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O Dono do Meu Destino

A Noite dos Lobos

📖 ATENÇÃO! Esse é o Livro 5 da série!

A continuação explosiva que revela verdades perigosas, emoções ainda mais intensas e um destino capaz de mudar tudo. ✨🔥

O primeiro livro se chama O sangue que nós condena

O ar-condicionado do Hospital Memorial Salazar, em Chicago, trabalhava no máximo, mas para Lian Salazar, o ambiente nunca estava frio o suficiente para igualar a temperatura de sua alma. Aos 33 anos, ele caminhava pelos corredores com a autoridade de um rei em um campo de batalha. O jaleco branco, impecavelmente passado, escondia as tatuagens que subiam pelo seu pescoço — marcas de uma vida que o hospital fingia não ver.

​— Dr. Salazar, os resultados da biópsia do leito 4... — uma enfermeira começou, mas parou ao ver o olhar gélido de Lian.

​— Estão na minha mesa há dez minutos, e você está cinco minutos atrasada para me entregar o relatório de evolução — ele cortou, sem diminuir o passo. — Se não consegue marcar o tempo, talvez deva trabalhar na recepção, não na minha ala.

​Lian era o terror dos funcionários, mas ao entrar no quarto 202, a máscara de gelo sofreu uma rachadura cirúrgica. Um senhor de idade o olhou com esperança. Lian sentou-se à beira da cama, a voz suavizando-se em um tom profissional, porém humano.

​— Sr. Thompson, a cirurgia foi um sucesso. Vou cuidar pessoalmente da sua recuperação descanse.

​Ali, ele era o orgulho de Logan Salazar, que administrou aquele lugar por 40 anos. Mas ao sair do quarto, o homem que um dia foi o "engraçadinho" da família, o jovem que fazia piadas durante o jantar de domingo, desapareceu. Cinco anos haviam se passado desde que Sarah, a mulher que ele idolatrava, explodiu seu mundo. Ela forjou a própria morte, fugiu com o amante e levou consigo a vida dos seus gêmeos.

​O trauma apagou a luz de Lian, nem mesmo Alice, a filha de cinco anos que sobreviveu a um destino cruel, conseguia atravessar os muros que ele construiu. Ele a amava, amava muito, mas olhar para ela era lembrar do que perdeu. Por isso, ela vivia com os avós.

​No final do turno, ele entrou em seu escritório particular. Lilian, uma enfermeira de curvas acentuadas, já o esperava, encostada na mesa com um sorriso de quem se sentia dona do território.

​— Você demorou, Lian... — ela sussurrou, deslizando a mão pelo peito dele.

​Ele não respondeu com palavras, apenas a prensou contra a madeira. Para Lian, era descarga de adrenalina, nada mais. Lilian gemia promessas de "ser a mulher certa para ele", tentando desesperadamente uma gravidez que nunca viria. Ela não sabia da vasectomia. Não sabia dos cinco fracassos em barrigas de aluguel que Lian tentou em segredo, sentindo que o universo o punia por não conseguir abraçar a filha que já tinha.

​A Noite dos Lobos

​A madrugada em Chicago não pertencia aos médicos, mas aos predadores. No subsolo de um armazém abandonado nas docas, o símbolo de um lobo rosnando estava pintado na parede.

​Lian trocara o bisturi por um par de soqueiras de metal.

​Preso a uma cadeira, um soldado do cartel tremia, coberto de sangue. Ele havia roubado um carregamento. Ao lado de Lian, seus primos observavam. Elijah, o ortopedista e vice-diretor do hospital, mantinha uma expressão neutra, embora seus dedos batessem impacientes no joelho. Ethan, o CEO da rede de varejo da família, fumava um charuto, a luz da brasa iluminando seu rosto sério.

​— Eu confiei em você — a voz de Lian era um sussurro que causava mais medo que um grito.

​— Chefe, por favor... eu precisava do dinheiro...

​— Todos precisamos de algo, eu precisava que meus filhos estivessem vivos, e o mundo não me deu isso — Lian sorriu, mas não havia alegria ali.

​O que se seguiu fez até Elijah desviar o olhar. Com a precisão de um cirurgião, Lian não golpeou ao acaso. Ele usou o conhecimento de anatomia para infligir o máximo de dor, atingindo nervos e articulações de forma que o homem implorasse pela morte, mas permanecesse consciente.

​— Lian... basta — Ethan murmurou, vendo o primo coberto pelos respingos vermelhos. — Ele já entendeu.

​Lian parou, a respiração sequer alterada. Ele limpou o sangue do rosto com um lenço de seda branca.

​— Joguem o que sobrar dele no rio.

​Ele saiu do armazém sob o luar. Em sua mente, a imagem de dois meninos de cinco anos brincando no jardim se misturava ao rosto de uma esposa traidora. Ele jurou nunca mais amar.

O mundo de Mia Windsor tinha o cheiro de lã guardada e o som abafado de passos acima de sua cabeça. Desde os cinco anos, a escuridão era sua única companheira, uma cortina eterna puxada por um empurrão cruel de sua irmã, Emma, que não suportava o brilho dos olhos azuis que pareciam enxergar a alma das pessoas.

​Aos 22 anos, Mia era um segredo trancado. Para a elite de Chicago, os Windsor eram donos de uma fábrica têxtil de prestígio; para as paredes daquela mansão, eles eram carcereiros.

​Mia sentiu o couro da coleira em seu pescoço. Era a sua "guia". Seus pais, Abigail e James, diziam que era para ela não se perder, mas o peso da corrente dizia a verdade: ela era tratada como um animal.

​— Coma logo, sua inútil — a voz de Abigail ecoou quando a tigela que bateu no chão do porão, derramando uma sopa rala e fria.

​Mia não respondeu, ela não tinha talheres, não tinha guardanapos. Usava as mãos, os dedos finos tocando a comida com uma dignidade que seus pais nunca conseguiriam tirar dela. Enquanto comia, sua mente trabalhava em uma velocidade que ninguém suspeitava.

​Lá em cima, através das frestas do teto, ela ouvia as aulas particulares de Emma. Enquanto a "irmã perfeita" bufava por não saber localizar a Austrália no mapa, Mia, sentada no chão de cimento, recitava para si mesma em um francês perfeito:

— L'essentiel est invisible pour les yeux... (O essencial é invisível aos olhos).

​Ela sabia resolver equações diferenciais de cabeça enquanto contava as batidas do relógio. Sabia a história das civilizações apenas pelo tom de voz dos professores que passavam pela casa. Emma era o rosto da família, mas Mia era o cérebro que eles tentavam esmagar.

​O estalo da corrente sendo presa ao poste do jardim era o som favorito de Mia. Ali, sob o sol de Chicago, ela fechava os olhos e deixava o calor tocar sua pele pálida. Os pássaros eram seus únicos amigos. Ela conhecia cada canto, cada espécie pelo bater das asas.

​— Você está horrível hoje, Mia — a voz de Emma surgiu, carregada de veneno. O perfume caro da irmã agrediu o olfato sensível de Mia. — Sabia que papai está perdendo tudo? A fábrica está falindo, mas não se preocupe... você finalmente vai servir para pagar as nossas contas.

​Mia sentiu um arrepio que não vinha do vento. Ela sentiu a mão de Emma apertar seu queixo com força.

​— Um homem rico precisa de uma barriga. E quem melhor do que a nossa pequena aberração cega para carregar um fardo? Prepare-se amanhã você sai desse buraco para ser útil pela primeira vez na vida.

​Emma riu e se afastou, deixando Mia sozinha no jardim, presa pela coleira. Mia não entendia completamente o que significava ser uma barriga de aluguel. Ela só apertou os próprios braços, sentindo o sol se pôr.

​Ela mal sabia que, por um erro de destino e ciência, o "fardo" que ela carregaria não pertenceria a um monstro, mas ao homem mais perigoso. E que aquele homem, o cirurgião das sombras, transformaria aquela coleira de couro em fios de ouro e obsessão.

Grávida do Lobo

O dia da "entrega" começou com uma falsa delicadeza que doía mais do que os golpes. Abigail Windsor forçou Mia a tomar um banho demorado, desembaraçando seus longos cabelos pretos com violência. Para esconder as cicatrizes e as marcas roxas deixadas pela coleira de couro, colocaram em seu pescoço uma fita de cetim com um pingente de cristal.

​— Se você abrir a boca para reclamar, eu juro que você nunca mais sentira a luz do sol — sussurrou Abigail no ouvido da filha.

​Mia não disse nada o trajeto até o Hospital Memorial Salazar foi um pesadelo de sons e movimentos. Fazia anos que ela não sentia a vibração de um motor ou o cheiro de asfalto. O mundo era barulhento demais para seus sentidos aguçados.

​Ao entrarem no hospital, o silêncio caiu sobre o saguão. Mesmo pálida e com o olhar azul estático, a beleza de Mia era hipnótica. Ela foi colocada em uma cadeira de rodas, as mãos pequenas apertando o tecido do vestido barato que lhe deram.

​No consultório, o procedimento foi explicado de forma fria. Mia ainda era virgem, um fato que divertia sua irmã Emma, mas para a medicina, isso era apenas um detalhe técnico.

​Nota Médica: A integridade do hímen não impede a concepção. A inseminação artificial utiliza um cateter fino para introduzir os espermatozoides preparados diretamente no útero. Embora o uso do espéculo possa causar o rompimento da membrana, o foco é puramente clínico: facilitar a fecundação sem a necessidade de relação sexual.

​Mia sentiu apenas o metal frio e a invasão de sua privacidade, rezando para que tudo acabasse logo. Mas o destino tinha planos mais cruéis.

​Os meses seguintes foram um inferno de esperança e sangue.

​1ª Tentativa: Negativo James Windsor a arrastou pelos cabelos até o porão e a deixou sem água por dois dias.

​2ª Tentativa: Negativo Abigail a esbofeteou até que o rosto de Mia inchasse, alegando que ela estava "rejeitando a semente" por pura maldade.

​3ª Tentativa: Negativo Foi a vez de Lian Miller, o comprador asqueroso, mostrar sua face. Ele foi até a mansão e chutou Mia enquanto ela estava caída no chão.

​Ninguém suspeitava que o problema era Miller. O homem era completamente estéril, um segredo que o laboratório negligenciou por incompetência. Cada falha era creditada ao corpo "inútil" de Mia, que pagava com a pele cada resultado negativo.

​​Na quarta tentativa, o laboratório estava sob pressão. O sistema de triagem de material genético sofreu um erro de processamento. No banco de dados, o nome Lian foi digitado, mas o algoritmo completou com o doador mais recente e de perfil premium que tinha acabado de passar por uma coleta de segurança: Lian Salazar.

​O procedimento foi feito em questão de minutos.

​Duas semanas depois, Mia estava trancada no porão, encolhida sobre os cobertores, quando a porta foi aberta com um estrondo. Abigail segurava o exame de sangue.

​— Finalmente, aquela coisa serviu para algo! — gritou Abigail, chutando a perna de Mia para que ela se levantasse. — Você está grávida, sua aberração.

​Mia levou a mão à barriga, sentindo um calafrio. Ela não sabia que carregava os filhos do "Lobo de Chicago". Ela não sabia que o material genético dentro dela não pertencia ao monstro que a batia, mas ao homem que possuía o hospital onde ela fora fecundada.

​O erro estava feito o herdeiro do cartel agora crescia no ventre da mulher que o mundo esqueceu de proteger. E quando Lian Salazar descobrisse que sua linhagem estava sendo gerada em um porão, o sangue correria pelas ruas de Chicago

Quatro meses se passaram. No porão da mansão Windsor, a vida de Mia havia ganhado cores que ela só conseguia sentir. Por carregar gêmeos o "investimento em dobro" de Lian Miller sua dieta melhorou. Agora ela recebia três refeições reais. Seu pequeno luxo eram os biscoitos recheados; o sabor doce era a coisa mais próxima de um abraço que ela conhecia.

​Ela também ganhou um rádio de pilha Mia passava horas sintonizada em estações de música clássica ou notícias internacionais, praticando mentalmente as línguas que aprendeu ouvindo as aulas da irmã. Pela primeira vez, ela sentia que não estava sozinha: os pequenos chutes em seu ventre eram a prova de que havia alguém para ela amar.

​Do outro lado de Chicago, a atmosfera era oposta. A mansão de Alba e Afonso cheirava a temperos mexicanos, coentro e carne assada. Alba, a matriarca vinda do México, não aceitava nada menos que a casa cheia.

​A mesa era um banquete. Logan seu pai e Maya sua madrasta, a quem ele amava como mãe conversavam com os tios Chloe e Hunter. Os primos Elijah e Ethan discutiam negócios, enquanto os tios Park e Gabriel riam de uma história antiga. Era uma família enorme e conectada, apesar de Madison, Jordan, Charlotte, Vick e July estarem espalhados pelo mundo.

​Lian estava sentado em um canto, um copo de uísque na mão e o olhar perdido. Ele só estava ali por elas: Alba, Maya e a pequena Alice.

​A menina de cinco anos corria pelo jardim, mas quando se aproximou de Lian, o mundo dele desabou silenciosamente.

​— Aqui, Alice comprei para você — disse Lian, entregando uma caixa com uma boneca.

​— Obrigada, Lian — a voz da menina foi educada, mas o nome soou como uma facada. Ela não o chamava de "papai".

​Lian forçou um sorriso que não chegou aos olhos. Ele amava Alice, mas a dor da traição de Sarah e a morte dos meninos criaram um abismo. Ele bebia demais, fumava demais e se escondia atrás de sua arrogância no hospital, mas ali, diante de Maya e Alba, ele era apenas um homem quebrado.

​— Filho, você precisa de paz — Maya tocou seu ombro com carinho maternal. — Esse gelo no seu coração vai acabar te consumindo.

​— O gelo é a única coisa que me mantém de pé, mãe — ele respondeu, antes de dar um gole longo no uísque.

​​O clima de descontração foi interrompido pelo toque insistente do celular de Lian. Era um número criptografado da ala de alta segurança do laboratório do seu próprio hospital.

​Ele se afastou da mesa, indo para o escritório do avô.

​— Salazar falando, espero que seja uma emergência para interromperem meu almoço de domingo.

​— Sr. Salazar... — a voz do diretor clínico do laboratório tremia. — Houve um erro gravíssimo no sistema de triagem de material genético. Há quatro meses.

​Lian sentiu o corpo tencionar. Sua mente médica começou a processar as possibilidades antes mesmo do homem terminar.

​— Vá direto ao ponto — ordenou Lian, a voz subindo de tom, atraindo os olhares de Logan e Hunter na sala ao lado.

​— O seu material genético, o que estava congelado para as tentativas de barriga de aluguel... ele foi liberado por engano para uma paciente externa. O sistema confundiu o seu nome com o de um cliente... Lian Miller.

​O copo de uísque escorregou da mão de Lian, estraçalhando-se no chão de madeira. O silêncio no escritório era absoluto, quebrado apenas pela respiração pesada de Lian.

​— Você está me dizendo — Lian começou, a voz agora um rosnado perigoso que faria qualquer soldado do cartel cair de joelhos — que existe uma mulher carregando um filho meu agora?

​— Na verdade, senhor... os exames confirmaram. São gêmeos. E a gestação já está no quarto mês.

​O mundo de Lian Salazar girou seus filhos. Seus meninos não voltariam, mas o destino, em um erro sádico e milagroso, havia colocado sua linhagem no ventre de uma desconhecida.

​O médico arrogante e o líder do cartel se fundiram em um só propósito. Ele não sabia quem era a mulher, mas ela acabava de se tornar a propriedade mais valiosa e a obsessão mais perigosa de Lian Salazar.

​"Tragam meu carro", ele gritou para os seguranças na saída, deixando a família em choque para trás. O lobo tinha um novo rastro para seguir

A Verdade que Ele Não Viu

O clima de celebração na mansão Salazar foi substituído por uma tensão elétrica. Lian dirigiu como um louco até o hospital, as mãos apertando o volante até os nós dos dedos ficarem brancos. No laboratório, ele invadiu a sala da diretoria.

​— O nome. Agora! — rosnou ele.

​— Mia Windsor 22 anos.

​Lian parou o sobrenome era familiar. Os Windsor eram fornecedores de flanelas e cobertores para as lojas de Ethan. Mas ele nunca tinha ouvido falar de uma "Mia". Ele pegou o celular e ligou para o primo Matvey, o gênio hacker filho de sua tia Madison.

​— Matvey, escaneie tudo sobre Mia Windsor. Quero registros médicos, redes sociais, escola tudo.

​Minutos depois, a resposta veio com um tom de confusão:

— Lian, essa garota é um fantasma o último registro dela é de quando ela tinha 5 anos, na escola primária. Depois disso... nada. Sem State ID atualizado, sem passaporte, sem rastro digital. Ela não existe para o sistema.

​Lian não esperou, ele acelerou em direção à mansão dos Windsor. Ao chegar, foi recebido com surpresa e cobiça. James e Abigail Windsor quase se curvaram, vendo o "Lobo de Chicago" em sua sala. Emma se aproximou, desfilando, jogando o cabelo e tentando atrair o olhar de Lian ela já imaginava o poder que teria se o seduzisse.

​Mas os olhos de Lian ignoraram a todos. Eles travaram na figura sentada no sofá.

​Mia estava vestida com elegância forçada: blusa de gola alta, sobretudo e botas, esperando a visita do asqueroso Miller. A barriga de quatro meses já desenhava uma curva nítida sob o tecido. Ela era deslumbrante. Uma beleza etérea que fez o coração de Lian falhar uma batida, mas ele estava possuído pela raiva.

​Ele caminhou até ela e agarrou seu braço com força.

— Você é a Mia?

​— Sim, senhor... — a voz dela era um sussurro trêmulo. — O que deseja?

​— Você está carregando algo que me pertence — ele sentenciou, a voz vibrando de posse.

​James Windsor deu um passo à frente, confuso: — Eu não entendo o que o senhor está falando. Ela é barriga de aluguel para outro homem...

​Lian jogou uma pasta com os documentos do hospital sobre a mesa de centro.

— Houve um erro o material genético usado foi o meu. Esses bebês são meus herdeiros. — Ele tirou um cartão preto do bolso e jogou sobre os papéis. — Tem 15 milhões de dólares aí. É pelo "transtorno" e para garantir que vocês fiquem calados e não processem o hospital. Mas a Mia... ela vai comigo agora.

​Os Windsor nem hesitaram o brilho do dinheiro nos olhos deles foi imediato.

​Lian puxou Mia pelo braço, arrastando-a para fora. Mia, desorientada pela falta de visão e pelo pânico, tropeçava em seus próprios pés.

— Anda logo! Deixa de ser lerda, olha por onde anda! — gritou Lian, sem notar que os olhos azuis dela, embora abertos, não focavam em nada.

​Ele a jogou no banco do carona de seu carro luxuoso.

— Coloca a porra do cinto! — ele gritou, batendo a porta.

​Mia tremia tanto que seus dentes batiam. Suas mãos buscavam o cinto, mas ela não o encontrava. O pânico de anos de abusos em um porão explodiu em seu peito. No auge do terror, ela perdeu o controle da bexiga. O calor do xixi molhou sua calça e o banco de couro do carro.

​Lian entrou no carro e sentiu o cheiro imediatamente. Ele olhou para baixo, furioso.

— Que inferno! Você se mijou? Qual o seu problema, garota? Você é um animal por acaso?

​Ele arrancou com o carro de volta para a casa dos avós. O silêncio era cortado apenas pelos soluços baixos de Mia. Quando parou o carro na garagem, ele desceu e abriu a porta dela.

— Sai do carro! Agora! — Ele não esperou. — Vem, porra! Anda na minha frente!

​Mia saiu, as pernas bambas. Ela tentou seguir o som da voz dele, mas Lian já estava metros à frente, descendo as escadas do estacionamento. Mia deu dois passos no escuro total de sua mente e pisou no vazio.

​Ela rolou por cinco degraus de concreto, caindo pesadamente no chão da garagem.

​— Mas que garota burra! — Lian parou no topo da escada, olhando para baixo com desprezo. — Para de chorar, que inferno! Levanta, caralho!

​Mia não se mexeu. Ela se encolheu em posição fetal no chão frio, soluçando, as mãos protegendo a barriga onde os herdeiros Salazar descansavam, enquanto o sangue de um corte no joelho começava a manchar o concreto.

​— Eu disse para levantar! — o grito dele ecoou, mas Mia estava além da dor. Ela estava de volta ao porão em sua mente, esperando pelo próximo golpe.

O clima na garagem era de puro terror até que o som de passos apressados vindo da casa interrompeu a fúria de Lian. Maya, Logan e os avós de Lian, Alba e Afonso, surgiram no topo da escada, paralisados diante da cena: Lian em pé, exalando ódio, e uma jovem caída em posição fetal, tremendo e molhada.

​— PARE DE SER FRESCA, LEVANTA AGORA! — Lian rugiu mais uma vez.

​Maya desceu os degraus correndo, empurrando o filho para o lado com uma força que o surpreendeu.

​— Lian, chega! — Maya se ajoelhou ao lado de Mia. — Calma, querida. Eu sou a Maya me dê sua mão, eu te ajudo.

​Maya estendeu a mão, mas Mia não se moveu. Seus olhos azuis estavam abertos, lindos e intensos, mas fixos em um ponto vazio no concreto. Maya franziu a testa. Ela moveu a mão na frente do rosto de Mia. Nada, nenhuma pupila reagiu, nenhum cílio tremeu.

​Lian, que observava de cima, começou a perder a cor do rosto. O silêncio que caiu sobre a garagem era sufocante. Maya estalou os dedos perto do ouvido de Mia; a garota deu um sobressalto, mas seus olhos continuaram perdidos.

​— Meu Deus, Lian... — Maya se levantou, a voz carregada de decepção e choque. — Essa menina é cega! Como você não percebeu? Eu não criei um filho para maltratar mulher nenhuma, muito menos uma nessas condições!

​Lian deu um passo para trás, o estômago embrulhando. Ele olhou para as mãos de Mia, que tateavam o chão procurando apoio.

​— Seja homem e ajude-a — sentenciou Maya. — Querendo ou não, são seus filhos que estão no ventre dela.

​O líder do cartel deu lugar ao médico por um instante. O impacto da revelação o silenciou. Ele se inclinou e, com uma agilidade bruta mas necessária, pegou Mia no colo. Ela era leve demais, quase não pesava nada.

​— Eu vou da um banho em você — Lian murmurou, a voz rouca, tentando processar a própria negligência. — Depois vamos ver os bebês.

​No colo dele, sentindo o calor do peito de Lian pela primeira vez, Mia sussurrou com a voz embargada:

— São dois meninos.

​Lian parou no meio do caminho. Ele sentiu o mundo girar. Dois meninos exatamente como os filhos que ele perdeu cinco anos atrás.

— Dois... meninos? — ele repetiu, a voz quase sumindo.

​— Eles já têm nome? — perguntou Maya, seguindo-os de perto, enquanto Alba e Logan observavam com o coração na mão.

​— Não... eu não devia dar nomes a eles — Mia respondeu, apertando a camisa de Lian com as pontas dos dedos. — Mas eu gosto de John e Isaac. Eu tento não me apegar... sei que eles serão tirados de mim assim que nascerem. É melhor não amar o que não posso ter.

​Alba, que até então estava em silêncio, aproximou-se com os olhos marejados. Ela olhou para Logan, lembrando-se da própria dor de ter sido separada do filho no passado.

— Menina, escute bem — a voz da matriarca mexicana era uma lei. — Ninguém vai tirar seus filhos. Eu nunca vou permitir que uma mãe seja arrancada de suas crias nesta casa. Eles vão ficar com você.

​Lian trincou os dentes. Ele queria os herdeiros, queria o sangue dele de volta, mas a ideia de ter aquela mulher um lembrete vivo de sua falha em sua vida era insuportável.

​— Eu sei tomar banho sozinha — Mia disse quando entraram na suíte principal.

​— Eu não perguntei se você sabe ou não — Lian a colocou sentado na borda da banheira de mármore, seu tom voltando a ser autoritário, mas sem o grito de antes. — Eu disse que eu vou te dar banho. Você está machucada do tombo e eu sou médico. Preciso garantir que John e Isaac estejam bem. E você também.

Mia Windsor

Lian Salazar

Elijah Salazar

Ethan Salazar

Alice Salazar

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