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Uma Noite e um Bebê

capítulo 1

Meu nome é Noa. Tenho 23 anos e cresci em uma mansão na ensolarada Florida, dessas que parecem perfeitas por fora: jardins impecáveis, carros caros na garagem e jantares silenciosos onde cada talher fazia mais barulho que as pessoas.

Mas casas bonitas também sabem esconder fantasmas.

Minha mãe morreu quando eu tinha cinco anos. Câncer. A palavra ainda amarga na minha garganta como café queimado. Eu lembro pouco dela, fragmentos apenas: o cheiro doce do perfume, os cabelos cacheados iguais aos meus e a forma como ela segurava minha mão como se pudesse proteger o mundo inteiro dali.

Meu pai não demorou muito para se casar de novo.

Rápido demais.

Na época eu era só uma criança, mas hoje, olhando para trás, certas peças começam a se encaixar de um jeito perturbador. Minha madrasta apareceu na nossa vida quase como alguém que já conhecia o caminho da casa. E junto dela veio sua filha.

Minha meia-irmã.

No começo tentei gostar dela. Sério. Eu queria uma irmã. Queria alguém para dividir segredos, roupas, besteiras adolescentes… mas ela nunca quis dividir nada comigo. Ela queria ocupar meu lugar.

E o mais estranho?

Ela parecia muito com meu pai.

Na época não percebi. Crianças não enxergam rachaduras, só paredes inteiras. Mas hoje… hoje isso me atormenta.

Meu pai costumava ser um homem bom. Ou talvez eu apenas acreditasse nisso porque precisava acreditar. Depois do casamento, ele mudou aos poucos. Primeiro vieram as broncas injustas. Depois os olhares frios. E então ele simplesmente deixou minha madrasta envenenar tudo entre nós, gota por gota, como quem pinga veneno em vinho caro.

Nós éramos uma família poderosa. Meu pai tinha uma empresa de transporte extremamente respeitada. Minha mãe vinha de uma família tradicional, antiga, rica. Dinheiro velho. Daquele que não precisa provar nada.

E minha madrasta sabia disso.

Ela queria o dinheiro da minha mãe.

Mas minha mãe era inteligente.

Antes de morrer, colocou tudo no meu nome. Casas, investimentos, heranças… tudo protegido legalmente para que meu pai nunca pudesse tocar. Às vezes penso que ela já sabia. Talvez mães sintam certas tragédias antes delas acontecerem.

E sinceramente?

Acho que foi por isso que minha madrasta passou a me odiar.

Porque eu sou a lembrança viva da mulher que veio antes dela.

Tenho um metro e sessenta, pele branca, corpo violão herdado da minha mãe e uma relação complicada com doces. Amo academia, mas nunca recusaria um brownie quente às duas da manhã. Meus cabelos cacheados caem pelas costas como ondas rebeldes e meus olhos… meus olhos são idênticos aos da minha mãe. Todo mundo comenta isso.

Inclusive minha madrasta.

Com aquele sorriso fino de cobra descansando ao sol.

Sou alegre, espontânea e não aprendi a abaixar a cabeça para ninguém. Falo o que penso. Defendo quem amo. E odeio gente que usa dinheiro para humilhar os outros. Ter privilégios nunca me deu o direito de pisar em ninguém.

Mas aparentemente algumas pessoas da minha família discordam disso.

E então existe Sebastian.

Meu noivo.

Sebastian é bonito, educado, inteligente… o tipo de homem que entra numa sala e faz todo mundo olhar. Ele sempre sabe o que dizer, quando sorrir e como agir.

Perfeito demais.

Às vezes acho que ele me ama.

Outras vezes… acho que ele ama tudo o que vem comigo.

E existe algo que me incomoda mais do que deveria: ele e minha meia-irmã são próximos demais.

Risadinhas baixas. Conversas interrompidas quando eu apareço. Olhares rápidos que desaparecem antes que eu consiga entender.

Talvez seja paranoia.

Ou talvez minha vida inteira tenha sido construída em cima de mentiras tão bem enterradas que agora estão começando a sair da terra… como flores venenosas depois da chuva.

E essa é só a primeira parte da minha história.

(noa)

capítulo 2

As brigas entre mim, minha madrasta e minha meia-irmã eram praticamente parte da decoração da casa. Tinham dias em que o silêncio da mansão parecia vidro prestes a quebrar. Bastava uma palavra errada no café da manhã e pronto… começava outra guerra.

E meu pai?

Sempre do lado delas.

No começo eu chorava. Depois passei a discutir. Hoje em dia… eu simplesmente não sinto mais nada. É estranho perceber que o amor pode morrer aos poucos, como uma vela esquecida queimando no escuro até virar fumaça.

Minha madrasta fazia de tudo para convencer meu pai a entrar na justiça contra mim por causa da herança da minha mãe. Ela falava como se aquele dinheiro fosse dela por direito.

Mas não era.

Nunca seria.

Enquanto isso, a empresa do meu pai começava a afundar devagar. Ele quase não aparecia lá. Preferia viajar com a esposa nova, atender caprichos dela, comprar joias, carros, roupas absurdamente caras… tudo para manter aquela mulher satisfeita.

E ela adorava isso.

Minha madrasta era o tipo de pessoa que confundia luxo com poder.

Só que dinheiro não é magia. Uma hora a conta chega.

Então eu fiz o que sempre faço quando tudo desmorona: foquei em mim.

Não tenho amigas de verdade. Nunca consegui confiar totalmente em ninguém. Minha vida sempre pareceu um aquário cheio de tubarões usando sorriso de gente rica. Então sobrou apenas eu… e Sebastian.

Mesmo com minhas dúvidas sobre ele, ainda era a única pessoa que parecia ficar ao meu lado.

Eu estudei fora durante anos. Foi a melhor fase da minha vida. Longe daquela casa, longe das manipulações, longe dos jantares venenosos. Fiz faculdade de design de interiores e artes, duas coisas que amo profundamente. Sempre gostei de transformar lugares frios em espaços vivos. Talvez porque nunca consegui fazer isso com minha própria casa.

Aprendi outras línguas também. Inglês, espanhol, italiano, francês… idiomas diferentes, mesmas mentiras humanas. Engraçado como pessoas conseguem trair você em qualquer língua existente.

Mesmo vivendo no meio da alta sociedade, eu nunca fui fútil. Gosto de academia, gosto de me cuidar, tenho uma vida bem ativa… apesar do meu amor quase criminoso por doces. Cupcake, brownie, cheesecake… meu ponto fraco cabe inteiro numa confeitaria elegante.

E sim, tenho um corpo violão que chama atenção sem muito esforço.

Herança genética da mamãe.

Minha meia-irmã, por outro lado, era o completo oposto de mim.

Ela largou duas faculdades.

Duas.

Nunca terminava nada que começava porque estava ocupada demais gastando o dinheiro do meu pai em bolsas caras, festas absurdas e homens diferentes toda semana. E minha madrasta apoiava tudo, como se irresponsabilidade fosse traço de personalidade refinada.

As duas viviam como se o dinheiro fosse infinito.

Como se nossa família fosse um castelo impossível de cair.

Mas eu via as rachaduras.

Contas atrasadas escondidas.

Funcionários antigos pedindo demissão.

Reuniões tensas.

Meu pai bebendo mais do que antes.

A casa continuava enorme, luxuosa e impecável por fora… lustres brilhando, mármore reluzente, jardins perfeitos.

Mas por dentro?

Parecia um navio bonito afundando lentamente no meio do oceano.

E ninguém percebia que talvez eu fosse a única pessoa tentando não afundar junto.

Meia irmã Estela

capítulo 3

Conheci Sebastian em um jantar beneficente daqueles cheios de gente importante fingindo humildade enquanto segurava taças de champanhe mais caras que um aluguel inteiro.

Eu odiava aquele tipo de evento.

Vestidos apertados, sorrisos falsos e conversas tão vazias que pareciam ecoar pelo salão. Eu estava quase inventando uma dor de cabeça para ir embora quando Sebastian apareceu.

E pela primeira vez naquela noite alguém parecia… real.

Ele conversou comigo como se eu fosse uma pessoa normal e não “a filha herdeira da família Beaumont”. Falamos sobre arte, viagens, música e até discutimos qual sobremesa era melhor. Ele defendia tiramisù com uma paixão quase ofensiva.

Acabei rindo mais naquela noite do que nos últimos meses.

Depois disso começamos a nos encontrar com frequência. Jantares, viagens curtas, ligações de madrugada… tudo aconteceu de forma natural. Pela primeira vez em muito tempo senti que alguém me enxergava além do dinheiro da minha família.

Dois anos depois ele me pediu em noivado.

Foi em um restaurante à beira-mar, iluminado por velas e pelo reflexo dourado da lua na água. Parecia cena de filme romântico demais para ser real. Quando ele se ajoelhou e abriu a caixa do anel, meu coração parecia um passarinho preso tentando escapar pelas costelas.

E eu disse sim.

Hoje somos noivos.

Mas existe algo sobre mim que poucas pessoas entenderiam.

Nós ainda não fomos “para os finalmentes”.

Não porque eu não o ame.

E também não porque ele nunca tenha tentado me tocar. Sebastian me beija, segura minha cintura, acaricia meu rosto… às vezes sinto o desejo nos olhos dele queimando baixo, silencioso, como uma lareira acesa numa casa vazia.

Mas eu simplesmente não me sinto pronta.

Quero esperar até o casamento.

Talvez seja clichê. Antigo. Conservador demais para os tempos de hoje. Mas é algo importante para mim. Não foi pressão religiosa nem imposição da minha família. Foi uma escolha minha.

Meu corpo sempre foi muito observado pelas pessoas. Comentários, olhares, comparações com minha mãe… cresci sentindo que tudo em mim era analisado como uma obra em exposição.

Então talvez eu queira que a primeira vez seja minha decisão completa. Sem pressão. Sem medo. Sem dúvidas.

E Sebastian… ele espera.

Às vezes percebo certa frustração escondida nele, rápida como sombra passando pela parede. Mas ele nunca me forçou a nada. Nunca ultrapassou meus limites.

Pelo menos não até agora.

E no fundo eu penso:

Se ele realmente me ama, então vai continuar esperando.

Porque amor de verdade não deveria funcionar como relógio em contagem regressiva.

Nos dávamos muito bem.

De verdade.

Sebastian sempre foi paciente comigo, carinhoso, atento aos detalhes. Ele sabia exatamente como me acalmar depois de uma briga com minha madrasta. Sabia quando eu precisava de silêncio e quando precisava fugir daquela casa sufocante para comer sobremesa às duas da manhã numa cafeteria qualquer.

Por isso comecei a perceber quando ele mudou.

Foi aos poucos.

Primeiro vieram as mensagens demoradas. Depois as ligações encerradas quando eu entrava no cômodo. Pequenas ausências. Pequenos silêncios. Pequenas rachaduras.

Sebastian começou a parecer distante mesmo estando ao meu lado.

Às vezes eu o pegava olhando para o nada, perdido em pensamentos. Outras vezes ele parecia irritado sem motivo. Quando eu perguntava o que estava acontecendo, ele apenas dizia:

“É o estresse do casamento.”

Mas minha intuição nunca falhou comigo.

E ela gritava dentro da minha cabeça como alarme de incêndio.

Tem alguma coisa acontecendo.

Ele ainda me beijava.

Ainda segurava minha mão.

Ainda dizia que me amava.

Mas parecia automático às vezes. Como alguém repetindo falas decoradas num teatro caro demais para abandonar no meio da peça.

E então comecei a notar outras coisas.

Minha meia-irmã sorrindo demais perto dele.

Sebastian defendendo ela em discussões bobas.

Os dois trocando olhares rápidos que desapareciam no segundo em que eu percebia.

Talvez eu estivesse paranoica.

Talvez anos vivendo naquela casa tenham me transformado numa pessoa desconfiada demais.

Mas teve uma noite específica que não consegui esquecer.

Eu estava descendo as escadas para pegar água quando ouvi vozes baixas vindas da cozinha. Sebastian e minha irmã estavam lá dentro. Não consegui entender a conversa inteira, apenas risadas abafadas e então silêncio repentino quando perceberam minha presença.

Minha irmã sorriu primeiro.

Aquele sorriso dela… bonito por fora e venenoso por dentro.

Sebastian parecia nervoso.

Disse que estavam apenas conversando sobre o casamento.

Eu fingi acreditar.

Mas naquela noite, deitada na cama enorme do meu quarto, encarando o teto escuro, senti algo estranho apertando meu peito.

Como se minha vida estivesse prestes a virar de cabeça para baixo.

E o pior?

Uma parte de mim já sabia disso antes mesmo da verdade aparecer.

Noivo Sebastian.

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