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Foda-se CEO Insuportável!!!

Capítulo 1 — O Pior Livro do Mundo

Se havia uma coisa que irritava profundamente Elisa, era desperdiçar seu tempo com histórias ruins. Depois de passar o dia inteiro trabalhando e enfrentando uma rotina cansativa, tudo o que ela queria era chegar em casa, preparar algo para comer e relaxar lendo um bom romance. Infelizmente, naquela noite ela havia cometido o erro de começar um livro que estava fazendo enorme sucesso na internet. Segundo os comentários, era uma história emocionante sobre amor, superação e um CEO apaixonado. Segundo Elisa, era apenas um amontoado de absurdos que fazia sua pressão subir a cada capítulo.

Sentada no sofá de seu pequeno apartamento, ela virou mais uma página enquanto segurava uma caneca de café já quase fria. Sua expressão ficava mais indignada a cada linha que lia e, quando chegou a uma cena em que a protagonista era humilhada publicamente pelo marido, precisou fechar o livro por alguns segundos para recuperar a paciência. Aquilo não era romance, era uma coleção de desgraças colocadas em sequência para torturar uma mulher que aparentemente não tinha permissão para ser feliz nem por cinco minutos.

— Não é possível que alguém ache isso romântico.

Elisa abriu novamente o livro e continuou a leitura, determinada a terminar aquela obra nem que fosse apenas para poder reclamar dela com propriedade. A protagonista da história se chamava Helena, uma jovem gentil que havia se casado com um poderoso CEO para conseguir dinheiro para o tratamento da mãe doente. O problema era que, depois do casamento, sua vida se transformava em um inferno. O marido a tratava como uma empregada inconveniente, a antagonista fazia de tudo para destruí-la e ninguém parecia disposto a defendê-la.

Conforme avançava pelos capítulos, Elisa sentia uma necessidade quase física de entrar na história para sacudir os personagens. Em sua opinião, Helena era boa demais para aquele mundo. A jovem aceitava insultos, humilhações e injustiças com uma paciência que beirava o sobrenatural. Enquanto isso, o tal CEO arrogante continuava agindo como se fosse o dono do universo, distribuindo ordens e julgamentos sem sequer ouvir o lado dela. Quanto mais Elisa lia, mais tinha certeza de que pisaria naquele homem caso tivesse a oportunidade.

— Minha filha, pelo amor de Deus, pede o divórcio.

Ela apontou para o livro como se Helena pudesse ouvi-la através das páginas. Naturalmente, a personagem não respondeu. Em vez disso, continuou sofrendo em silêncio enquanto o CEO acreditava em todas as mentiras contadas pela antagonista. Elisa passou a mão no rosto e soltou um suspiro tão longo que parecia carregar o peso de todas as decisões ruins tomadas pelos personagens daquele romance.

As horas passaram rapidamente enquanto a chuva caía do lado de fora do prédio. O som das gotas batendo contra as janelas preenchia o apartamento, criando um contraste estranho com a revolta crescente da leitora. Quando finalmente chegou aos capítulos finais, Elisa já estava completamente investida na história, não porque gostasse dela, mas porque precisava saber até onde aquela autora era capaz de levar o sofrimento da protagonista.

Então chegou ao último capítulo.

Ela leu uma vez.

Piscou.

Leu novamente.

Depois fechou o livro com tanta força que quase amassou a capa.

— NÃO!

Sua voz ecoou pelo apartamento vazio enquanto ela encarava a última página como se tivesse sido pessoalmente ofendida. Helena havia morrido atropelada depois de anos sendo humilhada, usada e desprezada. O CEO só descobria a verdade quando já era tarde demais e passava o restante da história arrependido. Era esse o final. Não havia redenção. Não havia justiça. Não havia felicidade.

— Então ela sofre trezentos capítulos para morrer no final?

Elisa levantou do sofá completamente indignada e começou a andar pela sala. Aquilo era ridículo. Aquilo era revoltante. Aquilo era um crime contra a literatura romântica. Quanto mais pensava na história, mais sentia vontade de encontrar a autora e perguntar se ela tinha algum tipo de rancor pessoal contra a protagonista.

— Helena merecia coisa melhor. Muito melhor.

Ela caminhou até a janela enquanto ainda resmungava sobre o assunto. A chuva havia aumentado e os relâmpagos iluminavam a cidade em intervalos irregulares. O céu parecia tão irritado quanto ela. Cruzando os braços, Elisa continuou reclamando sozinha sobre o livro, imaginando todas as formas como a história poderia ter sido melhor se alguém tivesse dado um pouco de inteligência aos personagens.

Foi então que um som estranho chamou sua atenção.

No início parecia distante.

Um ruído metálico.

Depois veio outro.

Mais alto.

Mais próximo.

Elisa franziu a testa e olhou para fora da janela. Através da cortina de chuva, conseguiu distinguir uma luz piscando de forma descontrolada no céu noturno. Seu cérebro demorou alguns segundos para entender o que estava vendo e, quando finalmente percebeu, seus olhos se arregalaram de choque.

Era um helicóptero.

E ele estava caindo.

— Ah, não.

A aeronave girava descontroladamente enquanto perdia altitude. Durante um instante surreal, Elisa ficou parada olhando a cena sem acreditar. Aquilo parecia uma sequência de filme de ação acontecendo na vida real. Seu coração disparou quando percebeu que o helicóptero estava vindo diretamente em direção ao prédio.

— AH, NÃO!

Ela correu.

Infelizmente, o universo parecia ter decidido que aquele seria seu último dia.

O impacto aconteceu segundos depois.

Um estrondo ensurdecedor sacudiu o edifício inteiro. As paredes tremeram violentamente e as janelas explodiram em milhares de fragmentos brilhantes. Elisa foi lançada contra o chão antes mesmo de entender o que estava acontecendo. O apartamento inteiro balançava enquanto sons de metal retorcido, concreto quebrando e pessoas gritando ecoavam por toda parte.

A fumaça começou a invadir o ambiente.

O calor aumentou rapidamente.

E então veio a explosão.

Por um breve instante, tudo se transformou em luz.

Uma luz intensa.

Branca.

Cegante.

Depois veio o silêncio.

Não havia dor.

Não havia medo.

Não havia nada.

A sensação era estranha, como se ela estivesse flutuando em algum lugar entre o sono e a realidade. Sua mente parecia distante, incapaz de compreender o que havia acontecido. O tempo perdeu completamente o significado enquanto aquela escuridão silenciosa a envolvia.

Então uma voz desconhecida rompeu o vazio.

— Senhora, por favor, acorde.

Elisa franziu a testa.

Outra voz surgiu logo em seguida.

— A senhorita precisa acordar.

Ela tentou abrir os olhos.

Uma claridade suave invadiu sua visão.

O teto acima dela era desconhecido.

As cortinas eram desconhecidas.

O quarto inteiro era desconhecido.

Confusa, Elisa sentou lentamente na cama enquanto observava o ambiente luxuoso ao seu redor. Havia móveis elegantes, decoração sofisticada e um enorme lustre pendendo do teto. Tudo parecia saído diretamente de uma mansão de novela.

— Onde eu estou?

Uma empregada que estava próxima da cama arregalou os olhos.

— Senhora Helena, está se sentindo bem?

Elisa congelou.

Seu cérebro travou.

A empregada continuou falando, mas ela já não escutava mais nada.

Helena.

A mulher havia acabado de chamá-la de Helena.

Não.

Não podia ser.

Devia ser coincidência.

Tinha que ser coincidência.

Com movimentos lentos e quase mecânicos, Elisa virou a cabeça na direção do espelho que ficava próximo à cama.

Então viu o reflexo.

Não era seu rosto.

Não eram seus cabelos.

Não eram seus olhos.

A mulher refletida no espelho era exatamente igual à protagonista do romance que ela havia terminado poucas horas antes.

O silêncio dominou o quarto.

Elisa encarou o reflexo.

O reflexo encarou Elisa.

Alguns segundos se passaram.

Então ela levou as duas mãos à cabeça.

— Ah, pelo amor de Deus...

A tragédia não era ter morrido.

A tragédia era ter acordado dentro do pior livro que já tinha lido.

Capítulo 2 — Perdida na Mansão do Inferno

Elisa continuou encarando o próprio reflexo por um tempo que pareceu durar uma eternidade. A mulher no espelho era Helena. A mesma Helena que ela havia visto sofrer durante centenas de capítulos. A mesma Helena que havia sido humilhada, desprezada, enganada e, para completar a coleção de desgraças, atropelada no final da história. Quanto mais observava aquele rosto delicado refletido no espelho, mais sentia crescer dentro de si uma mistura explosiva de incredulidade, revolta e vontade de processar o universo por danos morais.

— Não. Não, não, não e não.

Ela balançou a cabeça várias vezes como se isso fosse fazer a realidade desaparecer. Infelizmente, o reflexo continuava ali. As empregadas também continuavam ali. O quarto luxuoso continuava ali. Tudo indicava que aquela situação absurda era real. Elisa apertou as próprias bochechas com força.

Doía.

— Que droga.

A confirmação foi imediata.

Ela não estava sonhando.

Não estava delirando.

Não estava em coma.

Ela estava oficialmente presa dentro do romance mais irritante já escrito.

Enquanto as empregadas trocavam olhares preocupados, Elisa começou a andar de um lado para o outro pelo quarto. Seu cérebro trabalhava freneticamente enquanto tentava organizar as informações. Certo. Ela estava viva. Ou mais ou menos viva. Estava no corpo de Helena. Ainda estava no início da história. E o mais importante: ela sabia exatamente como aquele desastre terminava.

Atropelamento.

Morte.

Fim.

— Nem morta.

Ela congelou por um segundo.

— Quer dizer... já morri uma vez. Mas não vou morrer duas.

Quanto mais pensava, mais óbvia parecia a solução.

Ela precisava fugir.

Naquele exato instante.

Sem esperar.

Sem conversar.

Sem conhecer ninguém.

Sem dar tempo para o roteiro começar a estragar sua vida.

Afinal, se ela saísse da história logo no início, nada daquilo aconteceria. Sem CEO arrogante. Sem amante maluca. Sem humilhações públicas. Sem atropelamento. Era um plano brilhante.

— Eu sou um gênio.

As empregadas olharam para ela como se estivessem presenciando uma crise nervosa.

Elisa ignorou completamente.

Já estava ocupada demais traçando sua fuga.

Em poucos minutos, saiu do quarto determinada a encontrar a saída daquela mansão e desaparecer para sempre. Seu passo era firme. Sua expressão era séria. Sua confiança era absoluta.

Durou aproximadamente trinta segundos.

Porque a mansão era gigantesca.

Não grande.

Gigantesca.

Monstruosa.

Era o tipo de lugar onde alguém poderia sair para procurar a cozinha e acabar encontrando outro continente.

Elisa atravessou um corredor.

Depois outro.

Depois mais outro.

Em seguida encontrou uma escadaria.

Desceu.

Virou à esquerda.

Encontrou outra escadaria.

Subiu.

Virou à direita.

Entrou em um corredor decorado com quadros caros.

Voltou.

Virou novamente.

Parou.

Piscou.

— Eu já passei por aqui?

A pintura de um cavalo a encarava da parede.

Elisa encarou o cavalo.

O cavalo continuou sendo um cavalo.

— Acho que estou perdida.

Cinco minutos depois ela tinha certeza.

Dez minutos depois começou a suspeitar que a mansão possuía vida própria.

Quinze minutos depois estava considerando seriamente pedir informações para um vaso de flores.

— Quem construiu isso? Um arquiteto ou um psicopata?

Ela virou mais um corredor e imediatamente bateu de frente com alguém.

Não literalmente.

Mas por pouco.

Uma mulher elegante, vestida com roupas caras e carregando uma expressão de superioridade tão intensa que parecia ter sido treinada para aquilo desde o nascimento.

No instante em que a reconheceu, Elisa sentiu uma pontada de horror.

Porque conhecia aquele rosto.

Conhecia muito bem.

Era a mãe do protagonista.

A mulher que havia transformado a vida de Helena em um inferno particular.

A rainha das humilhações.

A campeã olímpica da crueldade gratuita.

A senhora Beatriz Vasconcelos.

No livro, ela fazia questão de lembrar Helena diariamente que a considerava inadequada, interesseira e indigna de fazer parte da família.

Era uma pessoa tão desagradável que Elisa havia sentido vontade de atravessar as páginas e discutir com ela diversas vezes durante a leitura.

E agora ela estava ali.

Em carne e osso.

Infelizmente.

— Helena.

O tom da mulher parecia o de alguém que acabara de encontrar uma barata na própria sala.

— Vejo que finalmente resolveu sair do quarto.

Elisa abriu um sorriso.

Um sorriso muito educado.

Perigosamente educado.

— E vejo que a senhora continua respirando. Que coincidência maravilhosa.

O silêncio caiu imediatamente sobre o corredor.

Uma empregada próxima quase deixou uma bandeja cair.

A expressão de Beatriz travou.

— O quê?

Elisa percebeu que tinha falado aquilo em voz alta.

Mas sinceramente?

Não se arrependeu.

Nem um pouco.

— Nada. Só estou feliz em vê-la.

— Não parece.

— Ah, então estamos tendo a mesma impressão uma da outra.

Beatriz piscou.

Uma vez.

Depois outra.

Claramente seu cérebro não estava preparado para aquela versão de Helena.

Porque a Helena original jamais teria respondido.

Jamais.

Ela teria abaixado a cabeça.

Pedido desculpas.

Talvez chorado.

Elisa tinha outros planos.

— Está se sentindo bem? — perguntou Beatriz com desconfiança.

— Considerando que morri em uma explosão e acordei dentro de um romance ruim? Não muito.

— Como é?

— Nada. Comentário interno.

A mulher franziu a testa.

Era possível praticamente ouvir as engrenagens tentando entender o que estava acontecendo.

— Helena, espero que não esteja esquecendo sua posição nesta casa.

Elisa sorriu novamente.

— Qual delas? Esposa? Nora? Moradora perdida tentando achar a saída? Porque no momento estou acumulando funções.

Uma empregada virou o rosto para esconder o riso.

Beatriz claramente ouviu.

E claramente não gostou.

— Estou falando sério.

— Eu também.

— Sua atitude está inadequada.

— Sua decoração também, mas eu estava tentando ser educada.

A mulher ficou vermelha.

Literalmente vermelha.

Por alguns segundos pareceu incapaz de formular uma resposta.

Elisa sentiu uma satisfação tão profunda que quase quis comemorar.

Anos lendo histórias e finalmente tinha a oportunidade de responder uma sogra infernal.

Era terapêutico.

— Helena, você está passando dos limites.

— Ah, então eles existem? Que bom saber. Porque ninguém me entregou o mapa.

O silêncio voltou.

Mais pesado.

Mais absurdo.

Mais engraçado.

Uma das empregadas estava claramente lutando para não gargalhar.

Beatriz parecia prestes a explodir.

— Vou conversar com meu filho sobre isso.

— Ótimo. Aproveita e pergunta onde fica a saída. Estou procurando faz meia hora.

A mulher abriu e fechou a boca várias vezes.

Nenhum som saiu.

Foi um momento histórico.

Talvez a primeira vez em décadas que alguém a deixava sem resposta.

Elisa quase ficou emocionada.

Quase.

Então ouviu passos.

Passos masculinos.

Firmes.

Seguros.

Aproximando-se pelo corredor.

O sorriso desapareceu lentamente do rosto de Beatriz.

As empregadas ficaram tensas.

E Elisa sentiu um arrepio percorrer sua espinha.

Porque ela conhecia aqueles passos.

Mesmo sem vê-lo.

Mesmo antes de virar a cabeça.

Sabia exatamente quem estava chegando.

O CEO insuportável havia entrado em cena.

E infelizmente seu plano de fuga tinha falhado antes mesmo de encontrar a porta da frente.

Capítulo 3 — O CEO Insuportável

O corredor mergulhou em um silêncio desconfortável quando os passos finalmente pararam atrás de Elisa. O som firme dos sapatos ecoou pelo mármore da mansão, fazendo até as empregadas ficarem tensas. Beatriz, que há poucos instantes parecia prestes a explodir de raiva, imediatamente assumiu uma expressão vitoriosa. Elisa, por outro lado, sentiu uma pontada de irritação. Ela não precisava se virar para saber quem havia chegado. Conhecia aquele momento, aquela presença e, infelizmente, aquele homem.

Quando finalmente olhou para trás, encontrou Arthur Vasconcelos parado no fim do corredor. Alto, elegante e vestido com um terno impecável, ele parecia exatamente como a autora o descrevera. Era o tipo de homem que fazia personagens secundárias perderem o fôlego apenas por existir. O problema era que Elisa já conhecia o conteúdo por trás daquela embalagem bonita. Para ela, Arthur era como um presente luxuoso que escondia um tijolo dentro. Quanto mais o observava, mais sentia vontade de perguntar se o cérebro dele havia sido vendido separadamente.

— Vejo que resolveu sair do quarto. — A voz dele saiu fria, como se estivesse comentando sobre o clima.

Elisa cruzou os braços e inclinou a cabeça.

— Vejo que continua distribuindo simpatia igual um cobrador distribuindo multa.

Os olhos dele se estreitaram imediatamente.

— O que foi?

— Nada. Só estava admirando o milagre da natureza.

— Que milagre?

— Um homem tão bonito conseguir ser tão insuportável.

Beatriz quase engasgou.

Arthur ficou em silêncio por alguns segundos, claramente tentando entender se aquela era realmente Helena. Infelizmente para ele, aquela era Helena e não era ao mesmo tempo. A mulher que costumava abaixar a cabeça havia desaparecido junto com o helicóptero que caiu sobre Elisa. No lugar dela existia alguém que tinha opiniões. Muitas opiniões. Principalmente opiniões negativas sobre CEOs arrogantes.

— Venha comigo. — A ordem veio seca.

— Nossa. Que convite emocionante.

— Agora.

— Certo, cavaleiro do mau humor.

Arthur virou as costas sem responder e começou a caminhar pelo corredor. Elisa o seguiu enquanto observava aquela postura séria e arrogante. Então uma lembrança surgiu em sua mente como um soco. O capítulo da escada. A cena que havia feito seu sangue ferver quando estava lendo o livro. O capítulo em que Sofia e Helena caíam da escadaria e Arthur escolhia socorrer apenas a amantezinha de estimação.

Quanto mais se lembrava da cena, mais irritada ficava. Ela recordava perfeitamente da revolta que sentiu ao ler aquelas páginas. Helena estava machucada, caída e inconsciente, mas Arthur correu diretamente para Sofia sem sequer olhar para a esposa. Depois ainda teve a audácia de acreditar em todas as mentiras contadas pela rival. Na época, Elisa havia quase arrancado os próprios cabelos de tanta raiva. Agora ela teria a oportunidade de dizer tudo aquilo diretamente na cara do sujeito.

O escritório parecia tão desagradável quanto o dono. Móveis caros, decoração elegante e um clima tão acolhedor quanto uma sala de interrogatório. Arthur caminhou até a mesa enquanto Elisa permaneceu perto da porta. Ela não tinha intenção de se acomodar. Quanto menos tempo passasse naquele lugar, melhor para sua saúde mental. Afinal, respirar o mesmo ar que Arthur já era uma experiência desgastante.

— Você sabe por que está aqui? — perguntou ele.

— Porque me perdi tentando achar a saída da mansão?

Arthur apertou a mandíbula.

— Estou falando sobre Sofia.

— Ah, claro. A princesa do drama.

— Sofia está ferida.

— Eu também estava.

— Ela quase quebrou o braço.

— Eu quase quebrei a paciência. E olha que isso é mais grave.

Arthur respirou fundo.

Bem fundo.

Do tipo que as pessoas dão quando estão tentando não cometer um crime.

— Sofia me contou o que aconteceu.

— Que emocionante.

— Ela disse que você a empurrou.

Elisa encarou o teto.

Depois encarou a parede.

Depois encarou Arthur.

Por fim soltou uma gargalhada.

Uma gargalhada verdadeira.

Daquelas que fazem lágrimas aparecerem nos olhos.

Arthur claramente não gostou.

— Está achando engraçado?

— Muito.

— Posso saber por quê?

— Porque você acreditou nela.

— Sofia não mentiria.

— Claro.

Ela bateu palmas lentamente.

— E eu sou uma fada madrinha.

Arthur fechou os olhos por um segundo.

Aparentemente estava rezando por paciência.

— Helena.

— Arthur.

— Estou falando sério.

— Eu também.

Elisa começou a andar pelo escritório enquanto falava.

— Duas pessoas caíram daquela escada.

— Sim.

— Uma delas era sua amiga.

— Sim.

— A outra era sua esposa.

— Sim.

— Então me explica uma coisa.

Ela parou diante da mesa.

— Seu cérebro entrou em greve naquele dia?

Arthur ficou imóvel.

— O quê?

— Estou perguntando educadamente.

— Isso não foi educado.

— Tem razão.

Ela sorriu.

— Seu cérebro foi sequestrado por quadrúpedes?

O silêncio que se seguiu foi glorioso.

Arthur simplesmente ficou olhando para ela.

Sem palavras.

Sem reação.

Sem nada.

Talvez porque nunca em sua vida alguém tivesse o chamado de quadrúpede.

— Está me insultando?

— Não.

— Não?

— Estou tentando entender o fenômeno científico.

Arthur parecia cada vez mais próximo de explodir.

Elisa estava adorando.

— Você ouviu uma versão da história e decidiu que ela era verdade absoluta.

— Sofia não tem motivos para mentir.

— E eu não tenho motivos para empurrá-la.

— Vocês discutiram.

— Então agora discutir virou tentativa de assassinato?

Ela levou uma das mãos ao peito.

— Meu Deus. Vou ser presa toda vez que discutir na internet.

Arthur apertou a ponte do nariz.

Claramente arrependido de ter iniciado aquela conversa.

— Você mudou.

— Obrigada.

— Não foi um elogio.

— Continua sendo a coisa mais gentil que ouvi hoje.

Por um momento os dois ficaram em silêncio. Arthur a observava como se estivesse olhando para uma estranha. E talvez estivesse. Porque aquela mulher não chorava, não implorava e não aceitava acusações calada. Aquela mulher parecia determinada a transformar cada conversa em uma experiência traumática para ele.

— Você deveria pedir desculpas para Sofia. — declarou ele.

Elisa piscou.

Uma vez.

Duas vezes.

Três vezes.

Depois começou a rir novamente.

— Você está brincando.

— Não estou.

— Ah, você está falando sério.

Ela apoiou as mãos na mesa.

— Então realmente não existe atividade cerebral aí dentro.

— Helena!

— O quê?

— Chega.

— Certo.

Ela levantou as mãos em rendição.

— Vou reformular.

Arthur pareceu aliviado.

Durou dois segundos.

— Você é um idiota.

O alívio desapareceu.

— Como disse?

— Idiota.

Ela apontou para ele.

— Daqueles bem completos.

— Helena.

— Com certificado.

— Helena.

— Com moldura.

— CHEGA!

O grito ecoou pelo escritório.

Elisa permaneceu imóvel.

Então abriu um sorriso.

— Viu?

Arthur respirava pesadamente.

— O quê?

— Você consegue levantar a voz para mim.

Ela inclinou a cabeça.

— Engraçado como nunca levanta para defender sua esposa.

Pela primeira vez o sorriso desapareceu.

O humor desapareceu junto.

Porque aquela era a verdadeira ferida da Helena original.

E mesmo Elisa conseguia sentir o peso dela.

Arthur também ficou em silêncio.

Um silêncio estranho.

Incômodo.

Pesado.

Então Elisa se afastou da mesa e caminhou até a porta.

Já estava cansada daquela conversa.

Cansada daquele homem.

Cansada daquele livro inteiro.

Quando segurou a maçaneta, virou apenas o suficiente para olhá-lo pela última vez.

— Ah, e Arthur?

Ele ergueu os olhos.

— O quê?

Elisa abriu o sorriso mais doce que conseguiu.

— Se um dia Sofia cair de um penhasco, verifica primeiro se ela não se jogou sozinha.

A porta se fechou atrás dela.

E Arthur permaneceu sozinho no escritório.

Imóvel.

Exatamente como um belo e elegante pedaço de madeira.

O que, na opinião de Elisa, era o estado natural dele.

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