar e ver desenho com ele. Samuel estava ocupado demais tentando começar a própria vida, faculdade, trabalho, sonhos. E eu, entre provas para corrigir, aulas para preparar e uma rotina puxada, escolhia acreditar que o silêncio dele era apenas cansaço.

Hoje fazem três dias que meu pai morreu. Três dias. Em decorrência de um infarto.

Essa frase ainda parece não se encaixar na minha vida. Meu pai morreu. Eu sinto como se estivesse repetindo algo que li em alguma notícia, em vez de algo que aconteceu dentro da minha própria casa. Mas foi aqui, nesta sala, onde ainda ficou o cheiro das flores do velório, que tudo aconteceu.

Os últimos dias têm sido uma mistura de dor, silêncio e gente entrando e saindo o tempo todo. Vizinhos, parentes distantes, amigos de trabalho. Todos com a mesma expressão de choque, todos com a mesma frase na ponta da língua:

— Ele parecia tão bem.

Sim, ele parecia bem. Sempre. Ele sorria para nós como se o mundo não estivesse desabando sobre a cabeça dele. Fazia piada, pedia pizza aos sábados, reclamava dos times de futebol, ajudava Sofia com as tarefas, perguntava de Samuel, me abraçava e dizia que tinha orgulho da professora que eu me tornei.

Enquanto isso, ele carregava por dentro um peso que não dividia com ninguém.

Meu pai não demonstrava fraquezas. Isso era quase uma regra. Mesmo que estivesse sentindo dores, mesmo que estivesse com problemas sérios, ele não deixava transparecer. Não falava de contas atrasadas, não mencionava dívidas mais altas que o lucro. Não contava dos dias em que o coração parecia bater fora do ritmo e a mão ia, por segundos, ao peito, antes de ele disfarçar com um sorriso.

Ele não queria nos preocupar. Preferia sofrer calado a ver qualquer um de nós perder o sono.

E agora sou eu quem não dorme.

Eu me pego andando pela casa, olhando a cadeira em que ele gostava de sentar, o lugar à mesa que está vazio, e tentando entender como um homem que sempre se mostrou tão forte pôde ir embora tão rápido. Penso em tudo que eu não vi, em tudo que eu vi e ignorei, em todas as vezes que eu poderia ter insistido mais quando perguntava se estava tudo bem.

Como professora, explico para os meus alunos sobre guerras, crises, colapsos e revoluções. Falo de causas e consequências, de começo, meio e fim. Sempre existe um motivo, um ponto de partida, um momento em que as coisas mudam.

Na minha vida, eu só consigo ver um vazio enorme.

Já minha mãe anda pela casa como se estivesse perdida em um lugar que não conhece, mesmo morando aqui há anos. Ela segura o terço com tanta força que os dedos ficam marcados, mas, quando olha para mim, tenta sorrir, como se quisesse repetir o que ele fazia: esconder a própria dor para não me preocupar. Sofia pergunta toda hora quando o pai volta, como se a palavra morte fosse grande demais para caber na cabeça de uma menina de oito anos. Samuel finge que está forte, mas às vezes se tranca no quarto e passa horas em silêncio.

Cada um de nós está tentando segurar uma parte desse mundo que caiu.

Capítulo 2

...💍👰‍♀️ Alina 💍👰‍♀️...

A cabeça latejava pela falta de sono e pelas lágrimas que eu já não sabia mais de onde vinham. Parecia que, em três dias, eu tinha chorado uma vida inteira. Mesmo assim, aqui estava eu, sentada na velha cadeira de couro do escritório de casa, a mesma cadeira em que meu pai costumava ficar horas, olhando para a tela do computador e fingindo que tudo estava sob controle. O couro já estava gasto nas bordas, mas ainda guardava o leve aroma do perfume amadeirado que usava. Era como se, a qualquer momento, ele pudesse entrar pela porta, puxar a cadeira e dizer para eu sair dali porque aquele era “o lugar dele”.

Só que agora o lugar dele estava vazio. E eu estava ocupando esse espaço pela primeira vez, não como filha curiosa, mas como alguém que precisava entender o mundo que ele deixou para trás.

Olhei para todas as pastas de trabalho que trouxemos da empresa para casa. Elas estavam empilhadas sobre a mesa de mogno escura, uma sobre a outra, algumas abertas, outras com elásticos já cansados de tanto uso. Cada pasta parecia carregar um peso que não era só de papel, mas de anos de esforço, decisões e preocupações. Por um momento, eu pensei em simplesmente levantar e ir embora dali, fingir que não vi nada. Fingir que a empresa, as dívidas, os problemas não existiam. Que eu podia continuar sendo apenas a professora que sabe falar de crises no passado, não no presente.

Mas eu sabia que não tinha essa escolha.

Levei a mão até a gaveta da mesa, tentando abri-la como quem abre qualquer gaveta simples. Não abriu. Puxei outra vez, com mais força. Continuou presa. Senti uma pequena onda de irritação subir pelo peito, misturada com ansiedade. Era como se aquela gaveta estivesse guardando um segredo e se recusasse a deixar que eu chegasse perto.

Respirei fundo, levantei e comecei a procurar pelas chaves. Olhei em cima da mesa, dentro das outras gavetas, embaixo de livros antigos de contabilidade, nas pastas de documentos. Revirei caixas, abri envelopes, empurrei cadeira, até que, quase por acaso, senti o toque frio do metal na lateral da prateleira, atrás de um porta-retratos com a foto da nossa família sorrindo em um aniversário.

Ali estava a chave. Pequena, discreta, quase escondida.

Por um segundo, encarei o porta-retratos. Na foto, meu pai tinha o mesmo sorriso de sempre, aquele que parecia dizer “eu dou conta de tudo”. Minha mãe estava apoiada no ombro dele, Sofia com os braços levantados, Samuel tentando parecer sério, eu no canto, com um bolo nas mãos.

Segurei a chave com força e voltei para a cadeira. A mão tremeu um pouco quando levei o metal até a fechadura da gaveta. Ela abriu com um clique. Puxei devagar.

Dentro, encontrei mais pastas. Pastas diferentes das que estavam em cima da mesa. Essas estavam organizadas demais, etiquetadas com datas, nomes de bancos, palavras como “empréstimo”, “renegociação”, “contratos”. Não era o tipo de coisa que ele deixaria jogada, porque ele sempre foi muito cuidadoso com tudo que achava importante.

Peguei a primeira pasta e a abri. Meus olhos correram pelas linhas impressas. Havia extratos bancários, promissórias, contratos de financiamento, cartas de cobrança. O papel parecia comum, mas o conteúdo era qualquer coisa menos simples. Os números estavam ali, em colunas, somas, taxas. À primeira vista, qualquer pessoa poderia pensar que se tratava apenas de movimento normal de empresa. Pagamentos, recebimentos, compras e vendas.

Mas bastava olhar com atenção para ver que não estava nada “normal”.

Números em vermelho chamavam minha atenção. Valores altos, juros, prazo vencido. Uma mistura de cifras que, juntas, contavam uma história diferente daquela que meu pai tinha nos mostrado em casa. A empresa que ele tanto se empenhou em construir não estava apenas “indo mal”. Ela estava se desfazendo aos poucos. E isso não havia começado agora, nem no último mês. Pelos documentos, pelo menos três anos de luta estavam ali, impressos, congelados em papel.

Meus dedos apertaram a borda da folha.

Em uma tentativa desesperada de nos proteger, de não deixar que nada disso nos atingisse, meu pai tinha recorrido a empréstimos. Primeiro, linhas de crédito bancário comuns, aquelas que qualquer empresa busca quando precisa de fôlego. Em cada papel, havia carimbos, assinaturas, promessas de pagamento. Ele renovava contratos, alongava prazos, aceitava condições. Eu podia imaginar ele sentado diante de algum gerente de banco, ouvindo explicações sobre juros e taxas, e dizendo “vai dar certo, só preciso de mais um tempo”.

Só que esse tempo nunca veio.

Quando as portas do mercado nacional começaram a se fechar, quando os bancos deixaram de ver a empresa como um bom cliente, meu pai deu mais um passo. Um passo que ele nunca comentou à mesa do jantar. Ele havia buscado financiadores externos, investidores silenciosos. Não eram nomes que apareciam nas manchetes dos jornais de economia, não eram grandes empresas com propagandas de televisão. Eram pessoas ou grupos que viviam à sombra desses contratos, oferecendo dinheiro rápido em troca de juros que beiravam o absurdo.

As taxas anotadas nos papéis pareciam irreais. Era como se, a cada mês, o valor dobrasse, triplicasse, engolisse qualquer chance de recuperação. Eu li e reli as condições, tentando entender como ele tinha chegado a esse ponto. Pensava no pai que sorria, que fazia churrasco aos domingos, que falava de futebol, e tentava encaixar essa imagem na figura do homem que assinava contratos desse tipo.

A sensação de traição não era com ele. Era com a realidade.

Ele tinha tentado, com todas as forças, nos manter longe disso. Em vez de compartilhar o peso, ele o escondeu aqui, no fundo da gaveta da mesa de mogno. Provavelmente achou que, se resolvesse tudo sozinho, nós nunca saberíamos o que ele enfrentou. Nunca veríamos números em vermelho, nunca saberíamos das ligações de cobrança, das reuniões tensas, dos ultimatos.

Mas, o que ele tentou esconder, estava todo diante de mim.

Passei para outra pasta. Mais contratos. Mais assinaturas. Havia notas promissórias com prazos vencidos, ameaças de medidas judiciais, cartas com linguagem fria falando de “execução de dívida”, “garantias”, “bens da empresa”, “responsabilidade familiar”. Em algumas delas, eu vi o nome dele ao lado do nome da empresa. Em outras, vi endereços que eu não conhecia, nomes de pessoas que eu nunca tinha ouvido falar. Investidores, credores e intermediários.

A cada novo documento que eu lia, ficava mais claro que o problema não era pequeno. Não se tratava de um mês ruim, nem de um contrato perdido. Era um buraco enorme, uma soma de decisões desesperadas feitas por alguém que queria evitar o inevitável.

Senti uma lágrima escorrer, mesmo achando que já não tinha mais.

— Por que você não me contou, pai? — murmurei, sem esperar resposta.

A sala estava silenciosa, mas, ao mesmo tempo, cheia de coisas que falavam por ele. As pastas, a cadeira, o computador desligado, as canetas alinhadas, o porta-retratos. Tudo ali dizia que ele tentava manter uma aparência de ordem, mesmo quando tudo estava caindo aos pedaços por dentro.

Abri mais uma pasta e encontrei algo diferente: um contrato com uma cláusula destacada em amarelo. Havia uma data recente, semanas antes da morte dele. O nome de um “financiador externo” aparecia em letras grandes, seguidas de um endereço em outro país, uma cidade que eu não conhecia bem, uma assinatura firme do meu pai. As condições eram ainda mais pesadas. Em caso de inadimplência, havia possibilidade de “acordo alternativo”, envolvendo bens da família.

Meu sangue gelou nas veias.

Eu não entendia tudo, não naquele momento. Eu lia as palavras, mas elas pareciam dançar diante dos meus olhos cansados. Mesmo assim, uma coisa estava clara: meu pai tinha entrado num tipo de acordo que não parecia seguro. Algo que ia além de banco, além de empréstimo comum. Algo que ligava a nossa família diretamente a gente que não estava preocupada com o nosso bem-estar, apenas com ganhar o que foi prometido.

Fechei a pasta devagar.

Eu passei a mão pelo rosto, respirei fundo e entendi que a dor da nossa perda não ia ser só emocional. A morte dele tinha deixado um vazio na casa, mas também deixado um rastro de dívidas e problemas que agora, de alguma forma, iam cair sobre nós a qualquer momento.

Capítulo 3

...💍👰‍♀️ Alina 💍👰‍♀️...

Um barulho suave na porta me fez erguer o olhar rapidamente, o coração saltando no peito como se eu tivesse sido pega fazendo algo errado. A ponta de uma pasta escorregou da minha mão, e eu tive que respirar fundo para parecer calma.

— Filha? — a voz da minha mãe chegou antes dela entrar completamente no escritório. Era fina e trêmula, denunciando que ela já tinha tomado novamente os calmantes que o médico havia receitado.

Ela apareceu encostada ao batente da porta, envolta em um xale de lã cinza. Os olhos fundos e vermelhos pareciam maiores no rosto agora mais pálido.

Minha mãe sempre foi uma mulher forte, daquelas que seguram a casa em pé quando tudo ao redor desmorona. Mas naquele momento, ela parecia ter envelhecido dez anos em apenas alguns dias.

— Oi, mãe… achei que estivesse descansando — forcei um sorriso, rápido demais, enquanto empilhava as pastas e tentava escondê-las atrás de um monte de papéis mais antigos. Não queria que ela se aproximasse daquela gaveta, nem daqueles números.

Ela deu alguns passos para dentro, olhando ao redor.

— Eu estou cansada de descansar, Lina… — murmurou, ajeitando o xale nos ombros. — Parece que esse silêncio, essa calmaria vai me engolir.

Ela enxugou os olhos com um paninho amassado que estava na mão. Era o mesmo paninho que ela usava para limpar as bordas das xícaras de café quando meu pai vivia aqui, sentado nessa mesma cadeira.

— Você está procurando as apólices de seguro, querida? — perguntou, tentando soar prática, como sempre fazia quando falava de coisas de documentos. — O advogado do seu pai disse que ele deixou tudo organizado para nós, para você e seus irmãos.

Abaixei a cabeça, para não olhar nos olhos dela, e cair na tentação de falar o que eu estava evitando, para o bem dela.

Minha mãe e meus irmãos não faziam ideia de que meu pai havia cancelado o seguro de vida no ano passado para usar o dinheiro no pagamento de juros. Eu só descobri porque, entre as pastas, havia um ofício do banco, notificando o cancelamento, com a assinatura dele. Com essa decisão, ele tinha cortado a única rede de proteção que teríamos agora.

Estávamos totalmente sem nada.

— Estou arrumando tudo, mãe… — respondi, rápido demais. — Não quero que a senhora se preocupe com isso, tá bem?

A mentira saiu firme. Parecia que a vida estava me obrigando a aprender a mentir para proteger quem eu amo.

— Volte para o quarto, descanse mais um pouco — completei, levantando e indo até ela. Segurei suas mãos, frias e trêmulas. — Mais tarde eu levo um chá quente para a senhora. Sim?

Ela suspirou, como se estivesse cansada até de respirar.

— Tudo bem, querida. Eu confio em você. Seu pai também confiava — disse, antes de se virar para sair.

Eu fiquei parada na porta, observando as costas dela enquanto caminhava pelo corredor. O xale parecia grande demais sobre o corpo. Quando ela finalmente se retirou e o som de seus passos foi sumindo, eu me permiti desmoronar novamente.

Voltei para a cadeira como alguém que retorna ao campo de batalha já sabendo que vai sair ferido. Deixei meu rosto cair entre minhas mãos abertas e chorei como uma criança. Não foi um choro bonito, contido. Foi um choro feio, soluçado, aquele que dá vontade de pedir para alguém vir e dizer que tudo aquilo é um pesadelo. Mas ninguém veio.

A única resposta era o som abafado da minha própria respiração e do choro.

O que eu tinha acabado de ler nas pastas e contratos pesava muito dentro do peito. A propriedade onde morávamos, nossa casa que eu sempre considerei o nosso porto seguro, não nos pertence mais. Em um dos documentos, uma cláusula clara informava que, em caso de inadimplência, o banco tinha o direito de tomar o imóvel. E nós já estávamos além da inadimplência.

Esse mesmo lugar onde eu estava sentada, onde minha mãe andava perdida, onde Sofia deixava brinquedos espalhados e Samuel largava livros pela sala, poderia deixar de ser nosso a qualquer momento. Bastava uma decisão, uma assinatura, uma visita de oficial de justiça.

O banco tinha todo o direito de tomar a chave quando quisesse.

Essa ideia parecia absurda. Eu olhava para as paredes, para os quadros, para o corredor, e não conseguia imaginar algum desconhecido entrando, pedindo para que nós saíssemos. Mas, nos papéis, isso não só era possível, era provável.

Não tínhamos para onde ir. Essa era a parte mais cruel.

As cartas anexadas aos contratos diziam que as contas correntes estavam bloqueadas judicialmente e os cartões de crédito suspensos. Eu não podia sacar nada, não podia fazer compras grandes. O pouco que restava em dinheiro vivo praticamente já tinha sido usado nos gastos do hospital, do velório, nas primeiras despesas urgentes que surgiram, uma atrás da outra.

Com o salário que recebo na escola, mal daria para alugar um lugar pequeno, longe do centro, longe de tudo. E ainda assim, teria que escolher entre pagar aluguel ou comprar comida, remédios, transporte, luz e água.

Passei a mão pelos olhos, tentando enxugar as lágrimas, mas elas insistiam em voltar.

Eu sempre achei que, se algum dia a vida apertasse, a gente ia ter pelo menos um plano B. Um lugar para onde ir, alguém para pedir ajuda, um dinheiro guardado. Mas meu pai tinha gastado o que tinha, o que não tinha e até o que era do futuro, tentando segurar a empresa. E agora não havia nada.

Nada além da responsabilidade que parecia ter sido jogada inteira nas minhas costas.

Senti uma pontada de culpa novamente, por não ter percebido antes, por não ter tentado conversar mais com ele, insistido mais. Pensei nos dias em que eu estava cansada demais para perguntar sobre a empresa, nos momentos em que mudei de assunto quando ele dizia estar “resolvendo umas coisas”. Talvez, se eu tivesse visto tudo isso antes, a dor seria menor agora. Ou talvez não. Talvez ele tivesse me afastado da mesma forma, com o mesmo sorriso.

Respirei fundo, tentando achar algum fio de lucidez no meio do caos.

Eu precisava pensar em alguma coisa prática. Em alguma saída. Em algum passo seguinte. Continuar sentada ali, chorando, não ia mudar o que estava nos documentos. O banco não ia ter pena da nossa dor. Os credores não iam levar em conta nossas lembranças, nossas fotos, nossas histórias. Eles iam olhar para números, prazos, falta de pagamento.

Meu pai tinha cancelado o seguro. Tínhamos dívidas enormes. A casa estava ameaçada. As contas bloqueadas. Eu era uma professora com salário curto, uma mãe improvisada dos meus irmãos, filha de uma mulher em pedaços.

— Você confiava em mim, pai… — sussurrei, olhando para o porta-retratos sobre a mesa. — Agora eu vou ter que dar um jeito, mesmo sem ter ideia de como.

Limpei o rosto com as costas da mão, ajeitei os papéis em pilhas. Peguei um caderno velho, daqueles que eu usava para planos de aula, e comecei a anotar tudo o que tinha visto. Valores, nomes de bancos, datas, prazos, tipos de contrato. Eu sabia que, se não organizasse pelo menos no papel, a minha cabeça ia explodir.

Então eu comecei a anotar. Eu tinha aquela manhã inteira, mas sei que arrumaria uma saída.

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