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A Esposa Virgem do CEO Adormecido

Capítulo 1

O cheiro de antisséptico e flores brancas era sufocante. Não era assim que Letícia Silva imaginava o dia do seu casamento. Não havia igreja, não havia marcha nupcial, e não havia um noivo de pé à sua espera no altar com um sorriso amável no rosto.

Em vez disso, o cenário era o quarto principal da mansão dos Norton, transformado em um quarto hospitalar de última geração. No centro do quarto, cercado por monitores que bipavam em um ritmo monótono, estava o rosto marcante de Daniel Norton. O homem que um dia foi chamado de "O Rei dos negócios", o CEO cuja frieza e prepotência eram tão famosas quanto sua fortuna, agora era apenas uma silhueta imóvel sob os lençóis de seda egípcia.

O homem que não se curvava a ninguém, que sufocava seus inimigos apenas com seu olhar sombrio e congelante, e que agora se tornaria marido de uma mulher totalmente diferente e desconhecida.

 — Podemos começar? — A voz do juiz de paz soou impaciente. Ele segurava a papelada da procuração, os documentos que selariam o destino de Letícia e de Daniel.

Letícia respirou fundo, sentindo o peso da responsabilidade. Ela olhou para o lado e viu o advogado da família, um homem de rosto severo que não escondia o desprezo por ela. Para os Norton, ela era a filha do traidor. O homem que, aproveitando-se do estado vegetativo de Daniel, desviara milhões da empresa e desaparecera no mundo, deixando apenas um rastro de destruição e uma filha para trás.

Para a família Norton, ter Letícia por perto, era mais fácil para monitorar cada um de seus passos e garantir que a dívida de sangue deixada por seu pai fosse paga com juros.

— Sim — Letícia respondeu, a voz quase um sussurro, mas firme o suficiente para cortar o silêncio estéril do quarto.

Ela se aproximou da cama. A mão de Daniel estava sobre o lençol; os dedos, antes acostumados a assinar contratos bilionários e comandar impérios, estavam pálidos e inertes. Ela hesitou por um segundo antes de tocar a pele fria dele. Não havia calor, não havia resposta. Apenas o bipe incessante do monitor cardíaco, que parecia zombar daquela união sem alma.

O advogado, Dr. Klaus Arantes, pigarreou, estendendo a caneta tinteiro como se fosse uma arma.

— Assine aqui, Letícia. Lembre-se: este casamento é um contrato de reparação. Você não é uma noiva, é uma garantia. Seus direitos como esposa estão estritamente limitados à manutenção da imagem de Daniel e à quitação da fraude de seu pai. Qualquer tentativa de fuga ou má conduta, e as provas que temos contra o seu progenitor serão entregues à polícia imediatamente. Você cuidará de Daniel Norton todos os dias sem murmurações ou intervalos. Não receberá salário ou algo do tipo. Apesar de ser a senhora Norton no papel, na prática, será apenas uma empregada que trabalhará noite e dia em prol da recuperação do Sr. Daniel. Saiba que se não fosse o patriarca, Sr. Carlos Norton, você iria pagar no lugar do seu pai, mas o velho decidiu que a puniria, fazendo-a casar com o neto dele.

Letícia sentiu o nó na garganta apertar. Ela olhou para o rosto de Daniel. Mesmo em coma, as sobrancelhas dele pareciam levemente franzidas, mantendo aquela aura de autoridade inabalável. Diziam que ele era um monstro em vida; agora, era um fantasma que a mantinha prisioneira em um castelo de ouro.

Com a mão trêmula, ela assinou o documento.

Letícia Silva Norton.

Assim que a última letra foi traçada, o juiz de paz fechou a pasta com um baque seco.

— Declaro-os casados.

O juiz e o advogado saíram do quarto sem uma palavra de felicitação, deixando-a sozinha com seu novo marido. O silêncio voltou a ser preenchido apenas pelos aparelhos. Letícia sentou-se na beira da cama, observando o homem que agora era o dono de sua vida.

— Sinto muito por isso, Daniel — ela sussurrou, as lágrimas finalmente vencendo a barreira de seus olhos. — Eu não queria que as coisas fossem assim e você certamente não queria uma esposa como eu.

Ela não percebeu, mas por uma fração de segundo, o ritmo do monitor cardíaco oscilou. O "Rei dos negócios" estava mergulhado na escuridão, mas, nas profundezas de sua consciência suspensa, uma voz desconhecida e doce havia acabado de perfurar o seu vazio.

Lá fora, a tempestade começava a cair, e dentro da mansão Norton, o jogo de poder estava apenas começando. Letícia acreditava ser a peça de sacrifício, mas ela ainda não sabia que, naquele tabuleiro, até um rei caído pode esconder um xeque-mate.

Letícia foi até a janela e observou a chuva molhar a terra seca. Enquanto ela refletia sobre o peso da sua nova vida, a porta do quarto rangeu, anunciando que alguém havia entrado.

-- Letícia, agora você faz parte da nossa família. -- Ela se virou e olhou para o homem idoso e muito experiente.

-- Sr. Carlos, estou aqui para atender ao seu neto. Prometo que cuidarei bem dele.

O homem sorriu caminhando devagar até ela. Letícia logo se apressou e o ajudou a sentar na poltrona que ficara ao lado da cama.

-- Eu sei minha querida que vai cuidar bem do Daniel. Mas sei que as coisas não serão nada fáceis para você. Eu, como chefe maior dessa família, pedi que punissem você dessa forma, porque sei que eles fossem te punir, não teriam nenhum um pouco de misericórdia. Sei que você não deve pagar pelo crime que seu pai cometeu, mas o restante da família não pensa como eu. E já estou velho, não posso te proteger, não tenho mais força e saúde mesmo sabendo que é uma pessoa inocente. Mas seja forte. Eu acredito que dias melhores virão.

Letícia deixou uma lágrima solitária escapar pelo seu rosto.

-- Obrigada senhor Norton. Também acredito que dias melhores virão.

Nesse momento, a mãe de Daniel entrou no quarto.

-- Pai, o que está fazendo aqui com essa empregadinha. Não se aproxime dela. Letícia é igual ao pai. Só aceitei esse casamento com o meu filho, porque queria que ela começasse a pagar pela conta do pai. Aquele ladrão miserável, fez um rombo na empresa do meu filho. Mas você pagará pelos pecados do teu pai.

-- Chega, Kátia. Ela já está sofrendo muito. Ter um pai assim e ainda ser obrigada a casar sem a vontade dela. Acha que isso não é o suficiente?

Capítulo 2

— Suficiente? — Kátia soltou uma risada amarga, os olhos faiscando de ódio enquanto se aproximava de Letícia com passos calculados.

— Papai, o dinheiro que o pai dela roubou financiava pesquisas de ponta, as mesmas que poderiam ter evitado que o Daniel estivesse preso a essas máquinas. Para mim, a vida dela não vale um décimo do que perdemos.

Kátia parou a poucos centímetros de Letícia, o perfume caro e agressivo tentando sufocar a fragrância de flores brancas do quarto.

— A partir de hoje, Letícia, você esquece que tem sobrenome. Você vai higienizá-lo, vai virá-lo para que não tenha escaras, vai ler os relatórios financeiros para ele, mesmo que ele não ouça. E ai de você se eu encontrar um grão de poeira neste quarto. Você é a guardiã de um corpo vazio, e será a sua própria carcerária.

Carlos Norton suspirou, fechando os olhos com cansaço. Ele fez um sinal discreto para Letícia, um pedido silencioso de paciência.

— Saia, Kátia. Deixe a menina começar o trabalho dela.

Com um último olhar de desprezo, a mãe de Daniel deu as costas e saiu, o som de seus saltos estalando contra o piso de mármore como chicotadas. Carlos levantou-se com dificuldade, recusando a ajuda de Letícia desta vez.

-- O segredo da sobrevivência nesta casa, minha querida, é o que você diz no silêncio — ele sussurrou antes de sair. — Não desista dele.

A porta se fechou. Letícia estava novamente a sós com o "Rei".

As horas seguintes foram um borrão de instruções técnicas deixadas pela equipe de enfermagem que agora apenas supervisionaria o trabalho dela. Letícia aprendeu a manusear as sondas, a verificar a pressão arterial e a limpar a pele de Daniel.

Era quase meia-noite quando ela finalmente terminou a primeira rodada de cuidados. Exausta, ela se sentou em uma poltrona ao lado da cama. O quarto estava na penumbra, iluminado apenas pelo brilho azulado dos monitores e um pequeno abajur que mal iluminava.

— Eles acham que eu sou como ele, Daniel — ela disse baixinho, olhando para o perfil imóvel do marido. — Mas meu pai me deixou para trás tanto quanto deixou vocês. Eu não tenho o dinheiro. Eu só tenho... isso.

Ela estendeu a mão e, movida por um impulso de solidão, tocou o rosto dele, contornando a linha da mandíbula tensa.

— Se você pudesse me ouvir, provavelmente me expulsaria daqui com um olhar, não é? O grande Daniel Norton não aceitaria ser cuidado por uma "garantia" de dívida.

Algumas semanas depois.

Certa manhã Letícia foi acordada por um balde de água fria — metafórico, mas doloroso. Kátia entrou no quarto com um uniforme de governanta nas mãos.

— Vista isso. Temos convidados para o almoço e você servirá a mesa. Quero que todos vejam o que acontece com gente quando cruzam o caminho dos Norton.

Letícia pegou o tecido áspero, sentindo o peso da humilhação. Kátia era cruel e queria exibir sua nova "empregada" somente para se sentir no controle.

Letícia foi para cozinha e ajudou as cozinheiras a preparar a comida. Enquanto isso, Danilo Norton, irmão de Daniel apareceu.

--- Cunhadinha -- ele disse se aproximando de Letícia. -- Você está tão sexy com esse uniforme de empregada. Meu irmão não pode te saciar na cama, mas eu posso. Hoje a noite venha ao meu quarto.

Letícia não respondeu. Ela estava tão concentrada na preparação de um arroz à grega que as palavras de Danilo foram como sussurros distantes que ela não compreendeu.

-- Vadia, eu estou falando com você -- Danilo segurou forte o braço dela , assustando-a.

-- Quem é você? Me solta. -- Letícia o empurrou, não o reconhecendo de imediato.

Danilo soltou uma risada anasalada, os olhos percorrendo Letícia com uma mistura de escárnio e desejo predatório. Ele não parecia nem um pouco intimidado pelo empurrão; pelo contrário, a resistência parecia diverti-lo.

— Quem sou eu? — Ele deu um passo à frente, encurralando-a contra a bancada de mármore onde os legumes picados esperavam. — Sou o Danilo Norton, CEO do grupo Norton e que ainda respira por conta própria, querida. O Norton que pode tornar sua vida um céu ou um inferno nesta casa. Diferente do meu irmão, que é só um peso morto lá em cima, eu posso te dar o que uma mulher jovem como você realmente precisa.

Danilo estava a frente da empresa, enquanto Daniel estava em coma.

Letícia sentiu o estômago revirar. O contraste entre a elegância fria de Carlos e a vulgaridade agressiva de Danilo era nauseante. Ela ajeitou a gola do uniforme áspero, tentando manter a voz firme apesar do tremor nas mãos.

— Eu sou a esposa do seu irmão, Danilo. E, para todos os efeitos, sou sua cunhada. Tenha o mínimo de decência.

— Esposa? — Danilo soltou uma gargalhada alta, atraindo os olhares nervosos das cozinheiras e empregadas, que rapidamente voltaram a baixar a cabeça. — Você é um troféu de guerra. Uma forma de pagamento. Não se dê tanta importância.

Ele se aproximou novamente, diminuindo a distância até que ela pudesse sentir o cheiro de álcool e perfume caro.

— O Daniel sempre teve o melhor de tudo: as melhores notas, os melhores carros, a empresa... e agora, a mulher mais bonita. Mas veja só como o destino é engraçado. Ele ficou com o silêncio, e eu fiquei com o resto. Tudo que pertencia a ele, agora me pertence, incluindo você.

Antes que ele pudesse tocá-la novamente, a voz de Kátia ecoou do corredor, cortante como vidro quebrado:

— Danilo! Pare de perder tempo com os empregados. Os convidados acabaram de chegar.

Danilo se afastou lentamente, passando o polegar pelo lábio inferior enquanto encarava Letícia.

— A gente termina essa conversa mais tarde, "cunhadinha". Te espero no meu quarto. Não se atrase.

Ele saiu da cozinha com um passo arrogante, deixando para trás um rastro de tensão sufocante. Letícia respirou fundo, sentindo as lágrimas arderem nos olhos, mas ela as engoliu. Ela olhou para a panela de arroz à grega, as cores vibrantes dos pimentões agora parecendo cinzentas sob a luz da cozinha.

— Menina... — uma das cozinheiras mais velhas sussurrou, aproximando-se com cautela. — Tome cuidado. O senhor Danilo não aceita "não" como resposta. E a patroa... ela vê tudo, mas só enxerga o que quer.

Letícia assentiu em silêncio. Ela terminou de preparar a travessa e, sob o olhar vigilante de Kátia que apareceu na porta para supervisionar a "humilhação", equilibrou a bandeja pesada.

Capítulo 3

A grande mesa estava impecável. A elite da cidade estava sentada para o almoço, e o assunto, como Letícia previa, girava em torno da queda dos Silva e da tragédia de Daniel.

— Sirva o vinho primeiro, Letícia — ordenou Kátia, a voz cheia de um prazer sádico. — Comece pelo Dr. Arnaldo. E tente não derrubar nada. Seria uma pena ter que descontar do pouco que resta do nome do seu pai.

Letícia começou a circular pela mesa. Os olhares dos convidados eram como alfinetadas — alguns de pena, a maioria de um julgamento cruel. Ela manteve a cabeça erguida, focando apenas no movimento preciso de servir a bebida.

No entanto, quando ela se aproximou de Danilo, ele esticou a perna discretamente por baixo da mesa. Letícia tropeçou levemente, o vinho tinto oscilando perigosamente na garrafa. Por um milagre, ela recuperou o equilíbrio, mas o riso contido de Danilo foi audível para todos.

— Cuidado, querida — ele disse, com um brilho malicioso nos olhos. — Você parece cansada. Talvez precise de um "descanso" mais tarde.

O almoço foi um teste de resistência. A cada prato servido, a cada comentário ácido de Kátia sobre a "qualidade do serviço", Letícia sentia uma parte de sua antiga vida morrer. Mas, no fundo de sua mente, as palavras de Carlos Norton ecoavam: “O segredo da sobrevivência nesta casa é o que você diz no silêncio.”

Quando finalmente foi liberada, as pernas de Letícia pesavam como chumbo. Ela ignorou o caminho para o quarto de Danilo e subiu direto para o terceiro andar da mansão.

Ao entrar no quarto de Daniel, o silêncio era quase um abraço. O brilho dos monitores parecia mais acolhedor do que o brilho dos lustres de cristal lá embaixo. Ela se aproximou da cama e, sem dizer uma palavra, sentou-se ao lado dele.

— Eles são monstros, Daniel — ela sussurrou, a voz quebrada. — Todos eles. Querem me ver humilhada a todo momento. Será que um dia, isso vai passar?

Nesse momento, os olhos dela se fixaram no monitor cardíaco. A linha, que sempre seguia um padrão monótono e constante, deu um salto súbito. Um bipe rápido, diferente do habitual, ecoou no quarto.

Letícia congelou. Ela olhou para a mão de Daniel sobre o lençol. Por um milésimo de segundo, ela teve a impressão de que o dedo indicador dele havia se contraído.

— Daniel? — ela chamou, o coração disparado. — Você... você me ouviu?

Letícia prendeu a respiração, o silêncio do quarto tornando-se tão pesado que ela podia ouvir as batidas do próprio coração. O sol da tarde entrava pelas frestas das cortinas pesadas, desenhando linhas de poeira dourada que dançavam sobre o leito hospitalar.

— Daniel? — ela repetiu, a voz mal saindo da garganta. — Se você estiver aí... se puder me ouvir... por favor.

O monitor, no entanto, já havia retornado ao ritmo monótono e hipnótico de antes. A linha verde subia e descia com a precisão fria de uma máquina. A mão dele continuava pálida, os dedos imóveis sobre o lençol de fios egípcios. Não houve um segundo movimento. Não houve um piscar de olhos. Nada.

A esperança, que havia subido como uma labareda, começou a esfriar, transformando-se em uma dúvida dolorosa. Teria sido apenas um reflexo nervoso? Ou, pior, teria sido sua mente pregando peças, criando sinais onde só existia o vazio, desesperada por um aliado naquele hospício?

— Foi minha imaginação, não foi? — ela murmurou, soltando um suspiro trêmulo e cobrindo o rosto com as mãos. — Eu estou ficando louca como o resto dessa família.

Ela se levantou para organizar as bandejas de medicamentos, tentando afastar a sensação de estar sendo observada. O almoço lá embaixo tinha sido um desastre psicológico, e o encontro com Danilo na cozinha ainda fazia sua pele formigar de repulsa.

O silêncio do quarto foi subitamente quebrado por duas batidas secas na porta. Letícia deu um salto, o coração disparando. A porta se abriu e Danilo entrou, sem esperar permissão. Ele já não usava o paletó do almoço; as mangas da camisa estavam dobradas e ele exalava uma autoconfiança perversa.

— Fugindo do trabalho, cunhadinha? — Ele olhou para o irmão imóvel com um desprezo mal disfarçado antes de fixar os olhos nela. — A mamãe está lá embaixo reclamando que a prataria não foi polida. Mas eu disse a ela que você provavelmente estava... ocupada demais com o "Rei".

Ele caminhou pelo quarto com passos lentos, parando perigosamente perto dela.

— Sabe, Letícia, o silêncio deste quarto é perfeito para muitas coisas. — Danilo estendeu a mão, tentando tocar uma mecha do cabelo dela. — O Daniel não vai se importar. Ele nem sabe que você existe.

Letícia recuou, batendo as costas na lateral da cama de Daniel.

— Saia daqui, Danilo. Agora. Ou eu vou gritar e sua mãe saberá que você está importunando a "empregada" em vez de dar atenção aos convidados.

Danilo soltou uma risada curta, os olhos brilhando com malícia.

— Grite. Acha que ela vai acreditar em você ou no filho preferido? — Ele deu mais um passo, encurralando-a. — Eu vi como você me olhou na cozinha. Você está desesperada por proteção nesta casa. E eu sou o único que pode te dar isso. Eu vou estar te esperando no meu quarto hoje à noite. Se você for inteligente, aparecerá lá por vontade própria.

Ele se inclinou, sussurrando próximo ao ouvido dela:

— Caso contrário, eu farei questão de que a minha mãe encontre "erros" graves no seu cuidado com o Daniel. E você sabe o que acontece se ela achar que você é negligente, não sabe?

Com um último olhar predatório, Danilo deu as costas e saiu, fechando a porta com um estrondo que pareceu vibrar nos aparelhos de suporte à vida.

Letícia desabou sobre a poltrona, os joelhos trêmulos. Ela olhou para Daniel, o rosto dele ainda uma máscara de mármore sob a luz da tarde.

— Você viu, não viu? — ela sussurrou para o marido imóvel, as lágrimas finalmente vencendo a barreira de seus olhos. — Ele é um monstro. Eles vão me destruir se você não acordar.

Letícia soltou um suspiro pesado.

-- Mas também o que estou pensando? Se você acordar, marido, é claro que vai me humilhar igual aos outros.

Mas Daniel Norton permaneceu em seu abismo particular, e o único som no quarto era o sopro mecânico do respirador, indiferente ao desespero da mulher que agora era sua única barreira contra a crueldade da própria família.

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