O MUNDO DELA
Meu nome é Beatriz, tenho 27 anos e sou portuguesa. Há quatro anos, tomei uma das decisões mais difíceis da minha vida: deixei para trás o cheiro de mar de Lisboa, o aconchego da casa da minha mãe e a segurança de tudo o que eu conhecia para recomeçar em Paris. Eu tinha 23 anos na época, cheia de sonhos, achando que a cidade luz iria me abrir portas, me dar oportunidades que em Portugal pareciam tão distantes.
A realidade, porém, bateu na porta muito rápido. Paris é linda, encantadora, mas também é cara, corrida e muitas vezes solitária para quem não tem nada. Nos primeiros meses, trabalhei em tudo o que apareceu: limpeza de escritórios à noite, atendente em cafeterias, ajudante em lojas de roupas. O dinheiro mal dava para pagar o aluguel de um pequeno apartamento no 18º arrondissement, num bairro simples, mas que pelo menos era seguro e tinha gente acolhedora.
Foi no meio dessa rotina cansativa, quando eu me sentia mais sozinha, que conheci o pai da Clarinha. Ele era um turista, vinha de uma família boa, tinha um jeito charmoso e palavras que pareciam música. Por alguns meses, eu me senti a protagonista de um filme. Acreditei que finalmente tinha encontrado alguém para compartilhar a vida nessa cidade grande. Mas o conto de fadas acabou muito rápido.
Quando contei que estava grávida, tudo mudou. O olhar dele se tornou frio, as desculpas começaram a surgir e, em pouco tempo, ele simplesmente desapareceu. Voltou para o seu mundo e me deixou sozinha, com o coração partido e uma vida crescendo dentro de mim.
Na época, com 24 anos, eu pensei que iria desabar. Chorei noites seguidas, senti medo, vontade de pegar o primeiro trem e voltar para casa. Mas então eu olhava para o meu reflexo, colocava a mão na barriga e sentia aquele movimento pequeno, fraco, mas cheio de vida. E eu entendia: não era mais só sobre mim. Eu tinha uma filha para cuidar.
Ela nasceu numa noite fria de março, com seus cabelinhos claros e um choro que encheu o quarto do hospital.
— Olá, minha pequena... — sussurrei, com lágrimas rolando pelo rosto. — Eu sou a mamãe. Vamos ficar bem, nós duas.
Decidi chamá-la de Clara. Mas assim que a segurei no colo, senti que aquele nome combinava perfeitamente com um jeitinho mais doce e carinhoso. Comecei a chamá-la de Clarinha, e o apelido pegou logo de cara. A enfermeira que me ajudou no parto, as vizinhas do prédio, as mães que eu encontrava no parque... todos passaram a chamá-la assim. Clarinha. Era como se o nome já viesse com ela, trazendo luz mesmo nos meus dias mais cinzentos.
Hoje, ela tem três anos. É uma menina esperta, falante, que enche a casa de energia e de brinquedos espalhados pelo chão. Fala português comigo, mas já solta uns palavrões em francês que aprende na rua e que me fazem rir muito.
Mas agora, uma nova preocupação tomava conta dos meus pensamentos: a escola. Na França, as crianças começam a estudar muito cedo, aos três anos entram na École Maternelle. Eu queria isso para ela, queria que tivesse rotina, que fizesse amiguinhos, que aprendesse a desenhar, a cantar e se desenvolvesse bem. Mas encontrar uma escola não foi tarefa fácil.
Andei quilômetros a pé, segurando a mãozinha dela, visitando estabelecimentos. Algumas eram muito longe, o que seria impossível conciliar com meu trabalho. Outras eram particulares e os preços eram absurdos, valores que eu jamais conseguiria pagar com o meu salário de atendente na padaria. E havia aquelas vezes em que eu entrava, olhava ao redor e sentia um aperto no peito: não via carinho, via apenas pressa. E o meu coração de mãe dizia que ali não era o lugar dela.
Eu queria um lugar colorido, com professores que tivessem paciência, um cantinho onde ela se sentisse amada. Depois de semanas procurando, quase desistindo, finalmente encontrei uma pequena escola particular perto de casa. Não era luxuosa, mas tinha um jardim com flores e uma diretora que sorriu de verdade ao ver a Clarinha. Conseguimos negociar um valor que cabia apertado no orçamento, mas que valia cada esforço.
Naquele dia, enquanto caminhávamos de volta para casa, com a certeza de que ela teria um lugar para aprender e brincar, eu senti um alívio enorme. Mas eu não fazia ideia de que aquela busca pela escola era apenas o começo, e que o destino já estava preparando um encontro que iria virar a minha vida de cabeça para baixo.
O MUNDO DELE
Meu nome é Leonardo Vasconcelos, mas todos me chamam de Léo. Aos 32 anos, eu tenho tudo o que a maioria dos homens sonha. Sou o CEO e fundador de uma das maiores empresas de investimentos e tecnologia da Europa. Moro em um cobertura duplex no centro de Paris, com uma vista panorâmica da cidade que tira o fôlego de qualquer pessoa. Dirijo carros esportivos, visto roupas de grife, viajo em primeira classe e tenho dinheiro suficiente para comprar o que eu quiser, na hora que eu quiser.
Para o mundo exterior, eu sou o homem perfeito, bem-sucedido, poderoso. Mas se alguém pudesse abrir o meu peito e olhar para o meu coração, veria que ele está vazio. Ecoa silêncio dentro de mim.
Acordo todas as manhãs em uma cama king size que parece imensa porque está sempre sozinha. O silêncio do apartamento é tão grande que chega a doer os ouvidos. Tomo meu café da manhã sozinho, lendo relatórios no meu tablet, sem ninguém para me dar um "bom dia" sincero, sem bagunça, sem vida.
Meu dia é uma maratona fria e calculista. Entro na empresa cercado por funcionários que me cumprimentam com respeito, mas também com medo de errar. Tenho reuniões atrás de reuniões, números, gráficos, negociações que valem milhões. Todos ao meu redor parecem interessados apenas no que eu tenho, no que eu posso oferecer, no poder que eu exerço. Ninguém nunca pergunta como eu estou de verdade. Ninguém se importa se eu estou feliz ou apenas sobrevivendo.
Paris é uma cidade romântica, cheia de arte, de história, de paixão. Mas para mim, ela é apenas um cenário cinza. Eu ando pelas ruas com pressa, sempre com o celular na orelha, olhando para o chão ou para os relógios. Não vejo a beleza ao redor, não sinto o clima. Eu sou um estranho na minha própria cidade.
Tentei preencher esse vazio de todas as formas possíveis. Festas exclusivas, viagens para resorts de luxo, mulheres lindas que apareciam e desapareciam da minha vida como fumaça. Nada fica. Nada marca. O problema é que eu sou intenso, eu quero algo real, algo que dure, mas parece que no mundo onde eu vivo, tudo é descartável.
Sinto falta de alguém que me olhe e veja o Léo, não o Sr. Vasconcelos. Sinto falta de um lar, de risadas, de algo que dê sentido a todo esse trabalho árduo. Às vezes, paro na janela do meu escritório, olhando para a imensidão da cidade e penso: "Será que eu vou ficar sozinho para sempre?"
Eu estava tão fechado no meu mundinho de negócios, tão focado em construir um império que esquecia de construir uma vida, que não percebi que o destino gosta de pregar peças. Eu achava que a minha vida já estava escrita, seguindo um rumo solitário e sério.
O PONTO DE VISTA DELA
A rotina começou a ficar mais fácil depois que finalmente matriculei a Clarinha na escola. Todos os dias, eu acordava às seis da manhã, preparava o café da manhã, arrumava os seus cabelinhos castanhos e colocava aquele vestido azul que ela tanto gostava. Ela ficava tão fofa com a mochila pequena nas costas, parecendo uma mocinha crescida.
— Mamãe, corre senão vamos chegar atrasadas! — ela dizia, puxando a minha mão enquanto caminhávamos pelas ruas de paralelepípedo de Montmartre.
O outono estava chegando em Paris, e as folhas das árvores começavam a ficar avermelhadas e douradas. O ar estava mais fresco, e eu sempre me enrolava bem no meu casaco de lã. Naquele dia específico, porém, eu estava com uma pressa danada. Tinha saído um pouco atrasada de casa e precisava deixá-la na escola e correr para a padaria, onde o meu turno começava às oito horas em ponto. A patroa era rigorosa, e eu não podia me atrasar, não com as contas que já estavam apertadas.
— Calma, meu amor, vamos chegar a tempo — eu disse, apertando o passo.
Clarinha estava animada, falando sobre os amiguinhos, sobre o desenho que ia fazer. De repente, quando estávamos atravessando uma rua mais movimentada, perto de uns escritórios grandes e modernos, ela viu um gato preto atravessar na nossa frente.
— Gatinho! — gritou ela, com aquela voz doce e animada de criança.
Antes que eu pudesse reagir ou segurar com mais força a sua mãozinha, ela soltou-se de mim e deu uma corridinha rápida para o meio da rua. O meu coração parou por um segundo. Eu vi um carro preto, grande e luxuoso, aproximando-se depressa demais.
— CLARINHA! — gritei com toda a força dos meus pulmões, o desespero tomando conta de todo o meu corpo.
Eu corri, alcancei ela bem na hora, puxando-a com força para os meus braços e nos jogando para o lado, mas não conseguimos evitar que o carro freasse bruscamente bem perto de nós. O barulho dos pneus arrastando no asfalto foi horrível. Eu caí no chão, protegendo o corpo dela com o meu, sentindo uma dor forte no joelho e no cotovelo.
Tudo aconteceu muito rápido. O mundo pareceu girar. Eu só tinha olhos para ela:
— Meu amor, você está bem? Machucou? Fala com a mamãe! — eu perguntava, tremendo toda, verificando cada parte do seu corpinho.
Ela estava assustada, os olhinhos cheios de lágrimas, mas parecia inteira. Apenas o susto. Eu respirei aliviada, mas ainda com o coração batendo a mil por hora. Foi então que eu levantei a cabeça, ainda ofegante e com os olhos cheios de água, e olhei para o carro.
A porta do motorista abriu-se, e um homem desceu de uma forma rápida e imponente. Ele usava um terno caro, sapatos de couro polido, e tinha uma expressão que parecia misturar raiva e preocupação. Eu não sabia quem ele era, mas naquele momento, eu só conseguia pensar em como a minha vida tinha passado pela cabeça e em como aquele homem parecia pertencer a um mundo totalmente diferente do meu.
Eu me levantei com dificuldade, ainda abraçando a Clarinha que agora se agarrava ao meu pescoço, escondendo o rosto.
— Vocês estão bem? — a voz dele era grossa, séria, ecoando no meio da rua.
Eu engoli seco, tentando organizar as ideias e as pernas que ainda tremiam.
O PONTO DE VISTO DELE
Eu odiava atrasos. A minha vida era cronometrada, cada minuto tinha um valor, cada segundo era dinheiro. Naquela manhã, eu já estava atrasado para uma reunião importantíssima com investidores de Singapura. O trânsito estava horrível, como sempre, e eu já estava impaciente, batendo os dedos no volante do meu carro novo, um sedan preto importado que eu mal tinha pegado na concessionária.
— Marcos, avisa eles que eu chego em dez minutos — falei alto para o viva-voz, enquanto dirigia com atenção, mas com aquela pressa que já era habitual para mim.
Eu estava concentrado na via, pensando nos números, nos contratos, quando de repente algo pequeno e rápido cruzou na minha frente. Meus olhos demoraram um milisseggio para identificar: era uma criança. Uma menininha.
O pânico tomou conta de mim. Eu pisei no freio com toda a força possível, o carro derrapou, o cheiro de borracha queimada encheu o ar. O carro parou a poucos centímetros delas. Eu parei o motor, desliguei tudo e saí do carro antes mesmo que ele parasse completamente.
Meu coração estava batendo descompassado, algo raro para mim que sempre soube manter a calma. A primeira coisa que vi foi uma mulher caída no chão, protegendo uma menina pequena com o próprio corpo. A cena me cortou o peito. A ideia de que eu poderia ter atingido elas... eu não ia me perdoar nunca.
— Vocês estão bem? — perguntei, aproximando-me rápido, tentando controlar a voz que saiu mais rude do que eu queria.
Elas se levantaram. A mulher estava com as roupas amassadas, o joelho da calça jeans estava começando a ficar roxo, e havia um arranhão no seu braço. Mas o que mais me chamou a atenção foram os olhos dela. Eram olhos castanhos, enormes, cheios de medo, mas também cheios de uma força incrível. Ela estava tremendo visivelmente, mas mantinha a filha bem agarrada, como um leoa protegendo a cria.
A menina era uma gracinha, devia ter uns três anos, cabelos claros, rosto rechonchudo, estava com medo mas não parava de espiar por cima do ombro da mãe.
— Desculpa... — a mulher disse, a voz dela era doce, mas com um sotaque que eu reconheci de imediato. Português. Sotaque de Portugal. — Ela saiu correndo atrás de um gato, eu não consegui segurar a tempo... Foi culpa minha, desculpa mesmo.
Ela estava tão nervosa que parecia que ia desmaiar ou chorar a qualquer momento. Comecei a sentir uma mistura de sentimentos. Raiva da imprudência, mas uma pena enorme dela. Ela parecia tão frágil ali, com aquele casaco simples, contra o meu terno caro e o meu carro de luxo. Dois mundos colidiram naquela rua.
— A senhora precisa ter mais cuidado — falei, ainda sério, mas tentando suavizar o tom. — Esta rua é muito movimentada, não dá para soltar a mão da criança.
— Eu sei, eu sei... — ela balançou a cabeça, limpando rapidamente uma lágrima que teimou em cair, tentando parecer forte. — Ela está assustada, e eu... eu me machuquei um pouco, mas estamos bem. O carro... o senhor não se preocupou com o carro?
Olhei para a lataria do meu carro. Havia um pequeno arranhão na roda e na parte baixa do para-choque, provavelmente quando elas caíram. Mas eu não ligava para o carro. Carro se conserta, se compra outro. Vida não.
— O carro é o de menos — respondi, encarando ela de novo. — O importante é que não aconteceu nada de grave.
Eu fiquei ali parado, olhando para elas. Ela tentava ajeitar o cabelo da menina, falava baixo com ela em português, acalmando-a. Havia algo na simplicidade dela, no jeito que ela amava aquela criança acima de tudo, que mexeu com algo dentro de mim que estava adormecido há muito tempo.
Meu celular tocou no carro, lembrando da reunião, do mundo de negócios, das obrigações. Mas eu não queria ir embora ainda. Eu queria saber mais, queria ter certeza de que elas estavam realmente bem.
— O senhor vai me processar? — perguntou ela de repente, com a voz baixa e insegura.
Eu franzi o cenho, surpreso com a pergunta.
— Processar? Claro que não. Eu só queria ter certeza que vocês estão bem.
Ela pareceu aliviada, mas ainda assim desconfiada. Abaixou a cabeça, agradeceu meio sem jeito e disse que precisava ir, que já estava atrasada. E então, segurando firme a mão da pequena, ela virou-se e começou a andar depressa, virando a esquina.
Fiquei ali, parado na rua, vendo elas se afastarem. O cheiro do perfume dela, algo doce e natural, ficou no ar por alguns segundos.
— Quem é você? — murmurei para mim mesmo.
Entrei no carro, mas a minha cabeça já não estava nos negócios. A imagem daquela mulher de olhos castanhos assustados e daquela menina pequena não saía da minha mente. Algo tinha mudado ali. E eu tinha a certeza de que aquele acidente não era o fim, mas sim o começo de alguma coisa que eu ainda não conseguia explicar.
O PONTO DE VISTO DELA
Eu caminhei o mais rápido que pude, com o coração ainda batendo descontroladamente dentro do peito. A mão da Clarinha estava gelada e apertava a minha com força, um sinal claro de que ela ainda estava assustada com tudo o que tinha acontecido.
— Mamãe, dói aqui — ela disse baixinho, apontando para o próprio joelho.
Olhei para baixo e vi que a meia dela estava suja e tinha um pequeno arranhão. Meu coração doeu ainda mais. Eu era a mãe, eu deveria ter protegido ela melhor. A culpa parecia pesar mais do que a dor física que eu sentia no meu próprio corpo.
— Eu sei, meu amor, já já passa. A mamãe vai limpar e colocar um curativo bonito quando chegarmos na escola, sim? — falei, tentando passar segurança para ela, mesmo com a minha voz falhando um pouco.
Quando finalmente chegamos à escola, a professora, uma senhora muito doce chamada Madame Chantal, percebeu logo que algo estava errado.
— Mon Dieu! Beatriz, o que aconteceu? Vocês se machucaram! — exclamou ela, vindo ao nosso encontro.
Expliquei rapidamente que tínhamos sofrido um pequeno acidente, que uma criança tinha saído correndo e eu caí ao tentar desviar. Não contei a verdade toda, com medo de que pensassem que eu era uma mãe irresponsável. Ajudei a limpar o joelhinho da Clarinha, coloquei um curativo com desenho de ursinho e vi ela se acalmar aos poucos, voltando a brincar com os outros colegas. Mas eu sabia que ali, naquele momento, eu não poderia ficar. O relógio na parede da escola marcava que eu já estava quinze minutos atrasada para o trabalho.
Saí apressada novamente, sentindo cada passo doer. O meu joelho estava latejando, roxo e inchado por baixo da calça jeans, e o cotovelo ardia quando eu mexia o braço. Mas não podia parar. A padaria ficava a uns vinte minutos dali, e eu precisava chegar.
Durante todo o turno, eu mal conseguia me concentrar. Enquanto atendia os clientes, embrulhava croissants e limpava o balcão, a minha mente voltava o tempo todo para aquele momento na rua. Para o carro preto, para o barulho da freada, e principalmente... para ele.
O homem do terno.
Ele era tão diferente de tudo o que eu estava acostumada. Tinha uma postura firme, olhos sérios, uma aura de poder e dinheiro que pairava sobre ele. E o mais estranho: eu esperava que ele gritasse, que me xingasse, que exigisse dinheiro pelo conserto do carro. Afinal, o carro era caro, luxuoso, e eu tinha quase causado um desastre. Mas ele não fez nada disso. Ele só perguntou se estávamos bem. A voz dele era grossa, séria, mas não era má.
E quando eu perguntei se ele iria me processar, a expressão dele mudou. Pareceu até triste ou surpreso com a minha pergunta.
— Ele deve pensar que eu sou uma pobretona desesperada — murmurei para mim mesma, enquanto organizava as caixas de pão.
Era a verdade. Eu usava roupas simples, sapatos gastos, tinha a pele bronzeada pelo sol e as mãos ásperas pelo trabalho. Ele devia ter visto logo de cara que eu não tinha condições de pagar nada. Dois mundos completamente opostos, separados por apenas alguns segundos de susto.
No final do dia, quando voltei para buscar a Clarinha, ela veio correndo me abraçar, completamente renovada, como se nada tivesse acontecido. Mas eu sabia que algo dentro de mim tinha mudado. Aquela sensação de vulnerabilidade, de ver a minha filha em risco, e de ver como a vida é frágil... ficou martelando na minha cabeça.
— Quem será que ele é? — pensei, enquanto caminhávamos para casa sob as luzes de Paris. — Com certeza nunca mais vou ver ele novamente.
E foi o que eu pensei. Que aquele tinha sido um encontro rápido, um susto passageiro, e que cada um seguiria a sua vida, em suas próprias realidades, tão distantes uma da outra.
O PONTO DE VISTO DELE
Entrei no carro ainda com as mãos um pouco trêmulas, algo completamente fora do normal para mim. Eu, que estava acostumado a lidar com milhões de euros, com crises no mercado e decisões que mudam destinos, estava ali, abalado por causa de um quase acidente.
Liguei o motor, mas demorei alguns segundos para realmente sair do lugar. Olhei pelo retrovisor e vi elas se afastando: ela, com o casaco bege, andando depressa, e a menininha agarrada na sua mão.
— Que mulher mais estranha... — pensei.
A pergunta dela ecoava na minha cabeça: "O senhor vai me processar?". Como se o pior que pudesse acontecer na vida dela fosse ter que arcar com danos materiais. A forma como ela falou, com medo, com aquela voz doce mas cheia de insegurança, mexeu comigo de uma forma que eu não gostaria de admitir.
Ela tinha cicatrizes visíveis de uma vida dura. As mãos, mesmo pequenas, pareciam calejadas. O olhar, apesar de assustado, era de quem lutava todos os dias. E havia algo naquele sotaque português... tão familiar, tão acolhedor, que contrastava com a dureza do ambiente frio de negócios onde eu vivia.
Dirigi até a empresa, mas cheguei muito atrasado para a reunião. Os investidores já estavam impacientes, mas quando entrei na sala de reuniões com a minha cara de poucos amigos, ninguém ousou reclamar. Falei o que tinha que falar, fechei o negócio, mas a minha cabeça estava a quilômetros dali.
— Léo, você está bem? — perguntou o Marcos, meu assistente e melhor amigo, assim que saímos da sala. — Você está estranho hoje. Mais quieto.
— Estou sim, só um pouco cansado — respondi seco, passando por ele e seguindo para a minha sala.
Mas não era cansaço. Era uma inquietação estranha. Sentei na minha cadeira de couro, olhei pela janela para a cidade imensa lá embaixo e tentei trabalhar. Relatórios, e-mails, planilhas... nada fazia sentido. A minha mente insistia em voltar para a cena da rua. Para ela caída no chão, protegendo a filha. Para os olhos dela cheios de lágrimas, mas tentando ser forte.
Pensei no carro. No pequeno arranhão na lataria. Para mim, aquilo era nada, um detalhe insignificante que seria consertado em uma hora ou que eu simplesmente ignoraria. Mas para ela... aquele arranhão devia parecer um muro intransponível. Ela devia estar pensando que eu iria atrás dela, cobrar, exigir.
Uma parte de mim quis mandar o Marcos procurar por ela. Saber quem era, onde morava, se estava realmente bem. Mas eu sabia que isso era loucura. Eu não a conhecia. Ela era uma desconhecida que quase atropelei. Nada mais.
Por que então eu não conseguia tirá-la da cabeça?
No final da tarde, decidi sair mais cedo do escritório. Precisava arejar a cabeça. Ao invés de ir direto para o apartamento, pedi que o motorista me deixasse em uma região mais afastada, perto de uns bairros mais antigos, onde eu poderia caminhar um pouco sozinho.
Eu não tinha um motivo real. Eu só... queria andar. E enquanto caminhava, com as mãos nos bolsos do casaco de lã caro.
— Léo, se toca — falei alto para mim mesmo, parando por um segundo. — Ela é só uma garota que teve um dia ruim. Você tem a sua vida. Esquece isso.
Tentei me convencer, mas algo no fundo do meu peito, bem no fundo desse vazio que eu sentia há tanto tempo, parecia ter se mexido. Uma pequena faísca. Como se o universo tivesse batido na minha porta, bem devagar, me avisando que as coisas iam começar a ficar diferentes.
Eu só não imaginava que o destino é teimoso, e que aquela mulher de olhos castanhos estava muito mais próxima do meu mundo do que eu poderia supor.
Para mais, baixe o APP de MangaToon!