NovelToon NovelToon

O Herdeiro Escolhido

prólogo

Ponto de Vista: Pietro Moretti

O poder não é herdado.

É imposto.

Aprendi isso antes mesmo de aprender a dirigir.

Gênova não me temia porque eu era um Moretti.

Temia porque eu nunca hesitava.

O salão principal da mansão estava em silêncio quando atravessei o corredor. O som do meu sapato ecoava no mármore polido. Soldados se endireitavam. Conselheiros desviavam o olhar.

Eu não precisava falar para ser obedecido.

A camisa social preta marcava as tatuagens que subiam pelo meu pescoço. O paletó sob medida escondia as armas, mas não escondia quem eu era.

Eu era a arma.

— Don — Ricardo cumprimentou, inclinando levemente a cabeça.

Assenti uma única vez.

Não sorrio em público.

Não demonstro fraqueza.

Não me apego.

A mulher que me esperava naquela noite já estava no meu quarto. Ela sabia as regras. Eu pagava pela exclusividade. Ela me oferecia companhia. Nada além disso.

Sem perguntas. Sem sentimentos. Sem promessas.

Eu não acredito em amor.

Amor foi o que quase destruiu esta família uma vez.

Enquanto subia as escadas, ouvi um barulho vindo da ala leste. Vozes baixas. Uma caixa caindo no chão.

Desviei o caminho.

No corredor de serviço, encontrei uma garota ajoelhada recolhendo roupas espalhadas. Ela usava uniforme simples, cabelo preso de qualquer jeito. As mãos pequenas tremiam levemente.

Uma das funcionárias mais antigas estava ao lado dela, nervosa.

— Perdão, senhor — a mulher mais velha disse rapidamente. — Ela começou hoje.

Eu a ignorei.

Meus olhos estavam nela.

Ela ergueu o rosto.

E, ao contrário de todos os outros naquela casa…

Ela não abaixou o olhar.

Não havia desafio. Nem medo exagerado.

Só curiosidade.

Como se estivesse tentando entender que tipo de homem eu era.

Aquilo me irritou.

— Seu nome — minha voz saiu calma, baixa.

— Aurora.

A voz dela era firme.

Aurora.

Um nome claro demais para alguém que acabara de entrar no meu mundo escuro.

— Não cometa erros novamente — eu disse.

Ela assentiu.

Mas antes que eu me afastasse, ela perguntou:

— O senhor sempre parece tão sozinho?

O corredor inteiro congelou.

A funcionária mais velha quase perdeu o ar.

Eu deveria ter mandado embora. Demiti-la. Punido a ousadia.

Mas eu só a encarei.

E pela primeira vez em anos…

Eu senti algo diferente de controle.

Curiosidade.

Virei as costas e segui meu caminho.

Mas naquela noite, quando a mulher que paguei tentou me tocar, meu pensamento não estava nela.

Estava nos olhos de uma garota que não soube ter medo.

E eu percebi algo perigoso.

Talvez o único erro que eu nunca poderia cometer…

Fosse me interessar por alguém que não fazia parte do meu mundo.

O Filho Escolhido

Pietro Moretti

Eu não lembro de ter sido criança.

Lembro do cheiro de álcool.

Lembro da porta batendo.

Lembro de aprender a fazer mamadeira antes de aprender a jogar bola.

Minha mãe nunca me quis.

Ela dizia isso com os olhos, mesmo quando não falava. Eu era o erro que sobrou. O rosto que lembrava homens que ela nem sabia nomear.

Quando Emma nasceu, eu tinha seis anos.

Seis.

E foi naquele dia que eu virei pai.

Eu segurava minha irmã pequena no colo enquanto minha mãe dormia por dias inteiros. Eu trocava fraldas com mãos trêmulas. Eu cantava músicas inventadas porque não sabia nenhuma de verdade. Eu dividia o pão duro em três partes e mentia dizendo que já tinha comido.

Emma nunca soube que eu também estava com fome.

Aos dezesseis anos, Sofia nasceu.

Ela era pequena demais. Frágil demais. Chorava baixo, como se tivesse medo de incomodar o mundo. Dois meses depois, nossa mãe morreu de overdose no sofá da sala.

Eu não chorei.

Não foi frieza. Foi ausência.

Você não sente falta do que nunca teve.

Não sabíamos quem eram nossos pais. A família dela não quis saber de nós. Fomos parar em um orfanato cinza, frio, que cheirava a desinfetante e abandono.

Eu prometi a mim mesmo que ninguém tocaria nas minhas irmãs.

Dois meses depois, o diretor me chamou na sala dele.

— Pietro… um casal quer adotar a Sofia.

Só a Sofia.

Eu senti o chão sumir. Emma segurava minha mão na sala ao lado, com os olhos grandes demais para o rosto pequeno.

Eles iam separar a gente.

Naquela noite eu não dormi.

Esperei o dia da adoção. Fingi que obedeci quando me mandaram ir para a ala dos meninos. Esperei o momento certo, puxei Emma pela mão e fiquei na entrada quando o carro preto parou.

Eles desceram.

Elegantes. Imponentes. Diferentes de tudo que eu já tinha visto.

Catarina e Lucca Moretti.

Eu me coloquei na frente deles quando pegaram Sofia no colo.

— Por favor… — minha voz falhou. Eu odeio lembrar disso. — Levem a Emma também ele cuida de Sofia.

Eu estava preparado para implorar de joelhos.

Mas Lucca me olhou como se visse algo além de um garoto magro e sujo.

— E você? — ela perguntou.

Eu engoli seco.

— Eu fico. Só… levem elas eu me viro.

Ela segurou meu rosto com as duas mãos.

— Nós não separamos família, Pietro.

Foi assim que eu me tornei um Moretti.

Não de sangue.

De escolha.

E eu nunca esqueci isso.

Emma cresceu como fogo.

Rebelde. Boca afiada. Impulsiva. Eu vejo nela a raiva que eu nunca tive tempo de sentir. Ela testa limites como se quisesse quebrar o mundo antes que o mundo quebre ela.

Sofia é diferente.

Sofia é luz. Doce. Delicada. Ela ainda acredita nas pessoas. Ainda acredita em mim como se eu fosse invencível.

Por elas, eu sou.

Passei temporadas na Turquia com Demir e Maitê. Aprendi disciplina, estratégia, honra.

Na Rússia com Katya e Ravi, aprendi frieza. Precisão. Silêncio.

Eles me moldaram.

Não como um substituto.

Mas como um sucessor.

Selim Aslan Moretti e Nikolai Sokolov são meus irmãos, mesmo que o sangue diga o contrário. Crescemos juntos. Lutamos juntos. Caímos e levantamos juntos.

Somos inseparáveis.

E então, há três anos, tudo mudou.

Eu me lembro como se estivesse acontecendo agora.

Estou na mansão Moretti. Sala principal. Todos presentes.

Vincenzo à cabeceira. Demir ao lado dele. Ricardo, Ravi, Lucca.

O ar está pesado.

— Pietro — Vincenzo diz.

Eu dou um passo à frente.

Ele me observa como um general avaliando seu melhor soldado.

— O legado Moretti precisa continuar. Não apenas com força… mas com lealdade.

Silêncio absoluto.

Meu coração não acelera. Eu fui treinado para isso.

— Eu escolho você como meu sucessor.

As palavras ecoam.

Emma prende a respiração. Sofia aperta a mão de Catarina.

Lucca me encara com orgulho contido.

Demir cruza os braços, satisfeito.

Vincenzo se aproxima.

— Um Moretti não é feito apenas pelo sangue. É feito pela escolha de proteger os seus. E você, Pietro… nasceu para isso.

Eu não sorrio.

Eu apenas inclino a cabeça.

— Eu não falharei.

E eu nunca falhei.

Hoje, eu comando homens duas vezes mais velhos do que eu.

Eu pago mulheres para manter distância emocional. Controle é essencial.

Eu não me apego.

Eu não me distraio.

Eu não amo.

Porque amor é fraqueza.

E fraqueza não sobrevive no meu mundo.

Mas algo está prestes a mudar.

Eu ainda não sei.

Só sei que, pela primeira vez desde que me tornei um Moretti…

algo está fora do meu controle.

E eu odeio isso.

boate

Capítulo 2

Ponto de Vista: Pietro Moretti

A música vibrava no chão como um segundo batimento cardíaco.

A boate era minha.

Ou melhor… tudo ali era meu.

O camarote VIP ficava elevado, protegido por vidro fumê e dois seguranças posicionados como estátuas atrás de mim. Abaixo, corpos se moviam sob luzes vermelhas e douradas. Perfume caro, suor, desejo barato.

Eu observava.

Não participava.

Nunca participo.

A bebida desceu queimando pela garganta. Uísque puro. Sem gelo. Sem distrações. Assim como eu.

Selim dizia que eu parecia um juiz assistindo ao julgamento da própria cidade. Nikolay dizia que eu parecia entediado demais para alguém com tanto poder.

Eles estavam certos.

Poder é interessante só até você perceber que nada ali é real.

Foi quando ela passou na frente do vidro.

Vestido preto justo. Salto alto. Cabelo solto. Olhar treinado.

Ela não precisava olhar duas vezes — sabia exatamente onde eu estava. Quando seus olhos encontraram os meus, ela piscou discretamente.

Convite aceito.

Terminei o uísque em um único gole. Levantei sem pressa.

Os seguranças já sabiam o que fazer. Um deles abriu passagem pela escada lateral, afastando curiosos. Eu não gostava de ser tocado. Não gostava de proximidade desnecessária.

Controle.

Tudo sempre sob controle.

O corredor que levava às suítes privadas era silencioso. Carpete escuro, iluminação baixa, isolamento acústico perfeito.

Ela já estava lá dentro quando entrei.

Encostada na parede, esperando.

— Você demorou — ela disse, num tom quase brincalhão.

Eu fechei a porta atrás de mim.

— Eu não demoro. Eu escolho o momento.

Ela se aproximou, mas eu levantei a mão antes que me tocasse.

Regras.

Ela sabia.

Eu nunca beijo na boca.

Nunca misturo prazer com intimidade.

Nunca confundo posse com sentimento.

Ela era exclusiva. Não porque eu gostasse dela. Mas porque eu não dividia nada que fosse meu.

E, por um tempo determinado, ela era.

Não havia carinho.

Não havia palavras doces.

Havia domínio.

Ela gostava disso. Muitas gostavam.

Algumas mulheres querem o homem perigoso.

Outras querem o homem que parece inalcançável.

Eu era os dois.

Minhas mãos eram firmes. Minhas ordens, silenciosas. Um olhar bastava para que ela entendesse o que fazer.

Ela tentou, como sempre, aproximar o rosto do meu.

Eu desviei.

— Não — murmurei.

Ela sorriu. Já esperava.

Não era sobre ela.

Nunca foi.

Era sobre desligar o mundo por alguns minutos.

Sobre silenciar pensamentos.

Sobre manter distância emocional até mesmo no momento mais íntimo.

Quando terminei, me afastei primeiro.

Sempre eu.

Ajustei a camisa, peguei o paletó da cadeira.

Ela ainda estava sentada na cama, respirando fundo.

Sem drama. Sem expectativas.

Eu caminhei até a mesa lateral, peguei o envelope já separado e joguei sobre o colchão.

— Mesmo valor de sempre — falei.

Ela segurou o envelope.

— Você nunca muda, Pietro.

Eu parei na porta.

— É por isso que tudo funciona.

Abri a porta sem olhar para trás.

O corredor estava silencioso novamente.

Enquanto voltava para o camarote, pensei no que Selim disse uma vez, bêbado demais para filtrar palavras:

"Você vive como se amar fosse uma fraqueza."

Talvez fosse.

Eu vi o que a falta de amor fez com minha mãe.

Eu vi o que o excesso de amor quase fez com meus pais adotivos.

Eu vi homens poderosos ajoelharem por mulheres.

Eu não ajoelho.

Quando voltei ao camarote, outro copo já estava servido.

A pista continuava cheia.

A música continuava alta.

A cidade continuava girando ao meu redor.

E eu continuava intocável.

Para mais, baixe o APP de MangaToon!

novel PDF download
NovelToon
Um passo para um novo mundo!
Para mais, baixe o APP de MangaToon!