A noite estava carregada, o céu de Toronto coberto por nuvens que devoravam a lua como predadores. Dentro do carro blindado, Theo Greco girava lentamente a taça de cristal com o uísque âmbar, observando a bebida dançar com a mesma calma de um rei em seu trono. Quarenta anos de vida, duas ex-esposas, nenhum herdeiro e um império que o havia convertido em um dos nomes mais temidos do submundo: para os inimigos, era Don Greco, o mafioso grego que controlava a rede de armamento mais poderosa da cidade.
Mas naquela noite não vinha negociar. Vinha cobrar.
— Você tem certeza de que Vladimir aparecerá? — a voz grave de Nikos Karras, seu braço direito, rompeu o silêncio.
Theo ergueu o olhar. Nikos era quase um irmão, um homem de confiança, mas sua pergunta não deixava de ser reflexo de algo que o incomodava: a dúvida.
— Vladimir não teria escolha — respondeu Greco, firme—. Ele me deve. E quando alguém me deve… não existe saída.
O carro desacelerou frente à fábrica abandonada. Tijolos enegrecidos, vidros quebrados, ferro retorcido. O lugar cheirava a armadilha. Greco sentiu isso antes mesmo de pisar o chão molhado pela chuva recente.
Dois SUVs pretos pararam atrás, trazendo oito de seus homens. A fila de armas foi revisada, os carregadores engatilhados com estalidos metálicos que soaram como sinos de um presságio.
Theo abriu a porta com calma e desceu. O vento frio atravessou seu terno preto, mas não arrancou dele nem um estremecimento. Seus sapatos italianos golpearam o concreto como martelos de um juiz. Não tinha pressa. Don Greco nunca corria.
— Estranho… — disse Nikos, ao seu lado, com os olhos atentos ao redor—. Está muito vazio.
Theo bebeu um gole de uísque, deixando que o fogo ardesse em sua garganta antes de responder:
— Porque não é um pagamento. É uma emboscada.
O eco das palavras ressoou mais forte que o vento.
Avançaram até o interior da fábrica. O som dos passos retumbava no galpão como se o espaço fosse uma catedral profana. O cheiro de ferrugem e mofo se misturava com o de pólvora antiga, vestígios de quem já havia usado o lugar para negócios sujos.
E então, o estalido seco: clack, clack, clack. Armas sendo destravadas.
— Contato! — gritou Nikos.
Sombras se ergueram atrás das colunas, os andaimes, as passarelas superiores. Pelo menos trinta homens armados rodearam a entrada, as metralhadoras brilhando sob a luz precária.
Theo não moveu um músculo. Apenas ergueu a mão com a calma de quem dita o tempo.
— Fogo.
O inferno se abriu.
As primeiras rajadas cortaram o ar, destroçando janelas, ricocheteando em vigas de aço. O cheiro de pólvora queimava a garganta de todos. O estrondo ensurdecedor preencheu tudo, mas Greco caminhava em meio ao caos como se estivesse em uma sala de reuniões.
Seus homens formaram uma barreira, respondendo com precisão militar. Cada disparo era seco, cada corpo inimigo caído, uma mensagem. Greco levantou sua pistola e disparou com frieza, sempre apontando para a cabeça ou para o peito. Três tiros, três mortos. Nada nele tremia.
Não era só um mafioso. Era disciplina encarnada.
Os inimigos avançavam, gritando em russo, tentando cercar o Don. Nikos afastou um dos homens antes que fosse atingido, cobrindo-o com disparos certeiros. O concreto se tingia de vermelho, o chão já parecia um campo de execuções.
Greco disparou contra dois que tentavam se aproximar pela retaguarda. Um caiu de imediato, o outro ainda se arrastou até que Theo pisou em sua mão e terminou o trabalho com um tiro seco no crânio. O corpo se estremeceu uma última vez e emudeceu.
— Avancem pela ala leste! — ordenou o Don, com voz firme em meio ao caos.
Obedeceram sem questionar. Não havia lugar para a dúvida quando se lutava sob o comando de Greco.
Em quinze minutos, o que era uma emboscada se converteu em massacre. O som dos disparos cessou. O eco dos passos se misturava com o gotejar da chuva que se filtrava pelas fendas do teto quebrado. O cheiro de sangue era quase palpável.
Nikos respirava com força, limpando o suor da testa com o dorso da mão.
— Foram todos.
Theo, no entanto, sabia a verdade. Não eram “todos”. Porque um não estava ali.
Vladimir.
O maldito russo não apareceu. Jamais arriscaria sua vida em uma armadilha; deixava que os homens morressem por ele. E isso, para Theo Greco, era a maior prova de que não se tratava só de uma dívida de dinheiro ou de armas. Vladimir havia tentado tocar o ponto mais frágil de qualquer homem do crime: sua confiança.
E Greco não perdoa traições.
Serviu outro gole de uísque, os olhos fixos nos corpos caídos ao redor. O cristal refletia a luz pálida da lua que se infiltrava pelos buracos do teto.
— Revistem o lugar — ordenou, a voz baixa, mas cortante—. Não quero restos, não quero segredos.
Nikos assentiu e sinalizou para dois soldados explorarem os corredores laterais.
Greco permaneceu ali, imóvel, como um rei em meio ao campo de batalha que acabava de conquistar. Mas no fundo, uma chama fria ardia. Vladimir pensava que podia brincar com ele, como se Don Greco fosse um alvo qualquer.
Sorriu de lado. Não. Isso ainda estava longe de terminar.
O eco dos disparos ainda tremia nas paredes quando o silêncio se impôs como uma névoa fina. Os homens se dispersaram em busca de pistas, lanternas cortando a escuridão, passos cautelosos ressoando entre as colunas metálicas. O cheiro de pólvora já se misturava com o de poeira antiga e ferrugem.
Um soldado regressou trazendo um tambor de ferro cheio de cinzas.
— Don, queimaram documentos aqui. Ainda estão quentes.
Greco lançou apenas um olhar, frio, e bebeu outro gole de uísque. Queimar provas sempre era sinal de fuga apressada. Alguém havia estado ali até minutos antes.
Nikos apareceu do mezanino, com a respiração agitada.
— Escritórios limpos. Apenas restos de garrafas, colchões. Um esconderijo temporário.
Theo ouviu sem responder. Cada detalhe se encaixava no padrão de Vladimir… covardia atrás de homens descartáveis, rastros apagados às pressas. O russo não queria pagar a dívida. Queria eliminá-lo.
Outro grupo de soldados chegou da ala oeste. Um deles carregava um cadeado novo, arrancado a marteladas de um portão lateral.
— Don, isso foi colocado há pouco. O óleo ainda goteja.
Greco examinou o metal reluzente sob a lanterna. Cadeado novo em ruínas velhas. Sempre a mesma mensagem, alguém escondendo algo valioso em um lugar que já não deveria abrigar nada.
O Don caminhou até o portão. Os homens já o haviam forçado. Do outro lado, caixas empilhadas, corredores estreitos e no chão… marcas de arrasto. Pegadas sobrepostas, algumas leves, outras pesadas.
Greco se abaixou e tocou o cimento com a ponta dos dedos. A poeira era recente. Alguém havia passado por ali nessa mesma noite.
O vento soprou por uma fenda e trouxe consigo um cheiro distinto, mais denso, úmido, carregado de algo que não pertencia à fábrica.
Foi então que Nikos o chamou de novo, a voz mais tensa do que o normal:
— Don… aqui.
Theo o seguiu até o fundo, onde duas placas de ferro já haviam sido levantadas pelos homens. Embaixo, um buraco escuro descia para um porão. Uma escada metálica desaparecia na negrura, iluminada apenas pelo feixe instável de uma lanterna. O ar que subia era frio, pesado, e arrastava um fedor rançoso que fez com que dois soldados contivessem a respiração.
Greco parou na borda, olhando para baixo. O vazio devolveu apenas silêncio.
Não disse nada durante alguns segundos. Apenas ajeitou o paletó e olhou para Nikos.
— Assegurem o perímetro — sua voz soou firme, sem pressa—. Ninguém desce até que eu autorize.
Nikos assentiu, mas a tensão em seu olhar não desapareceu.
Greco se inclinou um pouco mais sobre a abertura. A escuridão parecia viva, como se guardasse algo que não queria ser visto. Seu instinto, o mesmo que o havia mantido com vida em guerras sangrentas, lhe sussurrava que aquele buraco não era apenas parte da fábrica. Era outra coisa.
— Don… — chamou Nikos de novo, mais baixo, como se a própria sombra pudesse ouvir—. Você precisa ver isso.
Theo não respondeu. Apenas acendeu um cigarro, tragou fundo e deixou que a brasa iluminasse seus olhos. A fumaça se misturou com o ar pesado que subia do porão.
Ele sabia, aquela noite ainda não havia terminado.
O buraco negro respirava. Era assim que a sensação chegava a Theo, como se a escada de metal não levasse a um nível inferior da fábrica, mas ao pulmão úmido de algo que preferia manter segredos longe da luz. Apagou o cigarro contra a borda de concreto e fez um gesto curto. Nikos entendeu sem palavras… dois homens na frente com lanterna, dois atrás cobrindo, e ele no centro.
O primeiro degrau gemeu sob a sola italiana. O som se propagou pelo túnel estreito como um aviso. O gotejar, que de cima parecia distante, ali se transformava em um ritmo constante: tic… tic… tic…, marcando o tempo de um coração que não era o seu. Paredes de concreto nu, riscadas com marcas antigas, uma lâmpada no teto que piscava e desistia de fazer alguma diferença. O ar lembrava a adega de navio, água velha, mofo, metal oxidado, pele assustada.
—A dois metros, uma porta —sussurrou Nikos, quase sem voz.
A folha de ferro tinha uma pintura amarela morta, comida pela ferrugem, protegida por um cadeado recém-serrado. Ainda brilhavam limalhas no chão. Theo ergueu a mão. Um dos soldados colou o ouvido na chapa, o outro se abaixou e iluminou por baixo, buscando sombra que se movesse.
—Nada de vozes —Nikos manteve os olhos colados na fenda—. Mas há ar saindo de dentro.
Ar saindo de dentro. Era isso o que ele sentia no peito desde que abriu a portinhola, uma espécie de chamado invertido, o vazio pedindo para ser preenchido. Theo não acreditava em presságios, acreditava em sinais. E todos os sinais diziam que Vladimir não havia montado um teatro só para vê-lo cair, havia bastidores com peças que importavam.
—Devagar —disse Theo, a voz baixa, mas com metal suficiente para calar o eco do túnel.
A ponta da alavanca mordeu a dobradiça. Um rangido, outro, a chapa cedeu um dedo. O cheiro que saiu de dentro não era só umidade. Tinha algo de orgânico, como roupa que secou no corpo de alguém que não viu o sol por tempo demais.
—Luz —ordenou Theo.
Os feixes entraram primeiro. A claridade fraca percorreu as paredes, desenhou um retângulo de concreto pisoteado, um colchão raso apoiado no canto, um balde… sempre há um balde onde tiram a dignidade de alguém. Uma corrente cravada na base da parede, e no final dela… movimento.
O corpo encolhido parecia menor do que era. Pernas dobradas contra o peito, braços abraçando as canelas como se pudesse reduzir-se a um só osso. O cabelo colado na cabeça, duro de sujeira, pele marcada por hematomas vermelhos e roxos e cortes superficiais. Um trapo que já não era tecido, só sombra cobrindo o que restava de pudor. Um lenço áspero lhe apertava a boca. A corrente lhe prendia um tornozelo, o ferro lhe mordia a pele até convertê-la em ferida.
Ninguém respirou por um segundo.
Theo não sentiu o que se esperaria de um homem como ele: nojo, ira, noção de vantagem. Sentiu algo que odiava reconhecer… um golpe de humanidade atravessando-lhe o esterno. Um impacto silencioso, como um golpe dado de dentro. Não era pena. Era outra coisa. Algo que lembrava um passado que jurava haver sepultado junto a todos os que tentaram usá-lo contra si mesmo.
—Afastem-se meio passo —disse, sem desviar os olhos da figura.
Os feixes de luz se ajustaram, agora sem afronta. A luz tocou de lado, não de frente, como se fosse possível ensinar delicadeza a uma alma perdida. O corpo encolhido tremeu. Não um tremor amplo, desses que sacodem, mas um estremecimento que percorreu a pele ferida e morreu nos ombros.
—Cortem a corrente —ordenou Nikos, levantando já a ferramenta.
—Não —Theo lhe segurou o antebraço antes que o ferro tocasse a corrente—. Primeiro, ninguém a toca.
Nikos piscou, surpreso. Não discutiu. Só retrocedeu meio passo, esperando a seguinte ordem.
Theo guardou a arma. Não precisava de uma arma ali; fazia tempo que o que matava alguém não era um projétil. Era a falta de ar, de luz, de nome. Ajoelhou-se o suficiente para tirar de sua própria sombra o peso que esta podia impor. Falou como quem conversa com um animal ferido que pode morder para sobreviver:
—Está ouvindo minha voz?
A cabeça não se ergueu. O corpo se tencionou mais, como quem se arma por dentro. Os dedos nos tornozelos se apertaram, as unhas gastas mordendo sua própria carne. O lenço na boca sufocou um som que podia ser qualquer coisa, uma súplica, uma maldição, um lamento.
—Não vou tocar em você, prometo —prometeu, e até ele mesmo se estranhou da palavra “prometer” em sua boca—. Ninguém aqui vai tocar em você sem sua permissão.
O silêncio se devolveu como uma parede. Não havia confiança para ser depositada ali, porque a confiança é moeda que precisa de passado e quem estava naquela sala havia sido roubada de seu próprio passado. Theo respirou uma vez e girou o rosto para Nikos.
—Manta. Água. Tesoura fina.
—Agora mesmo, Don —respondeu sua mão direita, subindo dois degraus de uma vez.
Theo ficou. Não como sentinela, mas como… presença. Colocou o copo de whisky no chão, longe da borda da luz, como se qualquer gesto que lembrasse luxo fosse uma falta de respeito. Os homens entenderam sem necessidade de escutar, mantiveram distância, armas baixas, olhos no entorno, não na figura. O respeito pode ser a única coisa que alguém tem quando lhe tiraram todo o resto.
A jovem —era impossível chamá-la de outra forma que não fosse “jovem”— moveu a cabeça um centímetro, o suficiente para revelar uma parte do rosto sob o cabelo. Um olho estava inchado, mas o outro tinha um brilho antigo, desses que sobrevivem teimosos inclusive sob a terra. Theo sentiu o músculo da mandíbula tensionar-se e relaxar, como se o corpo tentasse decidir que versão dele devia ocupar aquele porão… o algoz útil ou o homem que lembrava o que significa proteger.
Nikos baixou de novo, uma manta cinza, uma garrafa de água, a tesoura delicada, algumas ataduras. Aproximou-se com cuidado e estendeu os objetos sem invadir o raio da corrente.
—Ponha no chão, a um braço de distância —disse Theo.
Nikos obedeceu. A manta se pousou no chão, a água ao lado, a tesoura brilhou um ponto. Theo voltou a vista para a jovem.
—Vou tirar a mordaça. Sem tocar em você. Só vou cortar o tecido. Está bem?
Seus dedos apertaram as canelas. O olho são o olhou por um segundo e fugiu, como quem prova o perigo e decide sobreviver um pouco mais. Theo assentiu, aceitando aquele milímetro como um “talvez”.
A tesoura trabalhou devagar. Ele segurou apenas a ponta do tecido, longe da pele, cortando fibra por fibra, para que o ruído não parecesse uma ameaça. O nó cedeu. A mordaça se afrouxou sozinha, caiu em seu colo. Os lábios rachados se abriram em um fio, sorveram ar, e um som rouco escapou, não como palavra, mas como o primeiro suspiro de alguém que regressa.
—Água. —pediu Theo, sem olhar para trás.
Nikos já estendia a garrafa. Theo a destampou, colocou no chão, a empurrou levemente com dois dedos até tocar o cobertor. Não avançou um milímetro mais. A jovem não se moveu. Todo o seu corpo parecia programado para obedecer a única ordem que podia dar a si mesma: não confie.
—Pode beber quando quiser. —disse ele, e a frase ficou ali, à espera de que nascesse um fio de coragem.
O silêncio não é só falta de som, às vezes é espaço para que o outro faça uma escolha. Theo esperou. Um segundo, dois, cinco. A mão dela se moveu com a lentidão do medo. Primeiro um dedo, depois o pulso, depois o braço inteiro.
A ponta dos dedos tocou o cobertor como se provasse gelo, o arrastou um pouco, pegou a garrafa. Tentou levá-la à boca com ambas as mãos, mas o tremor traiu a força. A água tocou os lábios, desceu um gole que ardeu, outro que quase a fez tossir. Abaixou a garrafa, engolindo como quem engole fogo.
—Devagar. —disse Theo, e a voz saiu mais baixa do que pretendia.
Bebeu mais dois goles, curtos, e colocou a garrafa no chão, como se pedir “mais” fosse um luxo que não merecia. O olho são voltou para ele. Não havia gratidão. Havia avaliação. Como se a mente da jovem fizesse cálculos: o que ele quer em troca? Homens assim sempre querem algo.
Theo não desviou o olhar. Sabia o que aqueles olhos buscavam e, mais ainda, sabia o que não queria ver refletido neles. Não precisava ser amado, respeitado ou admirado. Precisava ser… previsível. No mundo em que ela esteve, a imprevisibilidade era um tipo de tortura.
—Vou tirar a corrente do seu pé. —avisou— Não vou te tocar. Só vou cortar o cadeado.
Nikos lhe estendeu a tenaz de pressão. Theo se agachou, calibrando a ferramenta com cuidado para que o primeiro estalo não soasse como uma ameaça. A corrente gemeu quando o ferro mordeu o elo errado. Ajustou a posição, respirou ao compasso do tique do gotejo, encontrou o ponto, e o estalo que veio depois foi seco, eficiente, quase limpo. O metal se abriu como lábio que confessa. A corrente caiu um centímetro, aliviando a carne ferida.
Ela não fugiu. Poderia ter se arrastado para o canto mais escuro, poderia ter lançado a garrafa contra ele como gesto desesperado de quem recupera um centímetro de autonomia. Não o fez. Ficou, tensa, como se todo o corpo só aguardasse a ordem invisível de um capataz que já não estava ali.
Algo se quebrou por dentro de Theo, mas ninguém ouviu. Sim viram, em compensação, a forma em que olhou a ferida exposta no tornozelo, o músculo que saltou e desapareceu na linha da mandíbula, o cuidado milimétrico com que afastou a corrente até o ponto de que já não tocasse a pele. Compadecer-se não combinava com Dom Greco. Mas a compaixão não pede permissão para entrar, às vezes irrompe pela frente e se senta no trono um minuto.
—Cobertor. —disse, e o empurrou com dois dedos mais perto.
A jovem o atraiu para si com movimentos curtos, como quem rouba algo. Cobriu os ombros. O tecido áspero pareceu um abraço mal feito, mas foi o primeiro em muito tempo. O tremor diminuiu um ponto.
—Dom… —começou Nikos, sem terminar. Não era preciso terminar. A pergunta estava no ar… o que fazemos com ela?
Theo seguiu olhando a figura encolhida. O mundo ao seu redor girava sobre um eixo simples: dívidas, rotas, carregamentos, códigos, fidelidade. Aquele porão, aquela corrente, aquele olho insistente… isso não entrava em nenhuma coluna da contabilidade. E, ainda assim, ali estava a decisão mais lúcida que havia tomado em meses.
—Ela não fica aqui. —A ordem saiu sem pingo de voz— Ela não volta com ninguém. Não é prova, mercadoria nem moeda.
Nikos assentiu, um gesto curto, aliviado por ter uma ordem para obedecer.
—Médico, Dom? —se atreveu.
Theo pensou no toque de mãos estranhas sobre a pele ferida. Pensou na mordaça cortada e no movimento delicado de levar água à boca. Pensou no olhar que media perigos. E decidiu:
—Médico, sim. Mas não aqui embaixo. E não agora. Primeiro sai da escuridão.
A lâmpada do teto piscou como se tivesse escutado. O tique do gotejo seguiu marcando um tempo antigo. Theo se ergueu devagar, os joelhos protestando sob o peso da idade que só lembrava quando o corpo se dobrava. Endireitou o casaco como se recolocasse no rosto a máscara que a compaixão tenta puxar.
—Preparem a saída. —disse a Nikos— Quero o corredor livre, carros prontos, gente no perímetro dobrado. E… —olhou para a jovem de novo, medindo palavras, talvez pela primeira vez em anos— ninguém fala do que viu. Nem hoje, nem nunca. Quem quiser respirar amanhã, aprende a calar agora.
—Sim, Dom.
Ficou um instante mais. Não era necessário, estrategicamente não somava nada, mas ficou. O olho são dela se fixou no seu durante três segundos inteiros. Três segundos são uma eternidade quando o que se troca é a possibilidade de não morrer.
—Quando estiver pronta, você se levanta. —disse, como quem dá uma alternativa e não uma ordem— Não antes.
A cabeça dela fez um gesto mínimo que podia significar nada, e talvez significasse exatamente isso: nada. Mas, para Theo, foi suficiente. Deu um passo para trás, outro, retrocedendo sem dar as costas. Cedeu a Nikos o espaço para cruzar à frente, organizar os homens, anunciar a subida.
Quando a sola voltou a tocar o primeiro degrau da escada, Theo sentiu o ar diferente, mais leve, como se o porão exalasse uma última lembrança de tudo o que guardou. O mundo de cima esperava: corpos, cinzas, papéis queimados, cadeados novos em portas velhas. Subiu. Ao chegar ao nível do galpão, a noite descontou sobre seu rosto o vento frio de Toronto. Os homens abriram caminho. Os carros aguardavam.
—Dom… —chamou Nikos de baixo, a voz baixa, mas firme, como quem traz nos braços algo que pode quebrar o silêncio— Está pronto.
Theo não respondeu de imediato. Colocou as mãos nos bolsos, tocou a borda do isqueiro, sentiu a ausência do cigarro, mas não acendeu nada. Olhou para a entrada da escotilha como quem encara um portal.
Quando baixou os olhos, já sabia que o gesto seguinte mudaria o eixo de tudo o que chamava ordem. E, ainda assim, foi o único que fez sentido.
—Tragam-na. —A voz não tremeu— Com cuidado.
Ninguém se moveu com pressa. Nem ele. A noite, cúmplice de todos os acontecimentos, pareceu conter a respiração por um segundo, como se o porão de baixo tivesse decidido, enfim, devolver um segredo ao mundo.
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